sábado, 27 de setembro de 2008

Brancas de Neve




Luci Afonso


Os homens aproveitam o sábado para pescar com amigos no Lago e se recusam a levá-las. As duas sentem um leve desejo de vingança.

A tarde está quente. Escolhem uma garrafa de vinho geladíssima e sentam-se no carpete, decididas a se embebedar. Conhecem-se há pouco tempo, mas vivem se encontrando para almoçar, fazer compras ou simplesmente bater papo. Riem muito juntas, por qualquer motivo.

A dona da casa recolhe livros infantis espalhados pelo chão, entre eles o de Branca de Neve. Pertencem à filha de sete anos, que está passando o fim de semana na casa dos avós.

Depois de algumas taças de vinho, ela sugere:
— Vamos brincar de Branca de Neve?
— Como é? - pergunta a outra.
— Você nunca brincou?
— Nunca - ela mente.

— É assim: eu sou a rainha má e você é a princesa boa. Eu te dou uma maçã envenenada, você morde e cai no sono. Os anões pensam que você morreu e te preparam um leito de flores. O príncipe vem e te acorda com um beijo...

— Cadê os anões?
— Foram pescar.
— E o príncipe?
— Também.
— Estou cansada desses anões.
— São uns bobos.
— E do príncipe...
— É um chato.
— Mas, sem eles, não dá pra brincar.

— Dá, sim. É só mudar o enredo.
— Como?
— Eu te dou a maçã envenenada, você morde. Eu mesma te coloco no leito de flores, finjo que sou o príncipe e te desperto com um beijo.
— Aposto que não tem maçã. Nem flores...
— Tem, sim. Comprei hoje de manhã.
— Estou com calor demais para brincar - desculpa-se a jovem.
— É só tirar a roupa.

A rainha escolhe a maçã mais vermelha e ordena:
— Coma.

Branca de Neve morde a fruta com os dentes branquíssimos e desfalece.

A rainha a conduz ao leito e lentamente distribui as flores sobre o corpo da jovem. Depois, afasta-se para observá-la dormindo. Passa-se longo tempo até que decida ressuscitá-la.

Quando os homens retornam, encontram o apartamento vazio. Elas já partiram para a floresta encantada, repleta de prazeres e delícias, sem anões ou príncipes para estragar a estória.
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Fragmentos de Viagem




Alexandra Rodrigues


Domingo, 10 horas
Aos domingos o corpo e a vontade bifurcam-se na esquina do dia, a taquicardia incontrolável, o pensamento sereno. Parece que do meio-dia para a tarde é assim mesmo, o coração do prolapso mitral desobedecendo ao coração que mora fora da caixa torácica. E esse outro desembestado pelo mundo, cada vez mais cristal, tremendo diante de uma flor lilás, diante de uma criança no estacionamento, de pé descalço e mão estendida. Não devia haver crianças solitárias aos domingos.

Terça-feira, 11 horas
Muda o cenário e a narrativa: deixo o cerrado, chuvas esquecidas e aventuro-me pelas veredas de Guimarães Rosa na aula de literatura. Enfrento a calamidade do quente, no sertão onde a luz assassina demais, para desendoidecer o dia, leio palavras inventadas de livre pensador e mais que livre escrevedor. Faço anotações medindo cruzado pelas margens do livro, descubro que por pura soletração de si ninguém chega na terceira margem; que o Arrenegado, Cramulhão, o Não-sei-que diga, é um redemoinho na alma da gente; que todas as ruindades têm um propósito divino. Falamos das coisas mais alonjadas da primeira meninice e ficamos existindo, assim, belim-beleza, por uma hora de relógio sem fim, sabendo que no instante seguinte principiava o peso da vida. E que quando deixarmos o sertão, dia da gente desexistir, quando tudo secar, mesmo sabendo que as pessoas ainda não foram terminadas, terei vontade de por meus dedos, de leve, o leve, nos meigos olhos desta manhã.

Quinta-feira, 12 horas
Raramente fecho as portas do dia. Hoje é um desses dias. Foi no centro do coração que a bala acertou. Meu amigo, um professor apaixonado pelo ofício de educar, tinha quarenta anos, um olhar transparente, sedento de utopias. Nunca fomos íntimos, mas ele exalava um cheiro de sonho acordado que me enfeitiçava. Era diretor de uma escola pública, acolhia os adolescentes na porta. Parece que tinha começado a denunciar o tráfico de drogas na escola. Foi muito de repente, às cinco da manhã. Um barulho na casa, uma porta aberta, o estampido de um tiro certeiro. E tudo se fez fim na paisagem escura da madrugada. A bala continua voando, em câmara lenta, na minha direção.

Sexta-feira, 12h30
Um sol incendiário torra a paisagem do cerrado. Na luz quente do meio-dia um flamboyant batiza o ar de vermelho. Alguns verdes semeados aqui e ali pelo desapego do vento vitalizam a paisagem quase deserta. Dirijo-me ao improvisado estacionamento após conversa delicada com uma amiga iluminada que se reencontra com sua existência criativa. O solo imensamente empoeirado tinge de marrom meus tênis brancos. Enquanto tateio a chave do carro no labirinto da bolsa, uma visão inesperada, imensamente alva e calma, pousa suavemente no meu olhar. Sobre dois finíssimos caules, uma penugem imaculada, de silenciosa tranqüilidade, posta-se, completamente imóvel, na minha frente. Como é possível que, em meio à poeira avermelhada que redemoinha por todo lado, uma elegantíssima garça se plante na paisagem árida do meio-dia? Aquieto meu gesto apressado e contemplamo-nos reciprocamente, numa imobilidade cúmplice. Ficamos assim as duas, sem chão, sem asas, sem tempo. Ela, com pose de eternidade, eu, com emocionado gesto de espanto e reverência.

Domingo, 13 horas
De novo esse dia mágico. Nunca decidi se a semana começa no domingo ou na segunda-feira. O domingo é um dia tão pleno, um intervalo tão seguro entre duas faixas do tempo! Ele me remete para essa quase suspensão de vida que eu percebia enquanto voava entre dois continentes ao longo de 10 horas, a bordo do meu ser. Talvez a semana comece de fato na segunda-feira, mas então, por que não nomeá-la de primeira feira?
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Código Secreto


Eneida Coaracy
Quando os ponteiros do relógio assinalaram quatro horas, o segurança encarregado do controle de senhas disse que eu poderia entrar. Empurrei a pesada porta que dava acesso ao corredor que me levaria à UTI nº 1, que ficava à esquerda. O chão de porcelanato claro parecia refletir a minha enorme ansiedade, à medida que pisava o lustro silencioso das lajotas. O corredor tornara-se infinitamente mais longo e amplo — eu, uma minhoquinha que se arrastava na direção de uma fresta escura e desconhecida.

No terceiro dia de internamento do meu filho, já me considerava uma veterana nessa nova e inóspita arena da vida. Abri a porta que dava acesso aos boxes. Outro segurança conferiu a minha senha e me perguntou se eu sabia quais eram os procedimentos.
— Sim, sei. Tenho que lavar as mãos ali na pia, à direita, antes de me dirigir ao box nº 14, certo?
— Certo, respondeu-me.

Entrei, quase sem perceber nada ao meu redor, buscando somente o número 14, à direita.

Parada aos pés da cama, observava meu filho respirar através de um longo tubo de plástico e refletia sobre como ter certeza de que ele realmente me reconheceria como sua mãe. Meu coração batia apressadamente enquanto o olhar investigava o amontoado de aparelhos e fios ao redor da cama. Notei a ausência de um dreno na sua cabeça, a barba um pouco mais crescida, a fisionomia serena do seu rosto. O resto era exatamente igual ao que eu deixara na tarde anterior. Em seguida, segurei sua mão firmemente, acariciando o dedo indicador. Será que ele me reconheceria?

— Ringo! - chamei quase de repente. Ato contínuo, ele apertou firme minha mão, arregalou o olho direito e mexeu a boca, num esforço supremo, tentando dizer ‘Mamãe!’ O movimento dos lábios se tocando para produzir as bilabiais melodiosas que queria pronunciar não me deixaram sombra de dúvida de que minha estratégia de comunicação havia funcionado.

***

Ringo, nosso cachorro de estimação, partira um ano atrás. A forma como costumava chamá-lo fora motivo de muitas brincadeiras entre mim e meu filho, que freqüentemente imitava a entoação que eu dava quando dizia ‘Ringo!’ Isso havia resultado em um código bem humorado que adotávamos em muitas conversas familiares.

Nosso pastor alemão havia intermediado a comunicação entre mim e meu filho, após o longo silêncio de um coma induzido. Ringo latira dos céus para Augusto, meu filho, que escapara da morte em um violento acidente automobilístico!


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sábado, 20 de setembro de 2008

26º Sarau da Câmara dos Deputados


Literatura: hai-cais e contos populares lidos por membros do Núcleo de Literatura.
Música, dança e show de tambores, com a especial participação de artistas da comunidade nipônica.
Músicos convidados: Nestor Kirjner e Rogério Midlej.
Coquetel: culinária japonesa.

Teatro SESC Garagem - 913 Sul
29 de setembro
20h30min

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Que povo é esse?




Luci Afonso


O cenário cultural brasiliense está agitadíssimo neste início de setembro.

Na terça, o Sarau da Tribo das Artes abre a Bienal Internacional de Poesia no SESC da 504 Sul. Sou uma das primeiras a chegar e lá encontro Cacá e outros membros do grupo, distribuindo material e amarrando cordéis. Quanta adrenalina! Parecem formigas dedicadas a um objetivo comum e que não param um minuto até atingi-lo. Isso não apenas antes do espetáculo, mas também durante e depois.

Começado o show, eles transitam freneticamente. A cada minuto alguém entra ou sai do auditório e Cacá se apressa em fechar a cortina. Se o sarau durar três horas, o poeta-organizador-apresentador se levantará, pelo menos, 180 vezes.

Enquanto assistimos a uma poemação, um vulto sai dos bastidores e chuta o violão encostado num banquinho. Poder-se-ia imaginar uma performance ao estilo de Jimmi Hendrix, mas é apenas o músico Máximo Mansur, que, por algum motivo urgente, precisa atravessar o palco escuro e tropeça.

Atrás de mim, uma voz feminina conhecida se eleva para entoar palavras perdidas. Outras declamadoras juntam-se a Anabe numa espécie de ritual xamânico, que nos emociona e hipnotiza.

Ao final, troco meu livro pelo de uma poetisa curitibana que está lançando seu trabalho em Brasília. Provo mais alguns salgadinhos, me despeço e chamo o táxi. Fico sozinha na porta do SESC — parece que sou a última a sair. Parece... Um grupo de animados tribalistas deixa o edifício e pára na esquina, confabulando. Depois, dirigem-se aos carros, talvez, para uma esticada ao Beirute ou um recital relâmpago em algum ponto da cidade.

Essa Tribo é o bicho.
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Um amor na contramão



Alexandra Rodrigues

A mulher seguiu, obediente, a placa que indicava o caminho à direita, evitou a contramão com medo de contrariedades e atolou-se por ali mesmo, em terra de certezas.

Era mulher feita, desfeita em pesadelos de nuvens altas. O amor a chamava do outro lado da rua.
Um amor de pé quase descalço.
Um amor de suave estremecimento e simplicidade na casa do coração.
Um amor de vegetação ressecada coroada de raras e enigmáticas flores vermelhas.
Um amor de transparências aquáticas onde fluía a força da água em pedra dura, esculpindo vales e silêncios.
Um amor de essencialidades amanhecidas que massageavam a alma.
Um amor de sabedoria anunciada no sibilar de singelas palavras que cruzavam internos caminhos.
Um amor que cantava o sabiá e observava a formiga na folha paciente do verde dia.
Um amor de tarde para a noite, cristal coberto de pequeninas flores azuis.
Um amor de sossego que despertava a luz do sol e se banhava no córrego da lua.
Um amor cozinhado em fogo de lenha.

