domingo, 30 de dezembro de 2007

A retrospectiva do velho menestrel

Nestor Kirjner



Andei um bocado por Brasília no ano de 2007, fazendo o que gosto e trabalhando pela cultura da cidade. Não vi tudo, participei apenas daquilo a que pude assistir. Mas, modestamente, destaco algumas coisas que vi e ouvi com emoção e prazer, nesse triste ano político de nossa existência.

E ELES CONTINUAM POR AÍ: No ano em que Renan, Mônica Veloso, George Bush e Hugo Chávez reinaram absolutos nas manchetes brasileiras, fica difícil falar em esperança. Meu xará argentino também deu uma força ao caudilhismo emergente na América Latina, promovendo a segunda ressurreição de Evita, desta vez com o nome de Cristina Kirchner. A “prima” é minha, mas vai sobrar pra todos nós! E o Evo boliviano? Que que é isso, Sílvio Luiz? Mas deixa pra lá! Coluna cultural não deve falar de política. Talvez seja melhor esquecer os perigos de 2008 e dar um passeio pela música do Planalto Central em 2007. Vamos lembrar o que houve de bom por aqui. Alô, Joaquim Barbosa! Vê lá, Mermão! Não vá decepcionar a gente em 2008! Segura aí um pouco de ética, que a gente num “güenta” outro 2007, ano do cinismo descarado e da desmoralização da classe política atual, que absolveu o Renan pra fechar o ano com “chave de ouro”.

ANDANÇAS CULTURAIS DO VELHO MENESTREL: Preocupado com tudo isso, e bastante acabrunhado! Mesmo assim, o Velho Menestrel não pode queixar-se de 2007, que lhe propiciou saborosas andanças pelo ambiente cultural de Brasília. Pude ver o Coral Alegria, onde exerço a Direção Musical, ser incorporado pela CODEPLAN, crescer, refinar-se e sobreviver à mudança do Governo local, sem descontinuidade de suas atividades sócio-culturais. Parabéns à regente Ana Boccucci, vitoriosa nessa luta! Assisti também a grandes reuniões no Clube do Choro, que continua a ser um marcante agente cultural desta cidade. Parabéns, mais uma vez, a Reco do Bandolim, o eterno homenageado! Pude participar da 100ª reunião do Clube da Bossa Nova, até para me convencer de que não sou mesmo um bossanovista. Mas não posso deixar de assinalar o trabalho de Dickran Berberian à frente daquela entidade, apoiada pelo sempre maestro Bohumil Med, que cede as dependências de sua livraria para a realização dos encontros do Clube. Já os “Seresteiros do Cerrado” continuaram a realizar reuniões em que a tônica foi a preservação do cancioneiro mais tradicional da MPB. Os parabéns, agora, vão para Dom Wilson, incansável batalhador dessa causa um tanto inglória, mas que tem nos Seresteiros um grande foco de resistência. Sônia Ferreira, presidente do Centro de Cultura do Centro-Oeste, conseguiu reeditar sua luxuosa antologia dos artistas dos quatro Estados de nossa Região, viajando o ano todo na busca desse intento. A Feira do Livro foi testemunha de sua vitória sobre todas as dificuldades que a ela se antepuseram. Salomão di Pádua, com sua voz privilegiada e rigorosa seleção de repertório, foi o anfitrião brasiliense naquele que acredito ter sido um dos shows do ano em Brasília. Ele recebeu Vânia Bastos, extraordinária cantora brasileira que a mídia insiste em ignorar. Divina Vânia, uma Elizeth renascida! E, por falar em divas, Célia Rabelo, sempre muito talentosa, mostrou uma capacidade de trabalho incrível e esteve em todos os lugares em que a boa música poderia dizer “presente”. Foi a “formiguinha do ano”, incansável como artista e brilhante como cantora. Conceição Salles ameaçou nos deixar de vez, mas cedeu aos apelos do grande Antônio Miranda, que, além de conduzir com brilho essa primeira fase da Biblioteca Nacional, reintegrou Conceição à cena brasiliense. Miranda foi homenageado pelo Sindicato dos Escritores nas dependências do UniCeub, onde o coordenador cultural Victor Boccucci e a professora Lúcia Leone, da Associação de Docentes, estimulam a trajetória de muitos artistas brasilienses e valorizam datas importantes do calendário cultural, como a Semana do Artesão e o Dia do Idoso. Como reverência ao trabalho desses educadores, devo informar que foi no auditório do UniCeub que encontrei guarida para minha arte e minhas canções, e onde fiz a mais bem sucedida apresentação deste ano de 2007. Cabe citar, ainda, a brilhante participação de Ydê Afonso e Luiz Carlos Cerqueira na Diretoria da Casa do Poeta Brasileiro, que fez ressurgir a entidade na cena cultural da cidade com base no trabalho criativo e pertinaz desses dois consagrados artistas candangos. Finalmente, quero destacar a personalidade do ano, aquela que mais marcou minhas andanças culturais pelos teatros e ambientes culturais de Brasília. Os brilhantes saraus, aulas, oficinas e palestras levam-me a apontar Marco Antunes e o Núcleo de Literatura da Câmara dos Deputados como a grande presença do ano nas atividades culturais de Brasília em que tive oportunidade de participar. Além de ativo e profícuo produtor cultural, Marco é um excepcional intérprete de textos e poemas. De Brecht a Caetano Veloso, de Clarice Lispector a Cecília Meirelles, de Drummond a Mário Quintana, tudo o que for genial tem abrigo na atividade desse iluminado cultor das artes e da beleza espiritual.

CULTURA É FUNDAMENTAL: Muito mais do que entretenimento, cultura é comportamento, é o desenvolvimento intelectual do ser social, aquilo que realizamos (ou não) a partir da educação e da informação que recebemos. Participar da vida cultural não é luxo nem requinte, mas necessidade essencial do ser humano. Pense nisso, e incorpore essa preocupação nos planos que você está formulando para 2008! E tenha um feliz período de 365 dias, quando seu espírito, elevado pela cultura, saberá mais bem compreender os absurdos e paradoxos da vida que nos é oferecida como dádiva. Ou, traduzindo tudo isso num lugar-comum: Feliz Ano Novo, Mermão!!!! Tudo de bom pra você!!!




LAGO NOTÍCIAS NO. 131
DEZEMBRO DE 2007














Nestor Kirjner é autor da "Sinfonia da Cidade Nova" e mantém a coluna "Toques Culturais", há oito anos ininterruptos, no jornal Lago Notícias.


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sábado, 22 de dezembro de 2007

Convite para o aniversário de um perdedor

Marco Antunes








Eu quero convidá-lo
para comemorar o nascimento
de um cara que viveu muitos anos atrás.


Um sujeito franzino
que nunca teve porte de general
e não sonhou jamais
conduzir exércitos e batalhas.


Um pobretão de família obscura
cujo pai não passava de um simples operário
e a mãe, pelo que se sabe, fora apenas doméstica.


Nosso homenageado
jamais se sentou
entre os letrados de sua época
como um igual.

Suas letras eram mínimas,
sua erudição inexistente
e jamais investigou as sutilezas da filosofia
ou enfrentou os mistérios da ciência.


Dir-se-ia um homem comum
que respeitava os costumes
e cumpria as datas culturalmente acordadas.


Você, com todo direito me perguntará agora
pelos feitos que o notabilizam
para que se o comemore.


É uma justa pergunta
sem resposta previsível
ou com respostas povoadas
mais de negativas que de afirmativas.


Não lutou batalhas
nem ganhou uma guerra;
Não construiu monumentos
nem governou seu povo;
Não viajou pelos campos abstratos da mente
nem descortinou novas terras;
Não escreveu livros,
aliás, nada escreveu
além de umas poucas palavras na areia,
depois apagadas.
Não fez eloqüentes discursos
às portas da lei,
Não pintou a sublimidade,
Não esculpiu a grandeza humana,
Não compôs cantos aos deuses.
Nada!

Nada fez ou realizou
daquele tipo de feitos
que mereça estátuas
e odes heróicas dos poetas deslumbrados.
Nada!


Pior, foi derrotado publicamente
e sofreu morte sem dignidade
entre ladrões.
Era, em suma, um daqueles homens
a quem os americanos chamam de perdedor:
um zero à esquerda entre nós, brasileiros.

Mesmo assim, jamais reabilitado
pelos tribunais que o condenaram,
mesmo relegado à própria sorte
pelos poucos que o seguiram no mundo...
Mesmo sepultado em túmulo de empréstimo,
mesmo vilipendiado e zombado de todos,
Mesmo perseguido depois de morto
pelos historiadores e dialéticos
mesmo questionado e até confinado
em limites folclóricos
como lenda improvável,
mesmo remorto a cada
nova moda filosófica que surgiu
nos longos séculos que mais o soterraram,
mesmo demolido por discípulos
a serviço de seus próprios egos,
mesmo desonrado a cada dia
pelos que ainda se lhe dizem fiéis...
Ele, um erro na ortografia
do livro da história.


Mesmo assim,
Ele faz aniversário
e é preciso comemorar.

Porque mesmo garantindo
trazer uma espada contra a paz,
nunca se ouviu dizer que dela tenha tomado
contra outro homem qualquer;

Porque mesmo sem que se tenha provas
de que pôs os pés fora de sua terra
não há nação suficientemente distante
em que alguém não jure de pés juntos
que o tenha encontrado um certo dia
quando precisou de um amigo;



Porque mesmo sem ter escrito
uma única palavra para a eternidade
numa época sem recursos de mídia e gravação,
tudo o que disse sobreviveu no coração
de alguns que lhe entenderam a mensagem;


Porque morto, sem provas empíricas
de ressurreição além de um túmulo vazio
e da palavra de uns poucos como ele,
e mesmo que não a tenha experimentado jamais...
Mesmo assim,
Ele dividiu o tempo impalpável em dois:
um que o precedia, outro que se lhe seguia!
Ele derrubou impérios
e em seu nome se ergueram outros!
Ele foi autor de algumas poucas palavras
que o vento não esqueceu
e que sobrevivem como tesouros de sabedoria!
Ele é o improvável que se fez indispensável!
Ele é o impossível em forma de Epifania!
Ele é o mais cabal desmentido
de nossa solidão universal!
Ele é o Deus de carne, osso e sangue visíveis
que sempre procuramos!
Ele ainda é a melhor resposta,
mesmo que nunca perguntemos!










Marco Antunes é professor de Literatura, escritor, ator e Coordenador do Núcleo de Literatura do Espaço Cultural da Câmara dos Deputados.


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Por quem os jingles dobram




Eneida Coaracy








Queridos amigos (do batente do dia-dia, não tão distantes, distanciados pelas circunstâncias da vida, de além-mares, daqui e de acolá),

Cá estamos novamente encerrando este ciclo temporal chamado ANO, criado pelo homem para ajudá-lo a demarcar etapas, ciclos, movimentos, passagens. Sinos rebimbam, jingles ecoam repetidamente na mídia, urgindo todos a comprarem, presentearem-se, confraternizarem-se. O Natal está chegando! Um Novo Ano anuncia vida nova, promessas de realizações pessoais e de sonhos, mudanças e viagens. Tudo é mágico e possível. O verdadeiro sentido do Natal, perdendo-se nesta ruidosa confraternização consumista inventada pelo homem.

Entretanto, torna-se praticamente impossível escapar do redemoinho natalino, de cuja força magnética ninguém parece conseguir escapar, inclusive eu própria, que aqui estou tentando me conectar aos meus amigos queridos e não me deixar fragmentar por esta ventania salpicada de falsas estrelinhas douradas — que cegam de tanto que cintilam, que tanto dançam ao vento que pinicam nossas peles curtidas e amaciadas pela poeira da vida. Nesta hora, não me agradam estrelinhas dançantes, nem excursões a shoppings lotados, nem repetidas confraternizações, uma após a outra, tudo no mesmo mês, quando na realidade, gostaria de me confraternizar com todos que me são queridos em momentos oportunos a cada grupo de amigos ao longo do ano que sempre avança nossas vidas adentro. Mas sei que isto nem sempre é possível, pois o tempo é indomável, segue sempre seu galope; nós, agarrados a nossas selas precárias, segurando-nos como melhor podemos, tentando manter o prumo.

Mas, que fazer? Estamos próximos ao Natal, momento em que somos cercados de uma enorme euforia, muita (falsa?) alegria e (alguma) esperança. Esperança que algo mude, talvez até o próprio sentido do Natal. Que algo mágico aconteça, que livre o homem do compromisso com o sentido essencialmente consumista que esta data passou a ter; que face à pobreza desconcertante que prevalece nas sociedades modernas, é desatualizado, hipnótico e propositalmente confuso. Comemoramos uma data que celebra o nascimento de um grande Homem, um Deus, que por aqui esteve há muito tempo atrás, que pregava a simplicidade e a harmonia entre os homens, a singeleza e a doçura. Palavras que foram reinventadas e passaram a significar sofisticação, desarmonia, complexidade e amargura. Tudo ao contrário. O que celebramos, então?

Eu, particularmente, nesta minha pequena comunicação natalina, celebro a amizade com todos vocês, o carinho que recebi ao longo deste ano, as alegrias compartilhadas, as oportunidades que tive de crescer como pessoa graças à nossa amizade e, principalmente, a prazerosa oportunidade que todos me deram, por serem meus amigos, de me sentir viva por ter um grupo de amigos com quem compartilho, de diversas formas, a Vida.

Assim, celebro a Vida, a Amizade e o Carinho entre nós!

Beijos,
Eneida








Eneida Coaracy é professora de inglês, poetisa premiada no Prêmio SESC de Poesia e cronista.







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Felicidade, eu tenho!

Sábado à tarde, comemoração do Dia das Mães na escola. Pela manhã, já ganhei o presente: um cartão tridimensional feito na aula de artes. No centro dele, um menininho com um coração pregado no peito diz que sou legal e que gosta muito de mim.
O estacionamento, insuficiente em dias normais de aula, hoje cospe os carros para as quadras vizinhas. Paramos a quase um quilômetro de distância e fazemos o trajeto a pé, no sol escaldante das 15 horas. Dezenas de famílias fazem o mesmo.
O pátio está lotado. Levo meu filho ao camarim, enquanto vou à Secretaria pegar a camiseta que devo usar no evento. Ela é preta e tem frase estampada em vermelho: “Felicidade, eu tenho!” A das crianças é branca, com os mesmos dizeres. Por precaução, encomendei o tamanho GG. Foi exagero: ela quase chega aos meus joelhos, mas não há outra disponível.
A diretora lê um bonito texto, ao qual ninguém presta atenção. Todos se fazem a mesma pergunta: “Quando vai começar?”, ou melhor, “Quando vai terminar?”
Com meia hora de atraso, ouvimos tambores, flautas e chocalhos. É a “centopéia” que vem nos buscar. Professoras vestidas de inseto vão recolhendo as mães e os convidados para levá-los ao auditório. Sou puxada por uma desconhecida, que me segura firme pela cintura até chegarmos ao nosso destino. Ensaio os passinhos, mexo a bundinha e canto, indecisa, o refrão composto pela professora de música:

“A centopéia me mandou te convidar
Para esta festa de sorrir e de cantar
Mão na cintura
Cai pra lá, depois pra cá
Essa alegria veio pra contagiar
Hey! (levantam-se as mãos)”.

Por sugestão da diretora, cada turma se apresenta três vezes: a primeira, para o deleite dos pais; a segunda, para as fotos; a terceira, para a troca de posição no palco, de modo que todos tenham a chance de ficar na frente. As vozes são desencontradas e os sorrisos, desdentados. Algumas crianças choram e são socorridas pelas mães; outras, em cadeiras de rodas, participam à sua maneira do espetáculo. Todas são lindas.
Dezenove horas: é a vez do ensino fundamental. Meu filho entra, ansioso, e me procura com o olhar. Eu me levanto, mostro a ele que estou usando a camiseta e, não fosse minha timidez, também assobiaria alto e daria uns pulinhos de incentivo. Ele sorri e me aponta aos colegas. Tento fotografá‑lo, mas justamente nesse instante um enorme traseiro passa na frente da câmera.
A apresentação tem início com uma complexa coreografia, que consiste em extrair sons do próprio corpo com as mãos. O maestro é um desinibido aluno da 2ª série. Fico sabendo depois que o “peito, estala, bate; peito, estala; peito, bate” é dolorido, pois é preciso bater forte para conseguir bom resultado. Multipliquem-se os tapas por três...
É também de autoria da professora de música a homenagem que eles cantam, desafinados:

“Mamãe, eu te dei meu coração
E olhe só o que você fez:
Abriu-lhe a porta devagarinho,
Encheu de amor, ternura, luz e carinho.

Não sou anjinho, eu sei.
Piso na bola, eu sei.
Por isso, eu preciso muito de você.
Mamãe querida,
Meu paraíso é você na minha vida”.

A emoção toma conta da platéia. Mães, pais, avós, bisavós, babás e outros presentes disfarçam as lágrimas, pedem bis e “tris”. É a música mais linda que já ouvi!
Mais tarde, em casa, ele pergunta se pode dormir com a camiseta. Digo que sim, e também vou dormir com a minha. Felicidade, nós temos! Estou decorando o refrão da centopéia para a festa do ano que vem.
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Comentário sobre "Velhota, eu?"

Cara Luci,

Muito agradou-nos receber seu primeiro livro de crônicas e, mais ainda, ler o texto Felicidade, eu tenho!
Dialogar com você por meio de seus enredos ambientados em Brasília foi um prazer. Parabéns pela sensibilidade, espontaneidade e sutileza de seus textos que, certamente, fazem-lhe porta-voz de muitos brasilienses no cotidiano de nossa cidade.


Um abraço,

Márcia







Márcia Gomes Fernandes é diretora do Colégio Arvense.
http://www.arvense.com.br/
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sábado, 15 de dezembro de 2007

Enamoramento 2

Maria Amélia Costa


Coisa estranha essa de querer o outro por perto, acercando-nos com paparicos e cuidados e a um passo poder tocar o seu braço e mergulhar pela abertura côncava entre o tecido e a pele em busca de um músculo contornado pelos movimentos do homem.

Num instante se sentir em um tamanho que cabe nos poros que moldam o corpo e nesse mesmo instante deslizar inundando-se em abismos de sensações perpendiculares, doces, cegas. Confundir-se nele, movida pela inocência angelical que conduz a luz por olhos moventes numa posição que, abaixo, é de entrega confortável e dolente.

Ele, sempre crescente, contorna o espaço e o tempo, alonga a paisagem.

Os dedos dela, cúmplices no gesto, tateiam imprimindo marcas digitais reunindo, ali, a consciência do mundo. Depender dele. Ser, apenas nele. Sentada ao lado, não precisa de nada, apenas ficar ali e se deixar... Como um corpo sem alma, desprovido de essência e de sentido.
Se deixar. Sem medo, sem angústia, sem pressa, sem frio.

Um não ser.
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Sem trololó nem xurumela



— Eu vou lhe incomodar, mulher.
A voz possante, o sotaque potiguar, as implicações que ela adivinhava no verbo “incomodar”, tudo isso dava à frase um forte apelo erótico. Será que o antigo colega de ginásio, agora reencontrado num curso de reciclagem na empresa, era igualmente vigoroso em outras áreas? Havia evidências disso: três ex-mulheres e sete filhos.
Ela acabara de trazer das férias o minúsculo Dicionário de Potiguês e o volumoso Dicionário do Nordeste, com 5.000 palavras e expressões. Procurou em ambos, no verbete “incomodar”, algum sentido que confirmasse sua intuição — encontrou “perturbar”, que, por sua vez, remeteu a “desassossegar”. Sim, ela queria ser desassossegada. Aproveitou para estudar o minidicionário. Quem sabe usaria seus conhecimentos muito em breve?
Por coincidência... não, por força do destino, reencontravam-se após 30 anos. Ela sempre o admirara de longe, na escola. Quem sabe era o homem da sua vida, como naquele filme do Tom Hanks? Imaginou-se desfrutando a lua-de-mel nas dunas de Genipabu.
A oportunidade de se verem extraclasse surgiu quando ele faltou a duas aulas importantes e precisou recuperar o conteúdo perdido. Quando ela se ofereceu para ajudá-lo, ele segurou o braço dela com força e disse, pela primeira vez, a frase que a deixava levemente excitada.
— Mulher, eu vou lhe incomodar.
— Por favor, me incomode muito e logo - ela teve vontade de responder.
Nas três semanas seguintes, ele repetia a frase ambígua no intervalo da aula, sem nunca concretizar a promessa. Chegaram ao final do curso sem que ele a tivesse incomodado.
No dia do encerramento, ela vingou-se aplicando o vocabulário adquirido no Dicionário de Potiguês:
— Eu vou lhe incomodar, mulher - disse ele, despedindo-se.
— Deixe de trololó, homem.
— Tu tá mangando de mim? - estranhou ele.
— Não, eu tô é aperreada com essa xurumela!
— Ôxi, mulher! Então, eu não vou mais lhe incomodar. - Foram as últimas palavras do brocoió.
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sábado, 8 de dezembro de 2007

Um recado amoroso para minha amiga Rosângela

Maria Amélia Costa









Querida Rosângela:
Ontem pela manhã e em tempos anteriores eu dizia pra você:
Querida, tenha cuidado. Sei que você não está enxergando direito e por isso não consegue manter-se no seu eixo. Confusa, nesse labirinto das labirintites, você anda em zigue-zague numa cadência estranha.
Por vezes, num movimento em espiral que a faz levar a mão à cabeça você diz:
Por favor, me ajudem eu ainda não estou bem.
Todo mundo sabe o quanto sofrem aqueles — e, principalmente, aquelas — que se distanciam do eixo que os mantém. Dizem que labirintite é uma coisa horrível! Mas é o distanciamento (de eixo, quero dizer!) o que nos maltrata.

Mais uma vez, querida, cuidado. Por esses dias você estava saindo, a duras penas, de uma depressão. Todos sabem, também, que depressão é um buraco fundo, escuro e escorregadio. Há até quem escute línguas estranhas e promessas vãs quando adentra por buracos assim.
Para uma pessoa com depressão e labirintite parece que não há salvação.

Mas...
Ontem, ainda, eu a vi dançar com seu traje de cigana, como uma cigana.
Linda!
Leve e graciosa, na pontinha dos pés, você rodopiou espalhando em torno do seu eixo o desvario de quem se lança ao mais sedutor dos abismos. Em seu torno voavam franjas prateadas em pequenas peças que se desprendiam para compor a sua aura iluminada.

Você dançava para o seu novo amor.
Do seu sorriso vi saindo partículas da alma que não se suportando mais em si mesma precisava, docemente, espalhar-se por aí.

Na cumplicidade dos quatro ou cinco elementos que aqueciam o céu do meu viver guardei aquela imagem e você continuou a bailar noite adentro enfeitando a noite.

Ontem, ainda em cuidados que nos aprisionam eu insistia, dizendo: — Querida, não vá se machucar nas solturas desses tempos doces. São tempos que nos seduzem e nos deixam assim, cegas e fora do eixo; sem rumo, sem prumo, sem norte. Esses tempos, sem nos avisar, nos levam num bailado de loucas por caminhos que não têm volta. São caminhos de perdição.
Querida, não perca o juízo.

Mas, isso foi ontem.
Hoje eu quero tecer um tapete de flores para você e acompanhar esses passos que te levam...
A ti e ao teu amor, tenro ainda.
Hoje, quero dizer que você está pura e linda nesses tempos de entrega. Esses são os melhores tempos. Os de loucura. Abra todas as compotas e se deixe inundar por esse vinho novo. Embriague-se. Enlouqueça e diga ao mundo dessa boa nova. Espalhe-se pelas ondas desse rodopio desvairado e envolva céus, terras e tudo o mais que houver entre esses céus e terras.

Viva! Seja intensa com o seu amor.

E que Deus me perdoe porque é nisso que, finalmente, eu acredito.
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Istrogonofe com safrão








— O que tem de almoço, Ana?
— Fiz istrogonofe, Ci.
— Por que está amarelo desse jeito?
— Tava muito branco, pus um pouquinho de safrão.
— Oba! Você fez mousse de chocolate?
— É arroz doce, Ci. O açúcar parece que queimou demais.
— O baixinho almoçou?
— Igual um leãozinho.
— Ele comeu o strogonoff desse jeito?
— Não, ele quis núguets com molho babicu. E um copão de Coca-Cola!
— Levou o quê de lanche?
— Orkut e chips.
—Tem café novo, Ana?
— O pó acabou, Ci. O coador também.
— Vai lá comprar. Estou doida para tomar um café.
— Tem outro problema.
— Qual?
— Vieram cortar o gás.
— Por que você não me ligou?
— Não gosto de incomodar a Ci. O moço disse que se pagasse na hora, não cortava.
— Ai, ainda bem! Você pagou?
— Não tinha mais dinheiro.
— E o que eu deixei, Ana?
— Gastei na floricultura. Ci gostou das gerbras, gostou?
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sábado, 1 de dezembro de 2007

Caminhos por dentro

Maria Amélia Costa


Era um desses finais de manhã de sol quente.

Acabara de sair do consultório e se dirigia para o shopping. Em breve o calor do sol ficaria lá fora. Combinara com o filho de se encontrarem, mas ainda era cedo para o almoço e ele talvez demorasse a chegar. A porta automática se abriu, ela entrou e logo sentiu o conforto fresco que circula pelo interior de lugares assim. Ao seu lado havia muita gente nesse ir e vir que marca a humanidade inquieta dos humanos. Estava cercada por essas criaturas e sentia-se confortável. O conforto a fez sorrir enquanto subia pela escada rolante evitando segurar naquelas laterais que também rolam, mas que não acompanham com a mesma velocidade os degraus que sobem e descem como se tivessem vida própria – observara. Num pensamento solto avaliou que havia uma cumplicidade velada porque o consultório do psicólogo, o da massagista e o do dentista que ela, agora, freqüentava ficavam todos ali, nas imediações do lugar. Mas não se deteve nesse pensamento preferindo ver o lado prático de coisas assim. Naquele dia fora ao dentista.
Se perguntassem ela diria que não gosta de freqüentar esses ambientes, mas, estranhamente, passava sempre por ali e sentia o conforto que já mencionou. Era nessas horas que se evidenciavam seus paradoxos e contradições e ela aproveitava para dar para si mesma, lições complexas da sua humanidade. Lições impositivas. Lições que ultrapassavam o espaço das lousas que usava, mas que ela, numa rebeldia juvenil, preferiria mudar de assunto. No fundo, o que não queria era se perder em elucubrações vãs e sem rumo deslizando por lousas invisíveis, não confiáveis. E não podia ficar parando, o tempo todo, para se dedicar a essas lições, por vezes, exigentes.

Andou sobre saltos firmes, com passos firmes de quem já sabe aonde vai. Usava saia na altura dos joelhos deixando-lhe à mostra as pernas bronzeadas. A gola da blusa preta contornava-lhe o pescoço até a altura do queixo tocando-o a cada movimento lateral que ela fazia com a cabeça, involuntariamente. Ou fazia-o voluntariamente para sentir a carícia da gola e sabê-la sua. O preto da blusa compunha um contraste com o colorido floral da saia estampada. Enquanto ela andava, já no piso superior, a seda do tecido fazia movimentos em contornos sinuosos formando um desenho ondular que tocava, levemente, uma e outra perna. Dobrou para a direita e entrou pela porta da livraria que dá acesso ao café. Dirigiu-se à moça do caixa e ao sorrir para a moça a moça perguntou:

— Pois não...O que vai ser hoje?
— Olá... - Disse num cumprimento alegre e acrescentou: — O de sempre, um café pequeno, com leite, e um pão de queijo. Obrigada.

Não sentia fome. Estava de certa forma, preenchida de algum tipo de alimento que ela não conseguia dizer o que era. Só sabia que estava satisfeita e por isso não precisava satisfazer esse tipo de necessidade. Mas o café com pão de queijo fazia parte daquele ritual.

Como a atendente não tinha troco para a quantia em dinheiro que lhe dera pagou com cartão e dirigiu-se a uma mesa. Não era sempre que encontrava mesas para ficar sozinha. Parece que lugares com gente desconhecida e se movimentando era um nicho para sua solidão – convenceu-se em seguida numa lição ligeira. Talvez por isso ela se refugiasse ali todas as vezes que queria ficar só ao passar por aquele lugar. Enquanto aguardava o pedido olhou por todo o ambiente como se estivesse procurando alguém ou alguma coisa que, de fato, não queria encontrar. Foi até uma das prateleiras que já conhecia e escolheu um livro. Em seguida voltou e sentou para esperar, sem pressa. Gosta de se sentir assim, livre para levantar, ir até a prateleira, escolher um livro e voltar. No seu ritmo. No seu tempo. Voltar e sentar.

(Uma pausa para dizer do seu jeito de sentar.)

O seu jeito de sentar expressa uma cadência que vem, como que, carregada de alguma intencionalidade. Antes de ocupar a cadeira por inteiro, cruza as pernas colocando a esquerda sobre a direita, suavemente, como se buscasse conforto, sem urgência, no primeiro movimento. Dobra o braço direito sobre a coxa esquerda a qual está sobre a direita e os dedos de ambas as mãos se entrelaçam segurando-se num encontro finalizador. Só então ela recosta-se com leveza de plumas para levantar a cabeça, altiva.

Naquele dia os cabelos estavam soltos e, no movimento jogou-os, levemente, para trás.

Do lugar que estava via as duas portas de entrada e toda a extensão do balcão da cafeteria. Observou que as demais mesas que compunham o ambiente estavam ocupadas apesar de haver poucas pessoas no interior da loja de livros. Dali estava exposta, de frente, mas não se importava em ser vista. Outrora isso a incomodaria, agora, se diverte porque lhe parece que tudo é muito simples. “Você não precisa mais se esconder” – releu daquele lugar, em algum outro lugar de um passado recente.

Sentia no corpo o conforto. Esperava sem pressa repousando naquela sensação de que as coisas estão nos lugares que devem estar. Em cada respiração profunda sentia expandir espaços de interioridade que possibilitavam essa visão crescente de si mesma, de um ser que nasce e vai ocupando superfícies de frescor e de fertilidade. Na maturidade, os brotos da juventude. Observar do lugar que está dá um sentido novo para coisas que ela gosta de guardar. Distraiu-se em pensamentos tecidos na presença desse estar assim. Tessitura só possível na solidão de quem se vê por dentro. No contraponto desses pensamentos, mas ainda se vendo por dentro, lembrou do filho que estava a caminho, apressado, em algum lugar por onde ela já passara. Saber que pode ver por cima do ombro, pontos de ultrapassagem. Doloridos pontos que exibem, ainda, pingos escurecidos de líquidos vertidos. Alguns doloridos pontos. Doce sabedoria dos que fizeram caminhos. Poder estar ali sentada. Saber que vai ser encontrada sem precisar sair do lugar. Não naquele momento.

— Aqui está... Bom apetite! - Era a moça com o café.
— Obrigada... - E pediu, sorrindo: — Açúcar mascavo, por favor?!

Tentou se concentrar na leitura do livro enquanto tomava o café e comia o pão de queijo, mas sem que pudesse ou quisesse impedir, deslizava, suavemente, para lugares ora próximos ora distantes. E ficou assim, indo, vindo e se demorando em movimentos de percursos que delicadamente seguravam a xícara, viravam a página do livro e vasculhavam dobras, cavidades, atalhos, numa varredura singular de quem decifra, docemente, cada um dos seus mistérios e segredos. Em busca de mais conforto e como se quisesse manter conexão com o mundo cruzava e descruzava as pernas em regularidades que só a intuição responde. O livro. O café. E tudo o mais. Nessa aderência de si mesma percebeu-se íntima da própria intimidade em movimentos que adquiriram a velocidade de um tempo lento, ofegante. Velocidade própria de urgências que não são urgentes. Acercou-se de si em meio a toda aquela gente sabendo que podia mergulhar, revirar tudo, fazer contornos e ninguém iria perceber. Desbravar espaços tão familiares e tão desconhecidos.

Sentia-se um pouco acima. Mais acima. Distante. “Isso é soberba!” Disse em viva voz o amigo tão presente, numa carinhosa e mesurada censura. Mas ela não deu bola para aquele comentário porque, vindo dele, chegava como um afago. E ela se entregou, sorrindo, para a querida lembrança...

— Podemos sentar aqui? - Levantou a cabeça. Era um casal que se aproximara.
— Sim... Claro! Por favor. É um prazer. - Disse com a expressão de quem, em viagem, acabara de chegar, em um lugar estranho.

Era um bonito e sorridente casal na faixa etária dos sessenta anos (supôs), desses que depois de longos percursos (supôs) se deleitam em perambulagens de quem tem o tempo a seu dispor (supôs). Ela parou para dar atenção ao casal, ou atenção a si mesma naquele desdobrar-se.

O tempo passou. O casal foi embora. O filho chegou e saíram abraçados na intimidade de quem cedeu às entranhas.
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O pequeno capitão

— Mãe, se eu fizer uma pergunta, você não fica triste, deprimida, nem com cara de preocupada?
— Não - respondeu a mulher, já acostumada com a abordagem do filho.
— Jura?
— Juro.
— Como se faz uma adoção?
Chegara o doloroso momento que ela vinha adiando e do qual não podia mais fugir. Tentou desconversar:
— De bebês?
— Não, mãe, de animais.
Ficou calada, esperando que ele desviasse a atenção para outro assunto. Sabia bem aonde a conversa ia levar. Ele lhe estendeu um papel:
— Está aqui o número do canil. Deu na televisão. Posso? Posso? Posso?
— Pode - ela concordou, refém da velha promessa e do olhar suplicante. Há algum tempo ele vinha pedindo um cachorro. Nas longas férias de janeiro, sentiu-se só e voltou a insistir no pedido.
— Tem certeza? Tem certeza de que tem certeza? Você está brava comigo? Não mesmo?
— Sim, sim, não, não.
Estava prestes a se iniciar a terceira experiência canina da pequena família. A primeira: Vivi, Yorkshire emotiva e carente, objeto de abaixo-assinado no prédio devido ao tumulto que provocava se deixada sozinha. Adotada pela babá, que ainda hoje traz notícias da cadelinha já anciã. A segunda: Jerry, salsicha tranqüilo e auto-suficiente, de pouco latido, mas que se ocupava roendo os móveis. Dado a um casal com crianças e rebatizado de Chicão. Situação atual ignorada. Com Skipper — nome já escolhido pelo filho — seria diferente, a mulher prometeu a si mesma.
Uma vez decidido o inevitável, convocou o ex-marido, entendedor de cachorros e outros bichos, para procurar um filhote. Pai e filho percorreram vários canis até encontrar um exemplar de raça exótica — Schipperke — e de linhagem nobre: herdeiro legítimo de Lady Sofie de Baktharan e Lorde Ivo de Baktharan. Por telefone, ela autorizou a compra. Custava uma pequena fortuna, mas tudo bem, desde que o menino ficasse feliz.
Chegou em casa à noite, curiosa para conhecer o filhote. Deparou com um cachorro preto, de pêlo brilhoso, parecido com um lobinho. Tinha uma aparência comum e na rua talvez fosse confundido com um vira-lata bem cuidado.
Ela esperava algo mais exótico, porém, não mostrou a decepção.
Na fonte das fontes descobriu que a raça era originária da Holanda, onde o nome significava “pequeno capitão”, e que esses cães serviam tradicionalmente de guarda nos barcos holandeses, nos quais ajudavam a capturar ratos. Não havia ratos no apartamento, mas, quem sabe, um dia, mãe e filho teriam um barco?
Esperançosos, compraram o Pipi Dog e o aspergiram num canto escondido para que Skipper fizesse ali suas necessidades. Adotaram a tática do rolo de jornal para corrigi-lo, especialmente quando se aproximava do novíssimo sofá branco.
Nos primeiros dias, o filhote dormiu muito e latiu pouco. Era de temperamento reservado, como o deles. Vivia no colo ou na cama do menino, até que as aulas recomeçaram e, com elas, outras distrações. Navegar no MSN era mais divertido que tomar conta de cachorro, e este foi deixado aos cuidados da mãe humana. Tudo bem, ela já se apegara ao lobinho.
À medida que se sentiu à vontade, Skipper começou a latir mais alto e com maior freqüência. Só dormia embaixo da cama da mãe, tomou gosto pelo passeio matinal e o exigia assim que acordava, por volta de 5 horas da madrugada, com o latido firme e o olhar decidido. Ela precisava mesmo se exercitar e o sol da manhã era ótimo para prevenir a osteoporose.
Passaram-se três meses. Apesar do esforço inicial, nenhuma das medidas educativas funcionou. O cão escolheu seus próprios locais para as necessidades n° 1 e n° 2, respectivamente, o ponto central da sala e a porta de entrada. A casa, as roupas, a alma cheiravam a cachorro.
Chegam as férias de julho. Skipper já fez o passeio matinal e agora corre no jardim. Na noite anterior capturou o primeiro rato. O casal idoso do Park Way que adotou o maldito cachorro o observa com orgulho.
Enquanto o pequeno capitão navega outros mares, a mulher acorda devagar no apartamento, espreguiça-se e espera o café da manhã que a secretária lhe traz na cama, pontualmente, às 8h20min. Sorri, satisfeita: a vida voltou ao normal, foi-se o cheiro, o latido, o cachorro.
O rosto do menino aparece à porta:
— Mãe, se eu fizer uma pergunta...
— ...
— Por que todos os brinquedos maneiros são importados?
Ela saboreia o café, aliviada, antes de convocar o ex-marido para levar o filho à Feira do Paraguai.
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© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira