Alexandra Rodrigues Domingo, 10 horas Aos domingos o corpo e a vontade bifurcam-se na esquina do dia, a taquicardia incontrolável, o pensamento sereno. Parece que do meio-dia para a tarde é assim mesmo, o coração do prolapso mitral desobedecendo ao coração que mora fora da caixa torácica. E esse outro desembestado pelo mundo, cada vez mais cristal, tremendo diante de uma flor lilás, diante de uma criança no estacionamento, de pé descalço e mão estendida. Não devia haver crianças solitárias aos domingos. Terça-feira, 11 horas Muda o cenário e a narrativa: deixo o cerrado, chuvas esquecidas e aventuro-me pelas veredas de Guimarães Rosa na aula de literatura. Enfrento a calamidade do quente, no sertão onde a luz assassina demais, para desendoidecer o dia, leio palavras inventadas de livre pensador e mais que livre escrevedor. Faço anotações medindo cruzado pelas margens do livro, descubro que por pura soletração de si ninguém chega na terceira margem; que o Arrenegado, Cramulhão, o Não-se...