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Mostrando postagens com o rótulo Maria Amélia Costa

Almofada de cetim

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Maria Amélia Costa O aparelho celular vibrou no bolso interno do paletó. Era sábado pela manhã, estava em uma reunião de trabalho e não pôde atender. Olhou depois na caixa de mensagens o convite para uma festa. Ficou alegre e surpreso porque há muito não recebia convites. Ligou para confirmar. Doravante o dia ficou mais iluminado e sua participação na reunião, mais ativa. Chegou até a levantar-se e gesticular na defesa de seus argumentos. No corpo uma palpitação e o desejo de encontrar o Alfredinho que decerto estaria lá. Sorriu olhando com olhos distantes para a colega que, à sua frente, perguntou o que ele achava daquela proposta. Disse-lhe que sim, que era muito interessante e que podiam contar com ele. Nadava em um mar de possibilidades e tudo se revestiu no sabor de uma doce espera. Durante o resto da manhã escapou em devaneios sobre o seu romance com o Alfredinho. Os olhos fundos nadando em palavras lentas, os dedos bem torneados, o caracol dos cabelos ruivos e sempre com aquele ...

Enamoramento 2

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Maria Amélia Costa Coisa estranha essa de querer o outro por perto, acercando-nos com paparicos e cuidados e a um passo poder tocar o seu braço e mergulhar pela abertura côncava entre o tecido e a pele em busca de um músculo contornado pelos movimentos do homem. Num instante se sentir em um tamanho que cabe nos poros que moldam o corpo e nesse mesmo instante deslizar inundando-se em abismos de sensações perpendiculares, doces, cegas. Confundir-se nele, movida pela inocência angelical que conduz a luz por olhos moventes numa posição que, abaixo, é de entrega confortável e dolente. Ele, sempre crescente, contorna o espaço e o tempo, alonga a paisagem. Os dedos dela, cúmplices no gesto, tateiam imprimindo marcas digitais reunindo, ali, a consciência do mundo. Depender dele. Ser, apenas nele. Sentada ao lado, não precisa de nada, apenas ficar ali e se deixar... Como um corpo sem alma, desprovido de essência e de sentido. Se deixar. Sem medo, sem angústia, sem pressa, sem frio. Um não ser.

Um recado amoroso para minha amiga Rosângela

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Maria Amélia Costa Querida Rosângela: Ontem pela manhã e em tempos anteriores eu dizia pra você: Querida, tenha cuidado. Sei que você não está enxergando direito e por isso não consegue manter-se no seu eixo. Confusa, nesse labirinto das labirintites, você anda em zigue-zague numa cadência estranha. Por vezes, num movimento em espiral que a faz levar a mão à cabeça você diz: Por favor, me ajudem eu ainda não estou bem. Todo mundo sabe o quanto sofrem aqueles — e, principalmente, aquelas — que se distanciam do eixo que os mantém. Dizem que labirintite é uma coisa horrível! Mas é o distanciamento (de eixo, quero dizer!) o que nos maltrata. Mais uma vez, querida, cuidado. Por esses dias você estava saindo, a duras penas, de uma depressão. Todos sabem, também, que depressão é um buraco fundo, escuro e escorregadio. Há até quem escute línguas estranhas e promessas vãs quando adentra por buracos assim. Para uma pessoa com depressão e labirintite parece que não há salvação. Mas... Ontem, aind...

Caminhos por dentro

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Maria Amélia Costa Era um desses finais de manhã de sol quente. Acabara de sair do consultório e se dirigia para o shopping. Em breve o calor do sol ficaria lá fora. Combinara com o filho de se encontrarem, mas ainda era cedo para o almoço e ele talvez demorasse a chegar. A porta automática se abriu, ela entrou e logo sentiu o conforto fresco que circula pelo interior de lugares assim. Ao seu lado havia muita gente nesse ir e vir que marca a humanidade inquieta dos humanos. Estava cercada por essas criaturas e sentia-se confortável. O conforto a fez sorrir enquanto subia pela escada rolante evitando segurar naquelas laterais que também rolam, mas que não acompanham com a mesma velocidade os degraus que sobem e descem como se tivessem vida própria – observara. Num pensamento solto avaliou que havia uma cumplicidade velada porque o consultório do psicólogo, o da massagista e o do dentista que ela, agora, freqüentava ficavam todos ali, nas imediações do lugar. Mas não se deteve nesse pens...

Enamoramento 1

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Maria Amélia Costa Olha-o por trás. Sentada ao lado dele fez com o olhar um contorno impossível. Ela gosta de olhar por trás, comedida em feições que se expressam na clandestinidade de quem acredita que pode ver além. Não ser vista e assim cercar o ser amado com cercanias quadradas, redondas, perpendiculares, transversais. Trazer fiozinhos sutis e delicados das entranhas da terra para o atravessarem, o fixarem e o aprisionarem no tempo que é só dela. No tempo que é dela quer, também, vê-lo pelo lado do lado dele: nem à frente, nem atrás, nem de cima. De cima, talvez. Contudo, de lado. Mas, não quer ser vista. Nessa condição clandestina o olhar o atravessa na pretensão de luz que tudo ilumina, decifra, expõe, constrange. Ele está distraído com alguma coisa, tocando alguma coisa ou, simplesmente, olhando em frente enquanto fala com ela. Mas ela não quer falar. Talvez até queira. Talvez até fale uma banalidade qualquer. Mas, definitivamente, não é falar o que ela quer. Não naquela hora. N...

Pessoas que nos atravessam

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Maria Amélia Costa Eu o encontrei. Entrei na livraria fazendo uma daquelas coisas que se faz por hábito, como esse que tenho de pesquisar em livrarias cada vez que vou a um shopping center. Um pouco melancólica e entregue ao acaso não coloquei atenção nas pessoas que se movimentavam no interior da loja. Estava distraída quando fui surpreendida por um “oi” vindo ao meu encontro. Virei. Era ele. Abraçamos-nos e nos dissemos alguma coisa, ao mesmo tempo, numa surpresa única. Não consigo imaginar a expressão do meu corpo naquela hora. O que disseram os meus olhos ou a minha boca trêmula. Ele estava ali, na minha frente, como um milagre. Tantas vezes conversei contigo nos tempos de ausência. Disse tantas coisas! Compartilhei momentos. Contei histórias e feitos meus. Falei da falta que sinto das vezes que sorrimos juntos por coisas banais. Falta dos cuidados teus. Que por vezes me vejo em atitudes tolas, iluminando pequenas coisas que vieram de ti. Emoldurando. Ilustrando. Colocando sentido...

Uma pessoa em busca de palavras

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Maria Amélia Costa Ela gosta de livrarias, principalmente aquelas que têm, anexo, um café. Gosta de ficar ali para folhear, apalpar, procurar, sentir. Sentir cheiro de livro tomando café. Foi em uma livraria que encontrou a professora e escritora da qual ela prefere não dizer o nome, agora. Conversa vai, conversa vem foi feito o convite para conhecer uma oficina de literatura. Levou o convite nas páginas de um livro de crônicas que acabara de ser autografado. Naquele momento o convite já estava aceito. Depois da decisão veio a dúvida. Será que deveria ir? Pesquisou pelas páginas da internet - nessa bisbilhotice tão, aparentemente, fácil nos dias atuais. Da pesquisa ficou a impressão de que se tratava de um grupo muito específico de funcionários da Câmara dos Deputados. Deve ser um monte de gente metida a besta, pensou. Mas, sem que falasse nada, o convite foi reforçado e então resolveu ir e ver o que acontece. No calor de quase meio dia de um dia quente de início de primavera no ano 20...