A mulher esperou os homens chegarem, dois homens, e acenou-lhes com as incertezas do amor. Foram encontrá-la no meio do caminho, colocando pedrinhas na roda da vida para desatolar o carro da alma. Era necessária força para erguer a carruagem do eu e fazê-la seguir pela alameda da vida. E eles, tão simples, tão rasantes, tão agora...
Ela entrou dentro de si mesma e subiu pela ladeira proibida. A contramão a faria encontrar sua própria mão.
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Eu sei o que é primavera



Clarice Lispector

Bem sei que é uma vaidade dizer em plena primavera que eu sei o que é primavera. Às vezes porém sou tão humilde que os outros me chamam a atenção. É uma humildade feita de gratidão talvez excessiva, é feita de um eu de criança, de susto também de criança. Mas, desta vez, quando percebi que estava humilde demais com a alegria que me era dada pela vinda da primavera chuvosa, dessa vez apossei-me do que é meu e dos outros.

Sei o que é primavera porque sinto um perfume de pólen no ar, que talvez seja o meu próprio pólen, sinto estremecimentos à toa quando um passarinho canta, e sinto que sem saber eu estou reformulando a vida. Porque estou viva. A primavera torturante, límpida e mortal que o diga, ela que me encontra cada ano tão pronta para recebê-la. Bem sei que é uma perturbação de sentidos. Mas, por que não ficar tonta? Aceito esta minha cabeça à chuva tremeluzente da primavera, aceito que eu existo, aceito que os outros existam porque é direito deles e porque sem eles eu morreria, aceito a possibilidade do grande Outro existir apesar de eu ter rezado pelo mínimo e não me ter sido dado.

Sinto que viver é inevitável. Posso na primavera ficar horas sentada fumando, apenas sendo. Ser às vezes sangra. Mas não há como não sangrar pois é no sangue que sinto a primavera. Dói. A primavera me dá coisas. Dá do que viver. E sinto que um dia na primavera é que vou morrer. De amor pungente e coração enfraquecido.

5 de outubro de 1968

(“A descoberta do mundo”. Crônicas. Ed. Rocco, 1999)
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sábado, 13 de setembro de 2008

Sarau das Estações




Luci Afonso


A sacerdotisa examina o templo. Almofadas de veludo se espalham pelo chão; as velas estão acesas. A fonte está prestes a desaguar-se, e os símbolos estão ávidos para serem decifrados.
O pequeno sino anuncia a comitiva: feiticeiras-madrinhas em túnicas branco-negras; poetas dos minutos, dos ventos e das fadas; menestréis de melodias quânticas e de vilas brancas. Todos vestem a pureza de alma e a compartilharão durante a noite.

Os convidados se refazem da jornada ao som de alaúdes. Servem-se de bandejas de frutos doces e taças de água pura. Daí a pouco vão saborear o vinho. Embaixadores de reinos distantes se reconhecem e se saúdam. Percorreram grandes distâncias e anseiam pela colheita de palavras maduras.

O patriarca entra amparado pelas poetisas do afeto. Traz no braço uma ave belíssima e desconhecida, de longa plumagem branca. Abre a cerimônia numa língua encantada e depois permanece em silêncio eloqüente, acariciando o pássaro enquanto os presentes prestam reverência ao mais sábio entre eles.

Em breve o objeto mágico adentrará o recinto. Eis que a anfitriã o traz, a passos calmos, e o deposita no centro da sala. Os poetas se perfilam para repartir descobertas que lhes sustentarão o espírito até o equinócio seguinte. Um deles se adianta e toma o bastão da palavra, dando início ao ritual perpétuo.

A poesia é servida.
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Silêncios




Alexandra Rodrigues


I.
Ela tinha-se especializado em recortar silêncios: agrestes, ensolarados, marítimos, delicados origamis suspensos no fio do sentir. Colecionava os silêncios em baús de espuma e maresia.
Havia dias em que os silêncios a visitavam de manhãzinha, ainda ensonados, sonhadores. Eram os silêncios perfumados do despertar. Silêncios que espreitavam através da vidraça e enfeitiçavam o dia.
Havia silêncios trancados à chave em uma caixa de vidro translúcido. E também silêncios azuis de solidão inacabada. E procissões de silêncios cristalinos atravessados por finos raios de luz.
Havia silêncios que gemiam ao vento, silêncios de brisas e eternidades que ressoavam na catedral da existência como sinos de domingo. E que guiavam passos inseguros no labirinto do infinito.

II.
O silêncio infiltrou-se lentamente pela sola dos pés e conseguiu chegar até à alma. Ela sentia-se leve como um passarinho que reencontra a direção do sol.
O silêncio foi penetrando, devagarzinho, pelas frestas de internas janelas que se abriam para misteriosas felicidades.
A harmonia emprestava suas harpas à tessitura do silêncio. Leves penugens esvoaçavam, abraçadas ao vento.
Acordes de luz nadavam no lago cósmico da quietude. Lágrimas de silêncio mergulhadas em oceânicas transparências .
Como brisa suavemente soprada na flor, pétalas de silêncio perfumado desprendiam-se da alma de todas as coisas.

III.
As cores do dia derretiam-se lentamente dentro da paisagem do entardecer. Como se a noite fosse um convidado esperado depois das últimas pinceladas de azul.
Nessa hora o céu esbatia a paisagem do dia e inventava toalhas de estrelas. O crepúsculo abaixava suas sombras indecisas até elas se esconderem em enigmáticas florestas de sonhos e devaneios.
Das últimas águas da consciência respingavam sensações que se diluíam na serenidade da noite.
Era chegada a hora de adormecer o silêncio.
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sábado, 6 de setembro de 2008

Terri primeiro, João Paulo Segundo



Luci Afonso


Terri Schiavo morreu duas vezes. Jovem e bonita, parou de comer para perder peso e talvez agradar ao marido Michael — na época o casal estaria em processo de separação. A bulimia trouxe a parada cardíaca e, em conseqüência, o estado vegetativo. O marido decidiu que ela não queria mais viver e, com a autorização da Justiça, desligou os aparelhos que a alimentavam. Os pais de Terri, que adivinhavam um sorriso onde outros viam mero reflexo, lutaram pela filha amada, que tinham a esperança de um dia recobrar a consciência. Foram apoiados por milhares de pessoas no mundo inteiro, mas venceu Michael Schiavo, que, não contente em matar a esposa de fome e de sede, fez questão de reduzi-la a cinzas, negando à família o sagrado direito ao último adeus.

João Paulo II sobreviveu a atentado, dor e velhice, e ninguém cogitou de apressar sua partida. No último gesto, sem palavras, ficou evidente o grande sofrimento que enfrentava. Foi enterrado com véu de seda e anel de bispo, em perfumado caixão de cipreste, forrado de veludo vermelho.

Milhões de pessoas rezaram por Terri Schiavo e João Paulo II. Os dois tiveram o mesmo destino — que também é o nosso —, mas por caminhos muito diferentes. Terri não teve chance de lutar pela vida; João Paulo lutou por ela enquanto pôde, talvez muito além de suas forças, em nome do amor à humanidade. O mundo se uniu no lamento pela morte do Papa, aclamado santo pela multidão.

Santo é todo aquele que enfrenta a vida com bravura e dignidade, e que dela merece partir com véu de seda e anel de bispo. Santa Terri, Santo João Paulo, santo ser humano. Vão com Deus. Amém.
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As águas do meu Nilo



Alexandra Rodrigues


O rio Nilo secou! Amanhã de manhã você lerá essa manchete no jornal da sua cidade. Se você morar em outros Egitos, poderá ensaiar a tradução livremente na língua do seu faraó: o rio Amazonas secou, ou o rio São Francisco, o Guaíba ou o Parnaíba. Não importa em que leito o seu rio corra: secou o rio da sua aldeia, o rio dos desejos da sua adolescência e juventude, o rio pelo qual navegou livremente a sua imaginação; secou o rio que banhou as margens dos seus sonhos e que encharcou de esperança a navegabilidade da sua vida; um rio situado em algum território impreciso entre o passado e o futuro, pelo qual você desceria um dia em viagem marcada no mapa do seu corpo e combinada com a sua melhor amiga.

Imagine a amiga de uma vida inteira, aquela que você conheceu aos 13 anos no colégio, a quem confiou seus medos e segredos, aquela que se tornou mais que sua irmã, de quem você se separou com inaudível dor quando foi morar em outras terras e o destino as arremessou contra paisagens, línguas e costumes diferentes, bifurcando irremediavelmente suas vidas.

Sabe que o reencontro marcado, na luz do amanhã, era uma fantástica viagem pelo rio Nilo para visitar as gigantescas estátuas dos faraós, os templos colossais dos deuses e as misteriosas pirâmides de Gisé? Que mais de quatro mil anos de História esperaram por vocês durante quase quarenta anos de uma única existência? Sabe que as pirâmides de Quéops, Quéfren e Miquerinos resistiram à erosão, à espera de duas mulheres que um dia prometeram visitá-las juntas? Que Osíris zelou, lá da eternidade, pela navegabilidade dos seus sonhos e Tutankamon, em seu imponente trono de ouro maciço, ordenou que o rio que deu vida ao Egito permanecesse encharcado de leito por mais de quatro mil anos, aguardando você e sua melhor amiga? Sabe quando a materialidade da infância, da adolescência, da juventude vai ficando cada vez mais imperceptível no fio do tempo e um sonho sonhado junto é o elo que une o seu passado ao seu futuro? Sabe quando o tempo vai fluindo como uma correnteza que banha mil vidas e se passam dez, vinte, trinta anos, quase quarenta e você continua brincando de sonhar com um Nilo de águas límpidas que nunca envelhecerão, um rio que estará eternamente à sua espera, aguardando essa viagem que você e a sua amiga farão em breve, dali a algum tempo, um dia, quem sabe?

Imagine agora que, em um efusivo telefonema de parabéns a você que atravessa um oceano e dois continentes, a velha amiga lhe revela inesperadamente que acabou de chegar do Egito. E delicadamente se desculpa por ter traído o combinado de uma vida. Não era para ter ido ao Egito, mas enfim, a Grécia estava ardendo e na última hora, bem na véspera de partir de férias, a agência de viagens conseguiu duas passagens para o Egito. Sabe quando, represando o inesperado choro adolescente que tenta conter no meio do telefonema, quase rompendo os diques da barragem de Assuã, você pergunta, na tentativa de dar um tom de graça à desgraça que acaba de se abater sobre o seu coração, mas já sabendo a resposta, E com quem você me traiu? Claro que a viagem da amiga foi com o marido dela, com quem você mantém as melhores relações, mas aquela viagem não era para maridos, era para ser a viagem de duas amigas de uma vida!

Quando a passagem tem já quase meio século é difícil cancelar o que sobrou de um sonho, talvez o único que você mantém desde os treze anos. Então você ainda tinha sonhos pueris, dá-se conta no meio do telefonema. Podemos ir a Machu Pichu, quem sabe ao arquipélago dos Açores, propõe a amiga, num gesto inutilmente gentil. Mas não se fazem pirâmides nos Nilos dessas terras! Você compreende a amiga no mais íntimo do seu ser, porém a redoma de vidro que protege as relíquias de Tutankamon está agora vazia, irremediavelmente vazia, no museu do Cairo da sua vida. Não se protege um tesouro faraônico com vidro, você descobre, quando a câmara do Tutankamon foi já violada e o escriba que acolhia as ordens do faraó se recusa a escrever, sobre o papiro da vida, mensagens do futuro.

Compreende agora a manchete do jornal de amanhã? As águas do meu Nilo secaram. E as do seu rio?


Alexandra Rodrigues nasceu em Lisboa e replantou suas raízes em Brasília em 1985. É psicóloga e professora na Faculdade de Educação da Universidade de Brasília. Tem desenvolvido nos últimos 20 anos uma proposta de Oficina da Palavra, espaço de (re)encontro de educadores com o prazer da escrita. Publicou em 2004 O Nome das Coisas, um livro em prosa poética acerca da Palavra, e em 2007 Minha avó botou um ovo, seu primeiro livro de crônicas, ambos pela Thesaurus.

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© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira