sábado, 28 de março de 2009

Primo, prima



Luci Afonso


— Está feliz, prima?

A voz carinhosa a despertou do meio-sono em que se encontrava desde que a caipirinha lhe subira de repente à cabeça, no show de forró. Não dançaram nenhuma música, ele com reumatismo, ela com artrose. Em compensação, beberam e trocaram confidências a noite inteira, enquanto os membros mais jovens do grupo arrumavam pares na pista de dança.

A embriaguez inesperada a deixara leve e risonha e lhe servira de pretexto para se apoiar no braço forte, que não largara mesmo depois de passado o efeito da bebida. Do forró saíram para o bar do Gonçalinho, em busca do famoso mexidão, que rebatia qualquer bebedeira, e de lá resolveram esticar até o Cristo, o ponto mais alto da pequena cidade, para assistir ao nascer do dia.

Sentaram-se debaixo da Árvore dos Enforcados, a mais antiga da região, e na qual, segundo a lenda, escravos revoltosos eram punidos com a morte. A madrugada estava fria e úmida, mas não sentiam frio nem se incomodavam com o chuvisco que começara a cair.

— Sempre quis fazer isto – ele disse.
— Acho que você estava esperando por mim – ela brincou, repousando a cabeça no ombro macio.

Tinham a mesma idade, com a diferença de apenas dois meses. Passaram a infância juntos e não se viam há mais de vinte anos, desde quando ela se mudara para a capital. Pareciam-se no nome, na força, nas lutas vencidas.

Ele lhe contou sobre a namorada que conhecera na Internet, depois de terminar o longo casamento.
— É uma mulher encantadora!
Ela lhe falou do relacionamento com um homem mais velho, e que acabara há poucos meses.
— Nenhum outro me deu tanto prazer...

Eram quase seis horas. O dia clareava, apesar de nublado, e as luzes da cidade começavam a se apagar. A da Igreja Matriz, em cujo altar haviam recebido o batismo e a primeira comunhão. As da avenida principal, onde frequentavam o grupo escolar. As da Rua São Vicente, em que moravam quando crianças, e as da pracinha na qual brincavam à noite, em bandos.

— Que paz! – ele exclamou, com um longo suspiro.
— Este momento vale toda a minha vida – ela falou baixinho.
— Está feliz, prima?
— Quase – ela respondeu, aconchegando-se ao corpo quente e generoso do primo, do pai, do tio, do avô, do homem, do homem.
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Hífen é castigo de Deus



Dad Squarisi



O hífen é castigo de Deus? É. Se alguém tinha dúvida, a reforma ortográfica se encarregou de acabar com ela. O texto do acordo é tão impreciso que deixou perguntas, perguntas e perguntas no ar. Onde encontrar respostas? No Vocabulário ortográfico da língua portuguesa (VOLP). Mas ele estava desatualizado. Finalmente a Academia Brasileira de Letras divulgou a obra. Nota explicativa ajuda a tirar grilos da cabeça. Nela, explicitam-se os princípios que nortearam o VOLP.

São quatro. Um: respeitar a lição do acordo. Dois: estabelecer uma linha de coerência do texto como um todo. Três: acompanhar o espírito simplificador do acordo. O quarto e mais importante: preservar a tradição ortográfica quando das omissões do acordo. Em bom português: exceções só as explícitas. Como no jogo do bicho, vale o que está escrito.

Eis um exemplo. O acordo manda usar hífen quando o prefixo é seguido de h. É o caso de anti-humano, super-homem, a-histórico. Citou uma exceção — subumano, cujo uso está consagrado. Pintou a confusão. Voltaríamos a escrever in-hábil, des-habitado e re-haver? O quarto princípio diz que não. Eles continuam como dantes no quartel de Abrantes. Vamos às novidades.

Exigem o tracinho

a. Os prefixos seguidos de h: anti-higênico, super-homem, micro-história, extra-humano, co-herdeiro, proto-história, sobre-humano, ultra-heróico, a-histórico. Exceções: subumano, coerdeiro, coabitação, reaver, anistórico, anepático, desumano, inumano, inábil (e derivados).

b. Além, aquém, ex, pós, pré, pró, recém, sem, vice, sota, soto, vizo: além-mar, aquém-muros, ex-presidente, pós-graduação, pré-primário, pró-reitor, recém-chegado, sem-terra, vice -presidente, sota-piloto, soto-mestre, vizo-rei.

c. Os prefixos terminados em vogal ou consoante seguidos por palavra começada pela mesma vogal ou consoante: anti-inflamatório, auto-observação, contra-ataque, micro-ondas, semi-internato, hiper-rico, inter-racial, sub-bloco, super-romântico. Exceção: co-, re-, pre- e pro se juntam ao segundo elemento mesmo quando ele acaba com a mesma letra: coordenar, coobrigação, reeleição, preencher, proótico (e derivados).

****
Sub- usa mais um hífen — com palavra iniciada por r: sub-região, sub-raça.
****

Nos prefixos terminados em vogal que se juntam a palavras começadas por r ou s duplicam-se o r e o s pra manter a pronúncia: antirrábico, antissocial, biorritmo, contrassenso, infrassom, microssistema, minissaia, multissecular, neossocialismo, semirrobusto, ultrarrigoroso.

d. Circum e pan seguidos por vogal, m, n: circum-escolar, circum-navegação, pan-arábi co, pan-mágico, pan-negritude.

e. Bem e mal seguidos de vogal e h: bem-aventurado, bem-estar, bem-humorado, mal-afortunado, mal-estar, mal-amado. Mas: bem-criado (malcriado), bem-ditoso (malditoso), bem-falante (malfalante), bem-mandado (malmandado), bem-nascido (malnascido), bem-soante (mal-soante), bem-visto (malvisto).

f. Os sufixos de origem tupi-guarani açu, guaçu e mirim: amoré-guaçu, anajá-mirim, capim-açu.

g. Palavras compostas que mantêm a própria acentuação: ano-luz, arco-íris, decreto-lei, médico-cirurgião, tenente-coronel, tio-avô, amor-perfeito, guarda-noturno, mato-grossense, norte-americano, porto-alegrense, sul-africano, afro-asiático, azul-escuro, segunda-feira, conta-gotas, guarda-chuva, couve-flor, blá-blá-blá, reco-reco, trouxe-mouxe, zigue-zaguear.

h. Encadeamento de vocábulos: Brasília-São Paulo, Liberdade-Igualdade-Fraternidade.

i. Expressões latinas aportuguesadas: in octavo, mas in-oitavo; via crucis, mas via-crúcis.

Rejeitam o hífen

a. Os prefixos terminados em vogal ou consoante diferente da vogal ou consoante com que se inicia o segundo elemento: aeroespacial, agroindústria, antieducação, autoescola, coedição, coautor, infraestrutura.

b. Não, quase: não alinhado, não agressão, não governamental, quase fumante.

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O assassino era o escriba


Meu professor de análise sintática era o tipo do sujeito inexistente.
Um pleonasmo, o principal predicado de sua vida,
regular como um paradigma da 1ª conjunção.
Entre uma oração subordinada e um adjunto adverbial,
ele não tinha dúvidas: sempre achava um jeito
assindético de nos torturar com um aposto.
Casou com uma regência.
Foi infeliz.
Era possessivo como um pronome.
E ela era bitransitiva.
Tentou ir para os EUA.
Não deu.
Acharam um artigo indefinido na sua bagagem.
A interjeição do bigode declinava partículas expletivas, conectivos e agentes da passiva o tempo todo.
Um dia, matei-o com um objeto direto na cabeça.


Paulo Leminski (1944-1989)
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Comentário sobre Velhota, eu?



Acabo de ler um e-mail supergentil, que me deixou felicíssima:


"De:Affonso

Assunto: Rejuvenescendo


Volto ao hotel e começo a ler seu livro cheio de sensibilidade e encantos que não envelhecem nunca, obrigado pela presença no T/Bone, ars"


(Ars é Affonso Romano de Sant'Anna, que fez palestra no T-Bone na quinta, dia 5, e a quem dei um exemplar do meu livro.)


Só posso agradecer a gentileza e a generosidade do grande escritor.
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sábado, 21 de março de 2009

O sonhador de moradas



Luci Afonso


Com a alma embriagada de imaginação, o sonhador de moradas transcende seus limites e faz do universo a sua casa.
Fertiliza os ambientes que habita com sensibilidade e beleza.
Amplia e desdobra os espaços, transportando-os para outros tempos, outros planos.
Molda o futuro em composições translúcidas.
Aloja-se em toda parte, mas não está preso a lugar nenhum, sempre no devaneio de outro ninho.
Alça voo para o imaterial, no fascínio de transpor os obstáculos que o prendem à matéria.
Lança-se para o etéreo, onde produz infinitos eus e inaugura múltiplos olhares.
As asas impalpáveis do sonhador de moradas o elevam ao cosmos e à eternidade.





Inspirado na expressão “Sonhador de Moradas”, do filósofo e poeta francês Gaston Bachelard, o artista plástico Lelo criou uma imagem de grande força poética, que alcança de imediato nossa consciência sonhadora. O devaneio do artista produz um ser que se liberta de toda clausura e ascende à imensidão do cosmos, através da imaginação e do sonho, em busca de outros espaços.

Todos somos sonhadores de moradas: ao mesmo tempo em que habitamos nossas casas, projetamos incessantemente nossa alma por universos não desvendados à procura do além, do mais, do mais além.
(A obra estará exposta no Cefor até 9 de abril.)
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Os personagens e seus nomes



Batizar tipos fictícios exige cuidados com a verossimilhança e alguma intuição por parte do autor


Braulio Tavares


Em Dona Flor e seus Dois Maridos, de Jorge Amado, o nome dos personagens reflete suas caracteristicas: Vadinho é o "vadio"; Teodoro Madureira, o "maduro".

O nome é o rosto verbal do personagem, a senha que basta pronunciar para fazê-lo surgir por inteiro. Na criação de um personagem, a escolha ou invenção de um nome próprio é uma decisão final que nem sempre é fácil. Alguns escritores costumam fazer listas de nomes e sobrenomes, e os distribuem pelos personagens seguindo um pouco o instinto e um pouco a busca de verossimilhança.

Pode ser que o autor queira fazer do seu personagem alguém típico, mediano, e nesse caso pode ser útil dar-lhe um nome quase invisível. "José da Silva" já é caricatural, mas nomes como "Antônio Barbosa" ou "Paulo Ferreira" são nomes brasileiros que tendem a passar despercebidos. Qualquer "Maria" se dilui em milhões de outras, a menos que traga um segundo nome fora do comum.

Nomes característicos

Na antiga literatura satírica ou moralizante usava-se o nome do personagem para revelar desde logo sua característica principal. Um indivíduo ingênuo chamava-se "Simplício" ou "Inocêncio"; um indivíduo decente e probo era "Honorato". "Fidélia" sugeria uma esposa digna e "Dolores", uma sofredora. Essas indicações óbvias destinavam-se talvez a um público leitor não muito sofisticado, para quem a iniciativa de associar o nome do personagem ao seu caráter era uma gratificante façanha intelectual. Com o passar dos tempos este recurso foi se tornando mais sutil, mas não se perdeu de todo. Em Dona Flor e seus Dois Maridos, Jorge Amado contrasta os dois esposos da protagonista chamando a um Vadinho, que sugere "vadio", e ao outro Teodoro Madureira, que sugere um homem religioso e maduro.

Os nomes dos personagens de Guimarães Rosa já mereceram numerosos estudos, começando pelo Recado do Nome, de Ana Maria Machado, em 1976. Na literatura de Rosa existe um propósito permanente de não tratar os nomes próprios como um dado imutável, documental, extraído da realidade e impossível de modificar. Ele considera que o nome é um elemento literário a mais, e que cabe ao escritor interferir nele, torná-lo significante. Os nomes dos grandes personagens de sua obra — Riobaldo, Diadorim, Zé Bebelo, Augusto Matraga, Miguilim etc. — já foram exaustivamente analisados pela crítica. Mas basta pegarmos uma lista de coadjuvantes para perceber o ouvido e a memória afetiva do autor, como nas listagens que Riobaldo faz dos jagunços do bando: Alaripe, Sesfrêdo, João Concliz, Quipes, Joaquim Beijú, Tipote, Quêque, Mão de Lixa, Freitas Macho, Preto Mangaba, Coscorão, Jiribibe, Moçambicão, Sidurino, Rasga-em-Baixo, Dimas Doido... Nomes tão peculiares e característicos quanto um rosto humano visto de perto.

Sinal gráfico

Nomes abstratos foram muito usados na literatura romântica, onde apareciam "o marquês de S..." ou "a duquesa de D...", quando não "o barão de ***" — o que levou a Emília de Monteiro Lobato a proclamar-se "condessa de Três Estrelinhas". Osman Lins foi um dos raros escritores brasileiros a criar um sinal gráfico para designar um personagem, em vez de um nome. Em seu romance Avalovara, uma personagem feminina é referida por um sinal: um círculo com um ponto no centro e duas pequenas saliências erguidas dos lados, como duas orelhas. Um recurso ousado, até pelo fato de que o leitor não dispõe de um equivalente sonoro para este sinal, como ocorre com qualquer nome comum. Se um personagem se chama "Capitu", existem sons correspondentes à combinação dessas seis letras nessa ordem. Mas a personagem de Avalovara existe apenas para os olhos, na página; é um personagem fora do mundo oral.

Burlesco

Oswald de Andrade, embora mais conhecido como poeta e agitador literário, escreveu dois romances que estão entre as obras mais criativas de todo o Modernismo Brasileiro, Memórias Sentimentais de João Miramar e Serafim Ponte Grande. Neles, a verve satírica do escritor se volta contra a afetada e ignorante burguesia de sua época, e ele prega aos seus personagens nomes burlescos: Pinto Calçudo, Machado Penumbra, Madama Rocambola, Carlindoga, Mariquinhas Navegadeira... São nomes que nada têm de realistas, mas que muitas vezes evocam justamente os apelidos cômicos que as pessoas de sobrenomes pomposos colocam nos parentes, na intimidade familiar.

Ficção científica

A literatura de ficção científica tem a obrigação de inventar outros mundos, outras civilizações, outras línguas e outras histórias. Como produzir nomes que reflitam essa enorme estranheza? Um alienígena, vindo de outro sistema solar, não pode se chamar "William" nem "Boris". Uma solução frequentemente empregada pelos autores é tentar reproduzir foneticamente os sons, teoricamente ininteligíveis, que constituem os nomes próprios. Daí surgem nomes como "Ph'theri" e outros.

Isaac Asimov, nas suas histórias sobre robôs inteligentes, dá aos seus robôs mecânicos siglas que são transformadas, na linguagem coloquial, em nomes próprios. Assim, "NS-Two" torna-se "Nestor", "LV-X" torna-se "Elvex" e assim por diante. Já os nomes dos personagens humanos na sua série da Fundação são uma hábil mistura de radicais e sílabas aleatórias, que os torna fáceis de pronunciar, mas com o grau de estranheza suficiente para parecerem nomes de outros mundos: Hari Seldon, Salvor Hardin, Golan Trevize, Dors Venabili, Ebling Mis, Eto Dermezel etc.
Cada escritor cria um laboratório de nomes de acordo com o universo que está criando. Os planetas onde ocorrem as histórias de Cordwainer Smith têm um clima retrô, são civilizações avançadas que procuram reproduzir fases antigas da história da humanidade, recorrendo a idiomas extintos. Isto o faz criar nomes próprios como Lord Jestocost, Dolores Oh, Magno Taliano, Lord Femtiosex, Lady Arabella, Lord Sto Odin, além de lugares como o planeta Viola Siderea e o Alpha Ralpha Boulevard, "a avenida que subia até as nuvens".

O ideal é que um nome literário seja marcante, único, e que fique colado àquele personagem para sempre: Quincas Borba, Jane Eyre, Gregor Samsa, Isaías Caminha, Emma Bovary, Dorian Gray, Maria Moura... Nomes fortes, característicos, não tão comuns que se confundam com outros, não tão raros que sugiram um exotismo desnecessário.


Braulio Tavares é compositor, autor de Contando Histórias em Versos (Editora 34, 2005). btavares13@terra.com.br


(Texto publicado na Revista Língua Portuguesa nº 41, março de 2009)
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UM D14 D3 V3R40



Leitura intuitiva: depois de ler as primeiras palavras, o cérebro decifrará automaticamente as outras.



3M UM D14 D3 V3R40, 3574V4 N4 PR414, 0853RV4ND0 DU45 CR14NC45 8R1NC4ND0 N4 4R314. 3L45 7R484LH4V4M MU170 C0N57RU1ND0 UM C4573L0 D3 4R314, C0M 70RR35, P4554R3L45=20 3 P4554G3NS 1N73RN45. QU4ND0 3575V4M QU453 4C484ND0, V310 UM4 0ND4 3 D357RU1U 7UD0, R3DU21ND0 0 C4573L0 4 UM M0N73 D3 4R314 3 35PUM4. 4CH31 QU3, D3P015 D3 74N70 35F0RC0 3 CU1D4D0, 45 CR14NC45 C41R14M N0 CH0R0, M45 3l45 C0RR3R4M P3L4 PR414, FUG1ND0 D4 4GU4, R1ND0 D3 M405 D4D45 3 C0M3C4R4M 4 C0N57RU1R 0U7R0 C4573L0.

C0MPR33ND1 QU3 H4V14 4PR3ND1D0 UM4 GR4ND3 L1C40; G4574M05 MU170 73MP0 D4 N0554 V1D4 C0N57RU1ND0 4LGUM4 C0154 3 M415 C3D0 0U M415 74RD3, UM4 0ND4 P0D3R4 V1R 3 D357RU1R 7UD0 0 QU3 L3V4M05 74N70 73MP0 P4R4 C0N57RU1R. M45 QU4ND0 1550 4C0N73C3R 50M3N73 4QU3L3 QU3 73M 45 M405 D3 4LGU3M P4R4 53GUR4R, 53R4 C4P42 D3 50RR1R!! S0 0 QU3 P3RM4N3C3 3 4 4M124D3, 0 4M0R 3 C4R1NH0. 0 R3570 3 F3170 4R314.



(Texto recebido por e-mail.)
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sábado, 14 de março de 2009

Oração ao caixa eletrônico



Luci Afonso


Caixa nosso que estais no (especificar o local), santificado seja o vosso autoatendimento, venham a nós as vossas cédulas, seja feito o nosso saque, assim na segunda como na sexta-feira. O extrato nosso de cada dia nos dai hoje; perdoai-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos a quem nos tem endividado e não nos deixeis sem dinheiro na mão, mas livrai-nos de defeitos no terminal. Amém.

Creio no caixa todo-poderoso, criador do autoatendimento, seu único benefício, nosso servidor, que foi concebido pelo poder do banco, nasceu da tecnologia, padeceu sob a assistência técnica, foi desligado, interrompido e reinstalado; desceu à seção dos mortos, reiniciou no centésimo dia; subiu a rampa do (especificar), está localizado à direita do (especificar), donde há de atender a funcionários e terceirizados. Creio na inviolabilidade da senha de seis dígitos, na segurança das transações virtuais, na interligação dos bancos, na emissão dos extratos, na remuneração da Câmara e nos proventos eternos. Amém.
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A sedução da palavra


Affonso Romano de Sant’Anna

“Mas com um escritor a coisa é diferente. Além de a obra ser um veículo, um meio, ela também é um fim em si mesma. Ou seja: ela tem uma finalidade estética, artística, histórica e social. O escritor está voltado fundamentalmente para a questão da linguagem. E é no trato com a frase, com os recursos estilísticos e expressivos, que ele vai aprendendo a reconstruir-se a si mesmo e a refletir sobre o mundo.”

“Estou convencido de que o bom texto literário não suporta mentiras. Estou convencido de que o melhor texto literário é aquele no qual o autor expõe o que ele tem de mais essencial, sem se deixar trair, esfriar ou seduzir pelos efeitos da simples técnica. (...) A mim me fascina muito este fenômeno: o da paixão que se converte em linguagem e que comove o outro, apesar mesmo das impurezas técnicas que o texto possa ter.”

“É que o escrever, assim como o pintar ou o trabalhar numa atividade qualquer, pode virar uma segunda natureza. O escritor verdadeiro é aquele que converte todas as sensações e pensamentos em linguagem. É aquele que acaba sempre pensando: ah, isto daria um poema, isto daria um romance. O mundo lhe vem filtrado através das palavras. E se não se expressa por meio delas, sente um mal-estar, uma falta de apreensão da realidade.”

“E o ato de ir escrevendo é um ato de construção. Por intermédio dele é que o autor vai descobrindo o que pensa. É isto: a escrita viabiliza o conhecimento de si e do mundo. (...) Por isto é que escrever é um ato de criação, uma epifania.”

“... Agora, se me perguntarem qual o ato de escrever que mais me fascina, eu digo: aquele por meio do qual o escritor está tentando entender-se a si mesmo e o seu papel dentro da comunidade. Nesse caso, a escrita é um gesto de autoconhecimento, mas também de explicação da realidade social. É necessário que haja escritores que tenham um projeto literário e existencial e que dramatizem na sua escrita o consciente e o inconsciente seu e o alheio. Nesse caso, a literatura é um sonho, é um mito, é um produto de utilidade pública historicamente necessário.”

“Por outro lado, o ato de escrever é um momento de tensão. (...) Como é um mergulho no que o sujeito tem de mais profundo, é um gesto temerário. Em geral, paradoxalmente, o autor faz tudo para evitar que isto aconteça. (...) fica por ali remanchando, fingindo que não é com ele, disfarça, pega um objeto, sai, levanta, toma água, inventa um telefonema, corta as unhas, olha uma revista, vai à janela, etc. É que ele sabe que na hora em que começar, vai entrar numa relação vital com suas forças não visíveis. Ele sabe que aquele é um ato de entrega, como um ato sexual, como um arrebatamento místico. Sucede então que, no momento da escrita, realmente a temperatura do corpo se modifica, a cabeça lateja e o coração dispara... O autor respira fundo, tenta fugir, ou diminuir a tensão, como se estivesse querendo se entregar-evitar-e-prolongar ao mesmo tempo o orgasmo da criação... Há um esgotamento químico e orgânico, que é a marca de um transe existencial.”


(Trechos do livro “A Sedução da Palavra”, Affonso Romano de Sant’Anna. Letraviva, Brasília. 2000)
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Testamento


Jonas Camargo era um homem muito rico. Escreveu um testamento, mas não teve tempo de pontuá-lo:

‘‘Deixo meus bens à minha irmã não a meu sobrinho jamais será paga a conta do alfaiate nada aos pobres”.

Até hoje os herdeiros brigam na Justiça, cada um dando uma pontuação diferente ao texto.

O sobrinho:

Deixo meus bens à minha irmã? Não, a meu sobrinho. Jamais será paga a conta do alfaiate. Nada aos pobres”.

A irmã:

Deixo meus bens à minha irmã, não a meu sobrinho. Jamais será paga a conta do alfaiate. Nada aos pobres”.

O alfaiate:

Deixo meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho? Jamais! Será paga a conta do alfaiate. Nada aos pobres”.

Os descamisados:

Deixo meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho? Jamais! Será paga a conta do alfaiate? Nada! Aos pobres”.

(Texto adaptado de Dicas da Dad, Correio Braziliense, 28/05/03)
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sábado, 7 de março de 2009

Na ponta da língua



Luci Afonso


Ano novo, língua nova: a reforma ortográfica da língua portuguesa fez sua estreia em 1º de janeiro deste ano. Tem gente que apoia a iniciativa porque facilitará a expressão das ideias. Outros creem que só veio complicar.

Muita coisa caiu com a reforma, mas quem está preocupado com as mudanças pode ficar tranquilo: a antiga ortografia vale até 2013, bem ao jeitinho brasileiro. Até lá, está tudo em cima.

O que mudou?

O trema, por exemplo, sucumbiu aos frequentes ataques sofridos ao longo de décadas. Espera-se que a extinção do inofensivo sinal apazigue os ânimos dos seus arqui-inimigos.

Na sequência, algumas palavras perderam o acento. Agora, a gente para o carro no aeroporto, pega o avião para Bocaiuva — se houver —, come uma saborosa pera durante o voo e desembarca sem enjoo. E tudo para ir a uma assembleia!

A única má notícia, que todos já esperavam, é que o famigerado hífen continua mudando de endereço, sem explicação. Tudo bem que ele não seja mais necessário ao mandachuva ou ao paraquedista, mas para que intrometer-se num micro-ondas ou num micro-ônibus, separando letras irmãs? Só para manter a fama de mal-humorado?

Por último, e menos importante, as letras k, w e y, usadas extraoficialmente desde o descobrimento do Brasil, foram reincorporadas ao nosso alfabeto. Para inglês ver.

Não há motivos para temer a reforma ortográfica. Ela é controvertida, mas quem não é? Ela não é supercomplicada nem hiperconfusa, como andam dizendo, e sim complexa e abrangente. Quanto às exceções, toda reforma que se preza tem centenas, e esta apenas segue a regra.

Não trema. A reforma está na ponta da língua. Não há contraindicações, mas existe grande possibilidade de causar erros “co-laterais”.
(Imagens gentilmente cedidas pelos donos das respectivas línguas.)

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O batismo do livro



Braulio Tavares

Ao nomear uma obra, além da relação entre título e conteúdo, deve-se ter em mente a clareza do nome escolhido, para não decepcionar o leitor.

Dar título a um livro é como dar nome a uma pessoa, com a diferença de que os nomes são geralmente escolhidos dentro de um repertório já existente. Mesmo com a tendência brasileira para inventar nomes exóticos (Wandergleyson, Carlúcia, Keirrison ou Francicleide, por exemplo), a maioria dos nomes vem desse "dicionário coletivo". Já o nome de um livro tem que ser inventado pelo autor e precisa necessariamente refletir o conteúdo da obra, intensificando-o, comentando-o ou fazendo uma alusão. O filósofo Jacques Derrida já disse que "um título é sempre uma promessa", e eu completaria observando que muitas vezes o leitor nem sabe direito o que lhe prometem, mas está disposto a pagar para ver.

Ao intitular um livro, o autor é um pouco como um publicitário. Ele sabe que precisa dar ao editor, ao livreiro e ao leitor uma ideia clara do que é a obra para evitar mal-entendidos. Por outro lado, ele obedece também a um impulso que lhe diz para ser diferente, inesperado, a fim de que seu título não seja demasiado feijão-com-arroz e passe a imagem de autor pouco criativo.

Objetividade

Livros objetivos precisam ter títulos objetivos. Se, por exemplo, vemos numa lista livros intitulados Manual Prático de Carpintaria, História da Revolução Francesa, Dicionário de Artes Gráficas, entre outros, confiamos na provável fidelidade do conteúdo ao título do livro. A situação se complica um pouco quando obras puramente literárias imitam esses títulos, como fizeram o escritor Jorge Luís Borges na sua História Universal da Infâmia, Richard Brautigan em A Pesca da Truta na América, que são obras de ficção, ou então o brasileiro Manoel de Barros com seus livros de poesia intitulados Compêndio para Uso dos Pássaros ou Gramática Expositiva do Chão.

Autoexplicativos

Antigamente, os títulos eram muito mais longos e explícitos do que hoje. O primeiro livro impresso no Brasil intitulava-se (na grafia da época) Relação da Entrada que fez o Excelentíssimo, e Reverendíssimo Senhor D. Fr. Antonio do Desterro Malheyro, Bispo do Rio de Janeiro, em o primeiro dia deste presente Anno de 1747, havendo sido seis Annos Bispo do Reyno de Angola, donde por nomiação de sua Magestade, e Bulla Pontificia, foy promovido para esta Diocesi. É um desses títulos que quase tornam supérflua a leitura da obra.

Intertextualidade

Fazer do título uma citação ou alusão é uma solução clássica. Campos de Carvalho intitulou seu romance Vaca de Nariz Sutil a partir de uma tela homônima de Jean Dubuffet. Por Quem os Sinos Dobram, de Hemingway, é citação de um poema de John Donne. Os Frutos Dourados do Sol, de Ray Bradbury, vem de um poema de W. B. Yeats. Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos, de Rubem Fonseca, é uma frase de Sigmund Freud. Títulos assim indicam afinidade entre duas obras ou estados de espírito, uma pista plantada ali pelo autor.

Padrões de experiência

A literatura de gênero promete a repetição de uma experiência estética com um mínimo de variação e baseada na familiaridade. Os livros de Edward S. Aarons sobre Sam Durell, um agente da CIA, têm todos este formato de título: Missão Budapeste, Missão Stella Marni etc. As obras de Erle Stanley Gardner também obedecem a um mesmo padrão de títulos (O Caso da Lata Vazia e O Caso da Morena Emprestada, por exemplo) garantindo ao leitor "um pouco mais daquilo mesmo", que é justamente o que ele procura.

Ponto de partida

Muitos autores começam um livro pelo título. José Saramago ia passando na rua e julgou ter visto uma manchete de jornal dizendo O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Voltou, conferiu: não era. As palavras eram parecidas, mas eram outras, porém isso não impediu que o título ficasse martelando na sua memória e se tornasse o grão inicial de um livro notável.

Na última hora

A trilogia O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo, iria se chamar O Vento e o Tempo, e só na hora de ir para a gráfica o autor fez a mudança final. O mesmo ocorreu com Vidas Secas, de Graciliano Ramos, que em estágios sucessivos de sua preparação esteve para se chamar O Mundo Cheio de Penas. Na última hora, a sabedoria instintiva do autor falou mais alto.

Títulos “casuais”

A literatura tem valorizado títulos em frases longas, que parecem estar ali por acaso: Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios, de Marçal Aquino, Agora Fiquem Esperando pelo Ano Passado, de Philip K. Dick, A Partir de Amanhã eu Juro que a Vida vai ser Agora, de Gregório Duvivier, E do Meio do Mundo Prostituto só Amores Guardei ao meu Charuto, de Rubem Fonseca.

Sutilezas

Alguns títulos chamam a atenção porque destoam dos usos do gênero a que pertencem. Estamos acostumados a ver coletâneas de poemas intituladas Espumas Flutuantes, Estrela da Manhã, A Rosa do Povo etc. Quando Aníbal Augusto Gama intitulou sua coletânea de poemas Cinqüenta anos falando sozinho, deu-lhe um cunho inesperadamente pessoal, reflexivo.

Esquisitices

Um título muito esquisito pode ser um sinal de que o conteúdo é mais esquisito ainda. Se o leitor frequenta sebos, procure as seguintes raridades, e veja se não tenho razão: Os Morcegos Estão Comendo os Mamãos Maduros, de Gramiro de Matos, Uma Vitória Dentro de uma Derrota que Não Tive: esta Derrota foi a Vitória do meu Livro, de José Américo II.

Valor agregado

Muitas vezes uma única palavra, nova e desconhecida, basta para produzir um título cheio de alusões e mistério. Neuromancer, de William Gibson; Avalovara, de Osman Lins; Sagarana, de Guimarães Rosa. Títulos assim têm a vantagem de fazer com que essa palavra emblemática fique para sempre associada ao autor que a inventou ou lhe deu visibilidade.


Braulio Tavares é autor de Contando Histórias em Versos (Editora 34, 2005)

(Texto extraído da Revista Língua Portuguesa nº 40, fevereiro de 2009
www.revistalingua.com.br)
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Aetnãço, Rvesior


De aorcdo com uma pqsieusa de uma uinrvesriddae ignlsea, não ipomtra em qaul odrem as lrteas de uma plravaa etãso, a úncia csioa iprotmatne é que a piremria e útmlia lrteas etejasm no lgaur crteo. O rseto pdoe ser uma ttaol bçguana que vcoê pdoe anida ler sem pobrlmea. Itso é poqrue nós não lmeos cdaa lrtea isladoa, mas a plravaa cmoo um tdoo.


(Dicas da Dad, Correio Braziliense, 17/09/03)
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Li e Amei (2007~2008)

MOREIRA SANTOS, WALTHER. "O Ciclista". Romance. Autêntica Editora Ltda, 2008. 1º PRÊMIO JOSÉ MINDLIN DE LITERATURA. (www.autenticaeditora.com.br) (htpp//walthermoreirasantos.blogspot.com)
COLASANTI, MARINA. "A Morada do Ser". Editora Record, 2004. Contos.
AMARO, ANDRÉ. "Teatro Caleidoscópio: o teatro por-fazer". 2007. Teatro, história e crítica.
MACHADO, ANA MARIA. "Texturas: sobre leituras e escritos". Editora Nova Fronteira, 2001. Ensaios.
CHIODETTO, EDER. "O Lugar do Escritor". Cosac & Naify Editora, 2002. Fotos de escritores brasileiros.
SABINO, FERNANDO. "O Bom Ladrão". Editora Ática, 2008. Novela.
TEZZA, CRISTOVÃO. "O filho eterno". Editora Record, 2007. Romance. **VENCEDOR DO PRÊMIO JABUTI 2008, NA CATEGORIA ROMANCE.
TELLES, LYGIA FAGUNDES. "Conspiração de Nuvens". Editora Rocco, 2007. Crônicas.
MARIA CILENE. "De amor e traição". Thesaurus Editora, 2000. Crônicas.
BONFIM, JOÃO BOSCO BEZERRA. "Pirenópolis pedras janelas quintais". Fotografias de Silvio Zamboni. Plano Editora, 2002. Poesia.
PIÑON, NÉLIDA. "A casa da paixão". Editora Record, 2006. Romance.
SANT'ANNA, AFFONSO ROMANO DE. "A mulher madura". Rocco Editora, 1987. Crônicas.
MENDES CAMPOS, PAULO. "Quatro histórias de ladrão e mais 26 histórias". Ediouro, 2002. Contos.
PRADO, ADÉLIA. "Quero minha mãe". Editora Record, 2005. Novela.
CARPINEJAR, FABRÍCIO. "O amor esquece de começar". Bertrand Brasil, 2006. Crônicas.
CYNTRÃO, SYLVIA. "O quarto e o ato". Esquina da Palavra Editora, 2007. Poesia.
VIEIRA, ALICE. "Dois corpos tombando na água". Editorial Caminho, 2007. Poesia. Prêmio Literário Maria Amália Vaz de Carvalho, 2007.
VIEIRA, ALICE. "Os olhos de Ana Marta". Edições SM, 2005. Literatura infanto-juvenil.
RUFFATO, LUIZ. "Eles eram muitos cavalos". Boitempo Editorial, 2005. 3ª edição. Romance.
RODRIGUES, ALEXANDRA. "Minha avó botou um ovo". Thesaurus Editora, 2007. Crônicas.
VILELA, LUIZ. "Bóris e Dóris". Editora Record, 2006. Novela.
CAZARRÉ, LOURENÇO. "A arte excêntrica dos goleiros". LGE Editora, 2004. Contos.
FERREIRA DOS SANTOS, JOAQUIM. "Um homem chamado Maria". Editora Objetiva, 2006. Biografia.
ABREU, CAIO FERNANDO. "Pequenas Epifanias". Agir Editora, 2006. Crônicas.
SCLIAR, MOACYR. "A mulher que escreveu a Bíblia". Companhia das Letras, 2005. Romance.
VÁRIOS AUTORES. "Boa Companhia". Companhia das Letras, 2005. Crônicas. Organização, introdução e notas: Humberto Werneck.
ALVES, RUBENS. "Um céu numa flor silvestre — A beleza em todas as coisas". Verus Editora, 2005. Crônicas.
CACÁ, Carlos Augusto. "Fadas Guerreiras". LGE Editora, 2003. Poesia.
TELLES, LYGIA FAGUNDES. "Meus contos preferidos". Editora Rocco, 2004. Contos.
COLASANTI, MARINA. "Fragatas para Terras Distantes". Editora Record, 2004. Ensaios sobre livros e leitura.
MELO, Maria Raquel. "A Casa dos Sonhos". 2004. Contos.
MARINHO, ISOLDA. "Sementes de Amora". Kelps Editora, 2004. Poesia.
LUFT, LYA. "Mar de dentro". Editora Record, 2004. Memórias.
PELLEGRINO, HÉLIO. “Lucidez Embriagada”. Editora Planeta, 2004. Cartas, ensaios, apontamentos. Organização de Antônia Pellegrino, neta do autor.
LISPECTOR, CLARICE. "Correspondências". Editora Rocco, 2002. Cartas. Organização de Teresa Montero.
MACHADO DE ASSIS. "Correspondência". Editora Globo, 1997. Cartas.
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© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira