domingo, 22 de abril de 2012

Meus pêsames, bom dia



Luci Afonso

Minha amiga Isolda me prevenira: — Ela é um pouco velha. — Fui assim mesmo, por causa do convênio.
Estranhei as paredes descascadas e as poltronas rasgadas do consultório, e o susto foi ainda maior quando deparei com minha falecida avó vestida de médica. Uma enorme verruga tomava o lado direito do nariz e projetava três pelos grossos, dois brancos, um preto, como bigodes de gato.
Assim que me sentei, ela começou as perguntas de praxe. Falava alto e não ouvia bem. Quando chegou ao estado civil, fiquei confusa: à medida que os anos correm, não consigo decidir se “separada” tem mais status que “solteira”, ou se ambos indicam o mesmo fracasso. Eu meditava sobre o assunto quando ela comentou:
— TÔ TE ACHANDO UM POUCO LENTA, MINHA FILHA.
— É — concordei —, estou meio devagar.
— COMO ANDA SUA VIDA? COMO ESTÁ O SEU EU? — ela perguntou, inclinando-se para frente e arregalando os olhos azuis com sinais de catarata.
Lembrei minha avó no caixão e senti medo. Tentei encurtar a conversa:
— Mais ou menos.
— ME CONTE TUDO.
— Bem...
— DEPOIS VOCÊ ME CONTA, MEU ANJO. AGORA, PASSE PARA A SALINHA E FIQUE PELADINHA, QUE A DOUTORA VAI TE EXAMINAR.
Com as mãos trêmulas, ela recolheu o material, apalpou as mamas e avisou:
— AGORA, RELAXE QUE A DOUTORA VAI COLOCAR O DEDINHO. — Obedeci, e em segundos estava liberada para me vestir.
— VOLTE ASSIM QUE TIVER O RESULTADO, VIU?
Fiz o jejum à noite e me dirigi ao Sabin logo cedo. A atendente leu o pedido com atenção e, após consultar o supervisor, informou:
— A Dra. EAS se enganou: estamos em março, não em abril. O convênio não aceita. — Examinei o papel: além do erro na data, o carimbo estava de cabeça para baixo, logo depois do exame de urina, e sem assinatura.
Conformada com o jejum perdido, tomei o café com pão de queijo oferecido pelo laboratório e liguei imediatamente para a médica. Seria uma chateação voltar ao final da Asa Sul. Comecei a explicar a situação à secretária quando ela interrompeu, com voz chorosa:
— Infelizmente, a doutora faleceu esta manhã.
— De repente?
— Pode ter sido a idade.
— Quantos anos?
— Noventa, mês que vem.
(Tudo isso?, pensei. Ela não parecia ter mais de oitenta.)
— A senhora quer anotar o local do velório? — indagou a jovem.
— Não precisa, querida. Passo muito mal em velórios. Meus pêsames, bom dia.
Após comunicar o falecimento a Isolda, imprimi nova lista dos credenciados no plano de saúde. Quero uma experiência menos fúnebre da próxima vez.                 

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© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira