sábado, 25 de abril de 2009

Aperto



Luci Afonso
Em tempos de hiperendividamento, é bom tomar alguns cuidados na hora de consumir ou de ser consumido.

Automóvel. Se você não ultrapassa os 80 quilômetros por hora, só usa o carro durante o dia, não dirige com chuva e nunca sai do Plano Piloto, resista à tentação de comprar, em 48 prestações altíssimas, um modelo superesporte, motor 1.8, faróis de milha, rodas de liga leve e outros acessórios que nunca aprenderá a usar. Há o risco de atrasar as prestações e ter que repassar o veículo pelo preço que conseguir achar na Cidade do Automóvel, antes que o Oficial de Justiça apareça com o mandado de busca e apreensão.

Transporte alternativo. Se a situação acima se concretizar, passe a utilizar o serviço de radiotáxi para se locomover. Escolha um bom livro para ler enquanto aguarda e exija sempre os 30%, mesmo que o motorista seja uma besta e finja não saber que o desconto é obrigatório. Por precaução, vá pesquisando os trajetos, tarifas e horários dos zebrinhas e circulares, caso a situação se agrave.

Eletrodomésticos. Se você não dispõe de tempo nem de paciência para assistir à TV, evite adquirir uma LCD, 42 polegadas, conectável a todos os tipos de mídia existentes. Provavelmente, você só ligará a antena coletiva, o DVD e a televisão a cabo, para sua mãe usar duas vezes por semana, quando vier cuidar do neto. Na remota possibilidade de precisar vender o aparelho, anuncie nos classificados de domingo, levante-se às 5 da manhã para atender às ligações e aceite a oferta do primeiro casal que aparecer. No mesmo dia, convide seu ex-marido para almoçar e, enquanto serve o frango assado com farofa (16 reais na Só Frango), pergunte que fim levou a televisão de tubo, 29 polegadas, que você lhe deu ano passado.

Doações. Cancele todas as contribuições a entidades beneficentes e esclareça que não tem previsão de quando poderá ajudá-las novamente. Se as voluntárias continuarem ligando, não se comova com a entonação dramática nem se deixe seduzir pelos elogios desinteressados que elas certamente farão à sua bondade e desprendimento.

Parentes. Não importa o quanto você ame seus familiares, não assuma compromissos por eles. Afeto e finanças são uma combinação explosiva. Se um parente deixar de cobrir um cheque que você emprestou ou de pagar um empréstimo que você fez para tirá-lo do sufoco, o prejuízo será enorme, assim como a chateação de fingir que nada aconteceu. Desconfie, principalmente, de ascendentes de primeiro grau, que na hora do favor agradecem com os olhos brilhantes e a expressão “Deus lhe pague”, mas, na hora da cobrança, sentem-se ofendidos e juram nunca mais fazer negócios com você.

Esses são os principais perigos. Há outros, mas o zebrinha vem chegando e preciso tomar cuidado para não perdê-lo.
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A arte de escrever é o ofício de reescrever

Neil Ferreira*

Um texto não pode ser chato.

Um texto não pode insultar a inteligência de quem o está lendo. Um texto tem que ter ritmo. Às vezes você vê um redator brigar que nem um leão por causa de um ponto e vírgula, porque, na respiração desse redator, essa frase tinha um ritmo tão emocionante que, sem esse ponto e vírgula, talvez seria quebrado um ritmo, quebrando a comunicação de uma idéia bela, de um raciocínio emocionante. Talvez esse ponto e vírgula não seja nem ao menos essencial ao conteúdo da mensagem. Mas é muito provável que ele seja essencial à forma da mensagem, a roupa que ela vai vestir para chamar atenção, para cativar, para emocionar as pessoas. Essa roupa vai ser criada e costurada por um homem solitário, neurótico, inseguro e talentoso, irritante e emocionado, que luta com a máquina de escrever, briga com o papel em branco cada dia, não sabendo nunca se ele vai vencer a briga.

Cada linha que ele constrói, ele implora para que o leitor leia a próxima linha.
Cada parágrafo implora para que o outro parágrafo seja lido.

O talento, o instinto, o suor e o sofrimento desse homem não merecem que um mau editor venha friamente tentar contribuir com o “tira-essa-palavrinha-daqui-e-põe-ali”, derrubando toda uma pirâmide de palavras, desarticulando uma forma bela, anarquizando um texto emocionante (...)

O que eu sei dizer é o que eu sinto. Não existe texto curto ou texto comprido. Existe texto bom ou texto ruim. Não existe texto que o público não lê. Existe texto banal, medíocre, sem surpresa, que não enriquece a vida de ninguém, nem de quem lê, nem do produto que ele está anunciando.

Eu costumo dizer para o pessoal que trabalha comigo: “Olha, gente, quando vocês não têm nada para dizer, não digam. Às vezes, o silêncio fala muito mais do que 30 mil palavras vazias. Quando vocês têm uma emoção violenta para comunicar, comuniquem de forma violenta. Quando vocês não têm uma emoção para transmitir, mas têm um fato, comuniquem esse fato, mas com estilo; e quando vocês não têm nada a dizer, não digam”.

Acho que esses são os bons textos.


(*Famoso publicitário paulista. Entrevista concedida em 1979 e reproduzida em http://professortexto.blogspot.com/)
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Como assim?


A qual expressão idiomática correspondem os eufemismos abaixo?

- Aplicar a contravenção do senhor João, deficiente de um dos membros superiores.

- Colocar o prolongamento caudal em meio aos membros inferiores.

- Deglutir o batráquio.

- Derrubar, com a extremidade do membro inferior, o suporte sustentáculo de uma das unidades do acampamento.

- Não considerar a possibilidade de a fêmea bovina expirar fortes contrações laringobucais.

- Não considerar, sequer, a utilização de longo pedaço de madeira.

- Prosopopeia flácida para acalentar bovinos.

- Romper a face.

(Revista Língua Portuguesa nº 39, janeiro de 2009)
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sábado, 18 de abril de 2009

Queria te contar também

Luci Afonso


Prima,

Palavras não poderiam expressar meus agradecimentos por demonstrações de tanto carinho e consideração, que, pode ter certeza, são recíprocos. Você me dá prazer de viver, de me sentir gente. Depois do nosso reencontro, estamos mais confiantes para encarar as tranqueiras da vida.

Eu e Tetê procuramos o encantamento que anda meio sumido. Quem sabe, um dia, nossos comparecimentos voltem à normalidade.

Estou me recuperando de uma noite maldormida (graças a Deus, elas têm sido raras). Fiquei na Internet até tarde e precisei acordar cedo para fazer um curso no Detran.

Apesar da solidão, estou satisfeito, aprendendo a agradecer a Deus tudo o que Ele me envia. Deixo a vida me levar, um dia de cada vez, extremamente motivado, mas também com alguns medos.

Andei comparando meus pensamentos e atitudes aos de um ano atrás, e, honestamente, creio estar progredindo. Em vez da forte depressão daquela época, sinto-me fortalecido — às vezes, inclinado até a me considerar patrimônio da humanidade.

Tento aceitar o fato de não morar mais com esposa e filhos. Tantos anos de convívio! Não há como apagá-los do coração.

Queria te contar também... à noite deixo minha janela entreaberta e peguei a mania de contemplar o relógio da estação, 20 minutos adiantado. Adoro a vista da praça e da escadaria de mármore. Lembra que a gente escorregava do alto do corrimão e subia de novo as escadas até ficar sem fôlego?

O relógio está marcando quase 22 horas. Que paz! Estou ouvindo uma música que sai do prédio da estação e me preparando para ir ao aniversário do meu compadre Tadeu.

Se dependesse de mim, iria a Brasília o quanto antes, mas a previsão é só depois de junho, num fim de semana em que você puder me receber sem atrapalhar seus compromissos.

Ontem transmiti seu abraço ao papai. Nada melhor do que chegar à casa dele e vê-lo tão bem, o semblante vivo, os olhos brilhantes. Há muito tempo isso não acontecia.

O Araxá Esporte começou a disputar a segunda divisão do campeonato mineiro. Enquanto vemos os jogos, falamos sempre no tio Cici. Lembra que ele sempre nos levava ao estádio? Nossos pais passaram grandes momentos ali. Doce recordação...

E a vida continua.

No mais, aqui vou terminando.

Abraços a todos.
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E o cronista, o que é?

Machado de Assis dizia que o cronista é uma espécie de colibri que beija um assunto aqui, outro ali. Veríssimo diz que o cronista é como uma galinha, bota seu ovo regularmente, e Carlos Eduardo Novaes define as crônicas como laranjas: podem ser doces ou azedas, e ser consumidas na poltrona da casa ou espremidas nas salas de aula.

Para atender à crônica é necessário considerar o espaço em que ela se insere. E esse espaço é ambíguo. Ela pertence à série jornalística e à série literária. É escrita em jornais e revistas que são consumidos rapidamente e esquecidos. Mas, se for realmente um produto literário, será logo resgatada em livro.

No espaço da crônica, há uma troca de intersubjetividades. O leitor entra em outra frequência. Rubem Braga escrevia em FM, a sonoridade de sua frase e a melodia do pensamento têm função na comunicação.

Existe uma complexa relação do cronista com o tempo. Vinícius certa vez se referiu ao fato de que, chamado para ser cronista da Última Hora, pensou em ter sempre umas crônicas adiantadas, para dormir mais tranquilo. Não conseguiu. O cronista acaba gostando do desafio da folha em branco.

O cronista escreve com cronômetro na alma. Existe um tempo veloz de elaboração do texto e sua crônica atinge um amplo espaço de leitores, tendo um consumo imediato. A relação com seu público é quente, mas ao cronista pode acontecer de sobreviver ao seu tempo, vingando-se do seu Cronos.

O cronista é um indivíduo encharcado de seu tempo. Enfim, um escritor crônico.

(Trechos de Teoria da crônica, de Affonso Romano de Sant’Anna, publicada no livro “A sedução da palavra”, Editora Letraviva, Brasília, 2000)
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Chateando Camões


Algumas expressões idiomáticas de países lusófonos

Angola

Dar gasosa - Entregar gorjeta, gratificação, ou suborno
Dar jajão - Simular
Apanhar a pata - Ter controle sobre alguém
Calça queima bilhas - Calça muito justa
Não maia - Não falha, não vacila.

Brasil e Portugal

Ficar à sombra da bananeira - Ficar despreocupado.
Pensar na morte da bezerra - Estar distraído/a
Ter macacos (ou macaquinhos) no sótão - Ter ilusões
Voltar à vaca fria - Voltar ao assunto com que se iniciou uma conversa.

Brasil

Bater com as dez - morrer
Briga de foice (no escuro) - mulher feia
Descascar o abacaxi - resolver problema complicado
Ensacar fumaça - fazer trabalho inútil
Enxugar gelo - insistir em um trabalho inútil
Mudar do saco para a mala - mudar totalmente de assunto
Pagar o pato - ser responsabilizado por algo que não cometeu
Pensar na morte da bezerra - distrair-se.

Portugal

Água pela barba - Situação desesperante
Cabeça de alho - chocho, distraído, esquecido
Chatear o Camões - Ir chatear outra pessoa
Descalçar a bota - Resolver um problema
Estar com os azeites - Estar aborrecido / chateado com algo
Ir aos arames - Enervar-se, irritar-se
Muitos anos a virar frangos - Muita experiência
Pôr a pata na poça - Fazer asneira.

(Fonte: Lista de Expressões Idiomáticas da Wikipédia)
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sábado, 11 de abril de 2009

Tá entendendo?



Luci Afonso

O Guia de Bolso das Parcerias — Saiba como evitá-las* ensina a identificar os perigos desse recurso aparentemente inofensivo e cada vez mais empregado no mundo corporativo.

Em linguagem coloquial, com explicações em forma de perguntas, o Guia de Bolso alerta para os riscos dessa ferramenta quando mal utilizada.
Eis alguns verbetes:

A-tra-pa-lhar. Que trapo inventou esse negócio, bicho?
Des-mem-brar. Cabeça é membro, cara? Se for, pode cortar?
Des-pe-da-çar. Vaso bom não quebra, tá entendendo?
Man-dar. Variação de não dar, saca?
Obs-tru-ir. Bizarro ou sinistro, mano?
Par-cei-ri-zar. Tá de zoa, brother?
Pi-sar. Pé no saco, sacou?

Conheça o intrincado mundo das parcerias e aprenda a manter distância, se necessário. Uma dica importante: na dúvida, diga “não” e corra sem olhar para trás.

Guia de Bolso das Parcerias — criar é preciso, parceirizar não é preciso.

*Atualizado com a reforma ortográfica.
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Adjetivo forte



Adjetivos não devem ser rejeitados, mas substituí-los num texto por uma indicação concreta é sinal de competência literária.

Braulio Tavares

Por que todo Manual de Estilo nos aconselha a eliminar adjetivos? E por que achamos tão difícil obedecer? Um adjetivo é útil porque é um atalho, uma simplificação de um processo, um recurso que economiza esforço mental. É uma informação que o autor entrega ao leitor para absorção instantânea, poupando este do trabalho de pensar. O autor preguiçoso escreve: "Fulano de Tal era um funcionário honesto, esforçado, mas pouco imaginativo". Esses adjetivos lhe poupam o trabalho de demonstrar concretamente qualidades abstratas. E o leitor preguiçoso aceita essas conclusões porque elas o livram de acompanhar uma demonstração e tirar conclusões próprias.

Há um princípio estilístico segundo o qual é preciso "mostrar, em vez de apenas dizer". Em vez de informar ao leitor alguma coisa a respeito de um personagem ou situação, é preferível fornecer pistas para que ele deduza a informação. Se ele o consegue, esta pequena descoberta cria uma parceria entre autor e leitor. O leitor murmura "ah, sim, entendi", e dá uma piscadela cúmplice para o autor.

"Felisberto abriu a porta e deparou com um homem de aparência pobre." Se Felisberto chegou num relance à conclusão de que o outro era pobre, talvez fosse melhor registrar o que Felisberto viu e permitir que o leitor refizesse seu raciocínio. Se dizemos: "Felisberto abriu a porta e deparou com um homem vestindo um terno cheio de remendos e calçando sapatos surrados", aí sim, nossa conclusão pode ser parecida com a de Felisberto.

Concretude

A maioria das descrições de características físicas pode ser enriquecida pelo método indireto de exposição. "Antônio espremeu-se para dentro do carro e o banco afundou sob seu peso" é melhor do que "Antônio, um sujeito corpulento, entrou no carro". Em vez de dizer "uma bela loura de vestido preto cruzou o saguão" pode-se dizer "uma loura de vestido preto cruzou o saguão, atraindo os olhares masculinos à sua passagem". Ou algo assim.

Há sempre uma maneira concreta de mostrar algo em vez de apenas usar um adjetivo. "O chão estava úmido" é mais vago do que "o chão mostrava poças formadas pela chuva da véspera". Nestes casos, é melhor uma imagem visual complexa, mesmo que de maior extensão. Parece uma perda, uma prolixidade desnecessária; mas um escritor decide o tempo inteiro, intuitivamente, o que funciona melhor em cada frase. Às vezes, é melhor a concisão abstrata de um adjetivo para ganhar tempo. Às vezes, é preferível a descrição concreta, porém mais longa, daquilo que ele quer transmitir.

Adjetivos que exprimem estados emocionais podem, em geral, ser substituídos por uma descrição de ação ou comportamento. "Fulano levantou-se furioso e saiu da sala" pode virar "Fulano levantou-se empurrando a cadeira para trás e saiu da sala sem uma palavra, batendo a porta com força". O primeiro exemplo é uma simples frase. O segundo equivale a uma imagem.

Incomum

Há em alguns autores a tentação da adjetivação incomum, inesperada. Um adjetivo pode ganhar expressividade quando é usado de maneira, à primeira vista, imprópria, mas que lhe dá um sentido metafórico. "Ela o fitou com olhos ínfimos." "Fulano sentiu-se com a mente despetalada." "As cortinas do teatro se abriram, ambiciosas." "Ele tinha um olhar pegajoso." "Maria vivia num apartamento com dois gatos faraônicos." "Ao sair, encontrou no corredor um sujeito de crânio liso e óculos blindados." Quais dessas adjetivações funcionam? Difícil saber. Expressões assim estão no limite entre o incomum e o ridículo. "As Ruínas Circulares", conto de Jorge Luís Borges, começa com a frase: "Ninguém o viu desembarcar na noite unânime". Borges comentou certa vez: "Isto mostra apenas como naquele tempo eu escrevia de maneira irresponsável".

Se um substantivo deve vir acompanhado de mais de um adjetivo, é melhor que estes cubram áreas totalmente diversas e que um se refira a uma característica física e outro a uma característica de temperamento. "Era um sujeito gordo e impaciente" é uma descrição mais breve e mais rica do que "era um sujeito alto e gordo" ou "era um sujeito falador e impaciente".
Deve-se evitar a todo custo o adjetivo grudado a um uso específico, um vício da imprensa: "tórrido romance", "carreira meteórica", "discurso inflamado", "sol abrasador", "corpo escultural" etc. Clichês assim são como baratas, impossíveis de extinguir, mas podemos mantê-los a distância.

Falta de critério

Quando utilizado sem critério, o adjetivo se torna uma moeda sem lastro, um cheque sem fundos cujo valor nominal não corresponde a um valor concreto. Esse valor só existe quando o autor do texto produz uma impressão de realidade compartilhada pelo leitor, recriada por este na leitura. Quando escrevemos: "A sala estava desarrumada", é como se estivéssemos impedindo o leitor de entrar na sala e constatar por si mesmo, sendo obrigado a acreditar na nossa palavra e aceitar nosso julgamento. Se, por outro lado, escrevemos: "Na sala viam-se copos sujos sobre os móveis, cinzeiros cheios, peças de roupa espalhadas pelo chão", é como se autor e leitor estivessem vendo o mesmo quadro, ao mesmo tempo, e talvez chegando juntos à mesma conclusão.

Os adjetivos não devem ser proscritos, mas é preciso saber quando usá-los, pois não são sinal de concisão. Na maioria dos casos é sinal de preguiça de quem quer resolver rapidamente um problema criativo complexo. Substituir um adjetivo (ou um advérbio, ao qual se aplica quase tudo dito aqui) por uma indicação concreta a ser interpretada pelo leitor, é um pequeno teste de competência literária.

Braulio Tavares é compositor, autor de Contando Histórias em Versos (Editora 34, 2005). btavares13@terra.com.br

Revista Língua Portuguesa nº 42, abril de 2009

(Imagem: niilismo.net/galeria)
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Operação Narciso



“Caríssimos, e bota caro nisso,

Essa Operação Narciso me deixou aloPrada! Alguém me deFendi. Não sou dessa Alaia. Não é Versace o que Diesel por aí. Sou pessoa Dolce & Bacanna. Pucci que Paris! Estão me pegando para Christian, meu Dior. Preciso de um Cacharel em direito, um cara Valentino para dar um jeito nessa Bottega, antes que coloquem no meu Rabanne. Eu não vou botar o Galliano dentro não. Chloé? Vou continuar minha Missioni.

Miu Miu, abraços para vocês!

Eliana”


(Texto recebido por e-mail)
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sábado, 4 de abril de 2009

Senhorita



Luci Afonso

31 de dezembro de 1958. Noite de gala no Grande Hotel Thermas do Barreiro. O rapaz alto e magro se aproxima da mesa num elegante terno branco, o cabelo preto engomado com brilhantina. É o homem mais bonito do baile. Ela está deslumbrante no vestido de crepe vermelho, o coque preso por uma tiara, os dentes branquíssimos realçados pelo batom na mesma cor da roupa.

Observam-se discretamente desde o começo da festa, mas só agora ele toma coragem para convidá-la.
— Senhorita, quer me dar o prazer de sentir o calor de seus braços?

Ela estende a mão direita, mostrando o anel de brilhantes que ganhou do pai no aniversário de quinze anos. O moço a conduz gentilmente ao centro do salão e a enlaça com delicadeza pela cintura, mantendo a distância respeitosa exigida à época.

— Qual é a sua graça? - ele pergunta, antes de iniciar a valsa.
— Vera Lúcia - ela responde, já apaixonada pelo desconhecido de fala mansa e gestos serenos.

José, apelidado de Patesco em homenagem ao famoso jogador do Botafogo na década de 40, tem paixão pelo futebol. É atacante no melhor time local e coleciona troféus de campeonatos vencidos nas redondezas. Concluiu o tiro-de-guerra e agora trabalha no comércio da família.

Verinha é filha de um grande fazendeiro. Acaba de se formar na Escola Normal e está entre as beldades mais cobiçadas da pequena cidade.

O lindo casal gira pelo salão, sob o olhar invejoso dos outros pares.

1º de julho de 1959, Igreja Matriz. O matrimônio de José e Vera Lúcia é o principal assunto das colunas sociais nas semanas seguintes. “Magnífico enlace”, dizem as manchetes.

Passam-se cinquenta anos. Patesco e Verinha moram numa casa humilde num bairro afastado. O dinheiro se foi, a saúde, também. Os filhos se revezam no cuidado com os pais. Ela quase não sai, acometida pela esclerose que lhe exige repouso e que, às vezes, lhe rouba a lucidez. Ele gosta de encontrar os amigos na praça, pela manhã, para discutir futebol. Seu grande orgulho é o neto mais velho, que lhe segue os passos de atacante.

1º de julho de 2009. A família se reúne para comemorar as bodas de ouro e só vai embora ao anoitecer. Na casa silenciosa, o marido senta-se na beira da cama, desperta a mulher com um leve beijo no rosto e lhe diz ao ouvido:
— Senhorita, quer me dar o prazer de sentir o calor de seus braços?

Ela reconhece, por um breve instante, o moço bonito no terno branco. Ajeita o penteado, desamarrota o vestido e dá a mão ao cavalheiro.

— Qual é mesmo a sua graça? - ele brinca.
— Vera... Lúcia... - ela diz, num esforço de memória.

O belo casal rodopia pelo quarto, sob o olhar comovido dos anjos.

(Imagem: Dark Beauty, Charles Lidderdale)

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Os riscos do métier


Affonso Romano de Sant’Anna

Escrever é atividade de alta periculosidade. Muitos se feriram, inúmeros morreram e morrem por causa disto.

Um dos riscos mais sutis é o de não saber ouvir sua própria voz de criador. Por mais bela que seja a voz do outro, ela não é a minha. O criador deve ter a humildade de soprar, murmurar ou cantar seu próprio canto.

Outro é o de acompanhar a moda artística. Esta é a literatura de surfista. A escrita depende das ondas.

Outro risco: a luta contra o maneirismo que advém após a aquisição de um estilo pessoal. O artista se empenha por adquirir sua linguagem e deve continuar a lutar para que ela não se transforme num recurso automático de expressão. Caso contrário, o artista será o imitador de si mesmo e, neste caso, ele deixa de ser um criador.

É preciso estar atento contra a exacerbação teórica. A teoria em excesso mata o criador. É uma tarefa dura e delicada o despojar-se dos conhecimentos teóricos durante o voo da criação.

Do ponto de vista ético, o grande risco é a infidelidade, ou seja, a dispersão. A arte não tolera meios amores, ela é monogâmica e possessiva.

Finalmente, é preciso não cansar o leitor. Aborrecer seu público é um risco que sobretudo o cronista deve evitar.



(Trechos de crônica publicada no livro A sedução da palavra, Editora Letraviva, 2000. Imagem: http://professortexto.blogspot.com/)
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Em outras palavras

Judy Wallman é pesquisadora de genealogia nos EUA. Durante pesquisa da árvore genealógica de sua família, deu de cara com a informação de que seu tio-bisavô Remus Reid era ladrão de cavalos e assaltante de trens. No verso da única foto existente de Remus (em que ele aparece ao pé da forca), está escrito:

Remus Reid, ladrão de cavalos, mandado para a Prisão Territorial de Montana em 1885, escapou em 1887, assaltou o trem Montana Flyer por seis vezes. Foi preso novamente, desta vez pelos agentes da Pinkerton, condenado e enforcado em 1889”.

Acontece que o ladrão é ancestral comum de Judy e do Senador Harry Reid, do Estado de Nevada. Judy enviou um e-mail ao Senador, solicitando informações sobre o parente comum, mas não mencionou que havia descoberto que o sujeito era um bandido.

A atenta assessoria do Senador respondeu desta forma:

Remus Reid foi um famoso cowboy no Território de Montana. Seu império de negócios cresceu a ponto de incluir a aquisição de valiosos ativos equestres, além de um íntimo relacionamento com a Ferrovia de Montana. A partir de 1883, dedicou vários anos de sua vida a serviço do governo, atividade que interrompeu para reiniciar seu relacionamento com a Ferrovia. Em 1887, foi o principal protagonista em uma importante investigação conduzida pela famosa Agência de Detetives Pinkerton. Em 1889, Remus faleceu durante uma importante cerimônia cívica realizada em sua homenagem, quando a plataforma sobre a qual ele estava cedeu”.

(Adaptado de Eduardo A. A. Domingues, em http://professortexto.blogspot.com/)
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© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira