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Mostrando postagens com o rótulo Eneida Coaracy

This spring

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Luci Afonso This spring I'll stay home. Lying on the couch, I hear the suicidal scream of cicadas. Leaning over the balcony, I gather fresh drops of rain, the first and the last. At night, the moon crosses the blinds of the bedroom and lights up my body, curled on the Egyptian 500-thread sheets. As for company, I only want my son's, my mother's and my cat's, spontaneous extensions of myself. Voices, only those of dear spirits, of small children, or the lonely elderly. Caresses, only those of the wind, which kindly refreshes my face. Men, don't look at me: I'm ugly. Friends, don't look for me: I'm absent. Why meet people? I've met all I can stand. I don't need facts – the world spins without me. I'm only interested in the leaf fallen on the grass and in the poem whispered by the ancient tree. I fade away in this inverted spring. I penetrate the dark depths of the earth to implode my singing, until the white death of the...

A Salamandra Cor de Laranja

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Eneida Coaracy Salamandras são animais anfíbios conhecidos pela capacidade de auto-regeneração de suas caudas quando mutiladas. A rapidez com que esta parte do corpo desses pequeninos animais se regenera, após terem sofrido agressões externas, inspirou uma amiga ao escolher um presente para mim. Assim, fui surpreendida com este delicado pequeno mimo, feito de vidro alaranjado, na forma de uma espevitada salamandra. — Como se chama este animalzinho mesmo em inglês? Perguntei-lhe ao receber o presente, pois a amiga em questão é americana. — ‘Salamandra’. Respondeu-me. Elas têm uma capacidade incrível de se auto-regenerarem. — Ah! Sim. Salamandra, como em português. Sei o que é... Lindinha. Muito obrigada mesmo. Você não se emenda. Está me estragando de tanto mimo. Acrescentei. Íamos a uma festa naquele dia e o presente me foi dado antes de sairmos juntas. Voltei com a salamandrinha guardada na minha pequena bolsa de festa e, ao chegar em casa, abri o embrulhinho para admirar mais uma vez...

Código Secreto

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Eneida Coaracy Quando os ponteiros do relógio assinalaram quatro horas, o segurança encarregado do controle de senhas disse que eu poderia entrar. Empurrei a pesada porta que dava acesso ao corredor que me levaria à UTI nº 1, que ficava à esquerda. O chão de porcelanato claro parecia refletir a minha enorme ansiedade, à medida que pisava o lustro silencioso das lajotas. O corredor tornara-se infinitamente mais longo e amplo — eu, uma minhoquinha que se arrastava na direção de uma fresta escura e desconhecida. No terceiro dia de internamento do meu filho, já me considerava uma veterana nessa nova e inóspita arena da vida. Abri a porta que dava acesso aos boxes. Outro segurança conferiu a minha senha e me perguntou se eu sabia quais eram os procedimentos. — Sim, sei. Tenho que lavar as mãos ali na pia, à direita, antes de me dirigir ao box nº 14, certo? — Certo, respondeu-me. Entrei, quase sem perceber nada ao meu redor, buscando somente o número 14, à direita. Parada aos pés da cama, ob...

A Língua

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Eneida Coaracy Soltei a língua à cata de palavras que o coração escondia. Ela, vadia, remexeu tudo. Bateu boca por aí, linguajou, perturbou. Desarrumou tudo. Fez palavras cruzadas, montou e remontou sílabas. Aprendeu a deslizar, não mais sibilou. Lambeu cicatrizes, secou lágrimas. Limpou tudo. Soltei a língua à cata de palavras e disse tudo Poema classificado em segundo lugar no Prêmio SESC de Poesia Carlos Drummond de Andrade - Edição 2005.

ONDE ESTÁ WALLY?

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Eneida Coaracy O casal chegou ao ‘resort’ entusiasmado com a beleza das praias ao redor, o tamanho das piscinas e facilidades de lazer oferecidas e, principalmente, com o luxo dos quartos. Sim, certamente seriam dias de relax e conforto, regados a muito sol, camarões apetitosos, cerveja e muita tranqüilidade. O local era tudo que precisavam para descansar e recuperar as forças para tocar o trabalho até o final do ano. — Olha só o tamanho dessas piscinas, marido! — E só de pensar que poderemos dispor de tudo isso por um preço tão barato, fico ainda mais feliz, respondeu-lhe este entusiasmadamente. Tudo fica com um sabor melhor ainda, acrescentou. Logo alugaram um carro para melhor poderem se locomover e conhecer a cidade e praias mais distantes. Também contataram alguns amigos e se aventuraram em passeios pelos arredores. Foram a bares exóticos e comeram em um ótimo restaurante, ao qual voltaram duas vezes pela ótima comida e quantidade de camarões oferecidos nas porções individuais. Re...

Olho de Ciclone

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Eneida Coaracy Vejo a veia nervosa  Conectar o céu e a terra.  Vejo grossas lágrimas encharcarem  O solo apavorado cá em baixo.  Vejo o jato irado e molhado  Tombar sobre a vida,  Cair rumo abaixo.   Vejo a queda contorcida.  Vejo nuvens delirarem.  Inchadas, transbordarem.  Telhados, postes, fiação,  Tudo a dançar ao relento  A loucura dos sons do vento.  Vejo o canal lacrimal de Deus  Inchar e chorar  As dores do mundo.  Doido, perdido na Ventania  que assoprou os trastes do homem,  Está o homem nu.  O homem vê uma cicatriz no céu.  O homem vê os nervos de Deus.   Eu, no meu lamento,  Maldigo as cicatrizes da cidade.  Vejo o mundo ao redor de pernas pros ares.  Vejo as veias do firmamento repuxarem nuvens,  Assustarem o solo encolhido cá em baixo. Vejo a negra vastidão solitária.  Vejo uma cicatriz no céu  Doer no olhar.   Vejo o...

Intimidade

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Eneida Coaracy Parei de escrever de repente, segurei a velha caneta Bic toda mordida na ponta, e a examinei fixamente. Na realidade, estava dando um tempo para ver se as idéias ficariam mais claras e conseguiria desenvolver o conto que pretendia escrever naquela tarde ensolarada. Descansei a caneta ao lado, peguei um lápis e o analisei com a mesma atenção. Pus os dois na minha frente, em cima do bloco de papel, e fiquei tentando me decidir qual dos dois usaria para escrever naquele momento. Segurei o lápis, senti a maciez áspera da madeira na mão, escrevinhei alguma coisa e ouvi a grafite arranhar o papel. Observei os dois principais elementos de que dispunha para a minha tarefa literária: a folha de celulose, que um dia fora madeira, que um dia fora árvore, que dera sombra, que dera abrigo, que talvez dera frutos, que fizera parte de um sistema ecológico, que agora se transformara em instrumento de trabalho, que novamente se transformará em um outro elo dessa cadeia transformadora que...

Por quem os jingles dobram

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Eneida Coaracy Queridos amigos (do batente do dia-dia, não tão distantes, distanciados pelas circunstâncias da vida, de além-mares, daqui e de acolá), Cá estamos novamente encerrando este ciclo temporal chamado ANO, criado pelo homem para ajudá-lo a demarcar etapas, ciclos, movimentos, passagens. Sinos rebimbam, jingles ecoam repetidamente na mídia, urgindo todos a comprarem, presentearem-se, confraternizarem-se. O Natal está chegando! Um Novo Ano anuncia vida nova, promessas de realizações pessoais e de sonhos, mudanças e viagens. Tudo é mágico e possível. O verdadeiro sentido do Natal, perdendo-se nesta ruidosa confraternização consumista inventada pelo homem. Entretanto, torna-se praticamente impossível escapar do redemoinho natalino, de cuja força magnética ninguém parece conseguir escapar, inclusive eu própria, que aqui estou tentando me conectar aos meus amigos queridos e não me deixar fragmentar por esta ventania salpicada de falsas estrelinhas douradas — que cegam de tanto que ...