sexta-feira, 30 de julho de 2010

Religare



Nascido no Rio de Janeiro e criado em Brasília, o artista plástico Marco Aurélio Tavares, o Lelo, cresceu ouvindo relatos do pai, de origem nordestina, sobre as romarias em Juazeiro do Norte, Estado do Ceará. Ao ver reportagens sobre os devotos do Padre Cícero, o artista sentiu-se atraído pela força da expressão de pessoas humildes, muitas idosas, que tinham na fé a principal razão de viver.

Em 1990, Lelo começou a acompanhar manifestações religiosas pelo sertão do Nordeste. Conheceu de perto os romeiros, compartilhando suas refeições, rezas e cantos. Tirou centenas de fotos, muitas transformadas em telas grandes, outras, em pequenos relicários. Algumas pinturas foram reproduzidas no livro-catálogo Religare, que também compõe esta exposição.

Na mostra Religare, o artista une fotografia, desenho e pintura para dar o testemunho apaixonado da profunda religiosidade do povo brasileiro, que, em meio à pobreza e ao sofrimento, encontra forças para dialogar tranquilamente com Deus. O olhar puro e a mão generosa dos romeiros nos guiam numa peregrinação íntima, religando-nos à essência divina. Ninguém atravessará intacto esses momentos translúcidos de santidade.

Religare

Fotografias e pinturas de Lelo / lançamento do livro-catálogo (prefaciado por Luci Afonso)
3 a 12 de agosto de 2010
Vernissage: 4 de agosto, quarta-feira, 17 horas

Local: Espaço do Servidor, Anexo II da Câmara dos Deputados
Realização: Espaço Cultural Zumbi dos Palmares
Visitação: segunda a sexta-feira, das 9 às 18h
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sábado, 17 de julho de 2010

“Desde pequeno, ouviu dizer que é diferente”


Gabriel Marinho


Luci Afonso pensa como a maioria. Cada um tem a sua própria acepção da palavra. A conotação pode ser boa ou ruim. Tantos julgamentos e ideias que às vezes pensam que eu não tenho a mínima noção de como sou. O que é ser diferente para mim?

As diferenças mudam conforme o tempo, de acordo com a idade, as descobertas e a vivência. Alteram-se os meios, jamais a palavra.

Diferença invisível, fácil de ser misturada com as normalidades, que se agiganta quando provocada, no bom e no mau sentido.

Diferença que te coloca acima do outro e que jamais deve ser admitida. A linha divisória da arrogância é tão fácil de ser rompida que é preciso se policiar.

Diferença que te mantém vivo por dádiva ou equívoco. Os diferentes mudam o mundo, nunca a si mesmos.

Diferença que me faz triste por não ter e feliz por possuir. Enquanto não somos descobertos, o que temos perde o sentido.

Diferença por diferença, quem não tem? Num mundo de valores distorcidos, cabe a todo mundo julgar. Menos você.

Diferença que te flagela por ser o certo inserido no errado. Ou o contrário.

Diferença por acatar cobranças das mesmas pessoas que primam pela sua liberdade.

Diferença que estigmatiza. Sempre contraditória. Sempre confusa. Insistindo na indiferença.

A diferença não é uma abiogênese. Seu surgimento não é espontâneo. Não passeia por um vácuo. Está além da razão e aquém do livre-arbítrio.

Defini-la em frase, parágrafo, capítulo ou romance? Nada de resposta. Assim, a diferença procria de acordo com a imaginação de cada um.

Diferença por diferença, prefiro a falta de respostas e as dúvidas insistentes ao tédio de um mundo já compreendido.



Gabriel Marinho é autor dos romances O mundo depois do fim (2009) e Breve Sonho de Esperança (2010), ambos aprovados pelo FAC/DF.
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domingo, 11 de julho de 2010

Parvoíces




Alexandra Rodrigues

Parvoíces do teu primo – foram as primeiras palavras que li no ar, contaminadas ainda de solo lusitano. Estavam escritas em letra familiar num envelope que acompanhava meia dúzia de presentes escolhidos com a ternura de quem muito bem se quer e pouco se encontrara nos últimos anos. Parvoíces, um termo que se infiltrara nos subterrâneos da minha memória. Uma palavra de sentido duvidosamente pejorativo, que navegava pelo oceano de memórias do meu passado. Sabia que era impossível traduzir. Ainda tentei fazê-lo, mas era uma parvoíce traduzir intenções que só fazem sentido na cultura portuguesa. E assim, pus-me a relembrar as parvoíces vividas na última tarde de visita a Lisboa, na esperança de compreender o sentimento que percorre tão inusitado vocábulo.

Eram três horas da tarde de um escaldante domingo de Agosto. Embrenhei-me pelas estreitezas misteriosas de Alfama na direção do saudoso beco das origens, berço de meus pais. Vi-me cercada pelas alturas apertadas de prédios caiados de história, de narrativas que também me pertenciam na distância do tempo. Aqui e ali, em ruas sem passeios que se bifurcavam a cada instante, como a me perguntar por onde você quer realmente seguir?, eu me indagava sobre o destino que levara a história da minha família daquelas vielas lisboetas carregadas de fado para as amplas avenidas de Brasília, onde a vida não mais que seguia em frente, florida de ipês e de memórias.

Já tinha passado a Sé Velha, com suas ameias de castelo medieval, protegendo a antiga cidade; o Largo do Marquês do Lavradio, cujos degraus escuros e íngremes tantas vezes eu subira em direção ao colo aconchegante da tia Carlota; e seguia agora por ruas minúsculas que se estreitavam, cada vez mais, na minha memória. Via-se um morador aqui e ali, como se a vida se tivesse recolhido nas casas antigas de Alfama e eu dependesse, a cada passo, das vielas da memória para avançar em direção ao meu destino. Parecia uma parvoíce perder-me num espaço que, em tempos idos, me fora tão familiar. Mas, à medida que me aventurava por ruazinhas cada vez mais apertadas, e precisava decidir por qual continuar, crescia a desconfiança de que meus pés pisavam um chão quase imaterial: o da Alfama da minha imaginação.

Parei numa bifurcação onde dois minúsculos restaurantes satisfaziam o apetite dos verdadeiros turistas. Perguntar, a estranhos de outras terras, informações sobre a direção do Beco de Lapa, era uma parvoíce. Um único empregado carregando uma bandeja de cervejas não saciaria a minha sede de passado. Mas a memória desbotada de duas recatadas velhinhas, paradas no meio da rua e do tempo, aconselhava-me a seguir pela Rua dos Remédios.

Isso mesmo! Recordava-me bem da tabacaria da esquina dessa rua, onde, em tempos antigos, vozes amigas saudavam meus pais nas visitas que fazíamos às suas origens. Esse lugar sobrevivera no meu imaginário e ressuscitara dos umbrais da memória numa aula de literatura, ao escutar a recitação de um poema de Fernando Pessoa. Agora, A Tabacaria morava lá, dentro da poesia, recatadamente memória, devastadoramente realidade. Uma parvoíce, essa arquitectura de edifícios poéticos, reerguidos pela engenharia da memória!

Cheguei finalmente à rua dos Remédios, por bifurcações que se bifurcavam ainda mais no meu cérebro de menina-mulher, mapeando o lugar da origem de seus ancestrais. Era íngreme e longa a rua, tão longa e íngreme como os caminhos que me haviam afastado daquele lugar, e eu não sabia em qual daquelas vielas deveria virar para entrar no Beco da Lapa. Não sabia nem mesmo se era de verdade esse lugar tão estreito que mal cabia nas minhas reminiscências.

Foi quando me percebi turista no longínquo território da infância. Ainda existiria aquele Beco onde nos natais da nossa infância entrávamos, felizes, para abraçar a tia Leonor e o tio Augusto, brincar com os primos, rever a madrinha? Para comer as deliciosas línguas de gato com um copo de leite morno, antes de deitar? Para nos deliciarmos com as filhozes da avozinha, empilhadas em travessas de louça antiga com bordas azuis? Para sairmos juntos ao Jardim Zoológico, que visitávamos magnificamente sentados em cadeirinhas, lá do alto de um elefante? Para lancharmos na confeitaria Suíça, em pleno Rossio, os melhores doces que a vida nos faria saborear? Que parvoíce ressuscitar lugares de vida há tanto tempo abandonados na Alfama da minha meninice!

Era ali mesmo e eu nem tinha percebido. A tabacaria da esquina já não marcava mais a entrada no Beco da Lapa, mas continuará habitando para sempre a poesia da minha vida. No entanto, na outra esquina, ainda morava - agora transformada num pequeno supermercado - a mercearia que pertencera ao meu avô. Entrei instintivamente, como que para fazer anunciar uma presença que carregava o sangue de quem tinha inventado aquele lugar. Um lugar de intensa labuta da minha avó, de sol a sol, os sete dias da semana, uma herança do trabalho braçal lá na aldeia da Telhada, de onde saíra para Lisboa, como a maior parte das moças dessa época, para ser criada de servir. E serviria a vida inteira, naquela mercearia, onde tudo se vendia a granel, embrulhado em papel de jornal. Um lugar agora travestido de supermercado, com embalagens e sacos de plástico descartáveis.

Saí da mercearia do passado com as mãos carregadas de recordações e virei pela minúscula viela à direita, onde se lia, com a nitidez que a saudade é capaz de entrever: Beco da Lapa. Parecia uma alucinação aquela placa que assegurava a veracidade da miragem do passado. A primeira porta do beco, pintada de verde escuro, com seu batente dourado, era a mesma paisagem do tempo dos meus avós. Inacreditável! Senti uma vontade lacrimejada de segurar o batente que acabara de bater, com força, à porta das minhas reminiscências. Que parvoíce, essa vontade de gritar:

- Oh da casa!...

Aquele degrau de pedra ainda me convidava a subir a interiores que só às minhas memórias pertenciam, não fosse o temor de que a parede da casa da frente, escorada em precárias estruturas de madeira, quisesse desabar por cima de mim. (Era tão minúscula e perigosa a passagem da Rua dos Remédios para o beco da minha infância!).

Chega, que meu coração ficou encurralado no beco do passado! Chega de visitar o chão de outros tempos numa tarde escaldante do verão lisboeta! Chega de querer decifrar uma palavra incrustada no meu passado linguístico! Que parvoíce querer explicá-la numa crônica gestada nas vielas das minhas entranhas lusitanas!


   Esta crônica obteve o 1º lugar na Modalidade Prosa do Concurso Literário CANTAR PORTUGAL EM PROSA E VERSO, do Elos Clube de Faro, Portugal, no âmbito das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, 2010.

 
 

 
Alexandra Rodrigues nasceu em Lisboa e replantou suas raízes em Brasília. Publicou, em 2004, O Nome das Coisas, e em 2007, Minha avó botou um ovo, ambos pela Thesaurus Editora. Leiam outros textos da autora neste blog.
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quinta-feira, 1 de julho de 2010

Carta de uma estudante do Parque Oziel


Campinas, 14 de junho de 2010


Olá! Luci Afonso, meu nome é Jéssica, tenho 14 anos e queria lhe dizer que gostei muito do seu livro.

Li ele pela metade, mas cada crônica que li, fiquei imaginando as cenas. Eu entendi quase todos, menos o "Suspeito moreno, alto e forte" que eu não entendi o final.

Mas você está de parabéns, o seu livro é muito bom! E interessante. Eu nunca gostei de ler, mas o seu livro despertou a minha imaginação. Quando eu começo a ler, não consigo parar até meus olhos arderem.

Eu gostei da crônica da mulher que consultava um psiquiatra que a tratava muito mal, e no final da história ela descobre que o psiquiatra e mais um homem eram assassinos.

E também gostei da crônica do menino que tinha inflamação nas pernas e ele não andava, achei muito interessante porque você usou muito a sua imaginação e eu também usei para entender a crônica. E foi muito solidário as duas senhoras que o ajudaram.

Parabéns, continue escrevendo!

Jéssica Françoso

 
Brasília, 27 de junho de 2010


Querida Jéssica,

Fiquei muito feliz com sua carta. A maior alegria de um escritor é saber que alguém gostou do que ele escreveu. Que bom que o meu livro despertou a sua imaginação! Para isso servem os livros.

Eu gosto de ler desde criança, mas sempre é tempo de despertar o amor pela leitura. Você é muito jovem e ainda pode descobrir que os livros são grandes amigos e companheiros. Continue lendo. Se você gosta de crônicas, procure ler Luis Fernando Verissimo ou Fernando Sabino. Eles são muito divertidos.

Explico o que você não entendeu: em "Suspeito moreno, alto e forte", falo sobre um episódio de racismo que aconteceu no Plano Piloto, que é o “bairro rico” de Brasília. No final, todos percebem que a mulher chamou a polícia por causa do preconceito contra o homem moreno de aparência humilde.

A crônica sobre o psiquiatra tem um pouco de verdade e um pouco de ficção, como muitos textos meus. Gosto muito da estória e sempre me divirto quando a releio.

O Menino, na verdade, é o galo de estimação da Dona Maria, uma das personagens da crônica “Amém!”. Ele existe mesmo. Em nenhum momento eu disse que era um galo, mas dei várias pistas ao longo do texto. Se você puder reler a estória, procure essas pistas.

Jéssica, obrigada pela carta tão carinhosa, que a Profa. Cida Sepulveda gentilmente me encaminhou. São palavras assim que me incentivam a continuar escrevendo.

Vou publicar sua carta no meu blogue. Se puder, visite: http://luciafonso.blogspot.com/

Um grande abraço,
Luci Afonso

De: Aparecida Sepulveda
Data: domingo, 27 de junho de 2010 12:21
Para: Luci Afonso de Oliveira

Cara Luci,

Não te escrevi antes por falta de tempo. A Jéssica é uma ótima aluna. Quero apenas te informar que o Parque Oziel é resultado de uma das maiores invasões da América Latina. Procure no youtube Parque Oziel vídeos e você conhecerá um pouco do mundo dos jovens que ganharam seu livro. Alguns ganharam como prêmio por terem desenvolvido um bom trabalho. Outros, porque pertencem a uma classe comportada (o caso da Jéssica) e ontem, na Festa Junina, dez livros foram colocados como prenda. Vi dois jovens enlevados porque ganharam o livro. Uma menina, muito pobrezinha, veio falar comigo, com o livro na mão, alisando-o, "dona, eu adoro ler".


A Jéssica não tem dinheiro para comprar livros. De todo modo, é bem possível que sua orientação faça algum sentido para ela. Se ela encontrar na biblioteca os autores que você sugere, certamente, ela os emprestará. Creio que você receberá mais cartas. Na verdade, eu demorei para liberar os livros, exatamente por falta de tempo, porque gosto de fazer as coisas de forma organizada, e não apenas dar o livro, aleatoriamente.

Um abração, Cida



A escritora e professora Cida Sepulveda, formada em Letras (UNICAMP), mora em Campinas, SP. Publicou Sangue de Romã, poemas, em 2004, e Coração Marginal, contos, em 2007. (aparecidasepu@gmail.com)

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© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira