terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Cachorro-do-mato



Luci Afonso


Muitas coisas podem acontecer a partir de um nome, diz “A Mocinha no Mercado Central”, de Stella Maris Rezende. Tem nomes que inspiram, tem outros que amedrontam.
Cachorro do Mato, por exemplo. Logo pela manhã, ao abrir o correio eletrônico, vejo que ele deixou novo comentário no meu blog. Antes de ler, fico pensando: o que esperar de alguém que escolheu um nome tão agressivo, ao invés de milhões de outros agradáveis, gentis, convidativos?
Define o Aurélio:
cachorro1
(ô) [Do lat. vulg. *cattulu < lat. catulu, ‘cão pequeno’.]
Substantivo masculino.
1. Cão novo e pequeno.
2. Qualquer cão.
3. Cria de lobo, hiena, onça, leão, etc.
4. Indivíduo indigno; canalha, cafajeste.
5. Menino travesso, turbulento, levado; cachorrão.
Cachorro espritado. Bras. N.E. Pop. Cão hidrófobo.
Soltar os cachorros. Mostrar-se hostil, agressivo.
            Soltar os cachorros em cima de. Bras. Pop. 1. Insultar, apostrofar:”

cachorro-do-mato
Substantivo masculino.
1. Bras. Zool. Mamífero carnívoro, canídeo (Dusicyon thous), com três subespécies brasileiras. De coloração pardo-cinzenta, tem o dorso, cauda, focinho e garganta negros. Mede 70cm de comprimento e 30cm de cauda, e alimenta-se de pequenos mamíferos, aves, frutos, e até de insetos, sobretudo coleópteros. [Sin. aguaraxaim, graxaim, guaraxaim. Pl.: cachorros-do-mato.]”

mato
[De mata1.]
Substantivo masculino.
1. Terreno inculto onde medram plantas agrestes; brenha, charneca, mata.
3. Bras. O campo (por oposição à cidade); a roça.”
           
 Entre os vários adjetivos, pesquiso “hostil” no Houaiss: ameaçador, afrontoso, agressivo, descortês, desrespeitador, grosseiro, insultuoso, ultrajante, antipático... A lista é enorme, assim como a possível combinação entre os substantivos e adjetivos de ambos os dicionários.
Bem, estou pronta. Abro o comentário e lá está: “Coversa fiada”, a respeito de uma crônica sobre o primeiro gato que adotei para meu filho e como isso mudou nossa vida. É um relato sincero, mas que não escapou aos dentes de Cachorro do Mato. Até sinto pena do meu crítico feroz: não sabe a delícia que é ter um gato, desconhece a ortografia da língua portuguesa, não se atualizou no uso do hífen após a reforma ortográfica e, acima de tudo, tem um nome horrendo que é o seu focinho.
Cachorro do Mato, saia do mato, escolha um nome de gente e faça por merecê-lo.

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domingo, 24 de fevereiro de 2013

Pandeiro de Ouro


 
Luci Afonso

 

Os gemidos no quarto de hóspedes culminaram no grito que acordou todos no apartamento, exceto a mãe surda. As luzes se acenderam no prédio. O porteiro da madrugada interfonou, perguntando se devia chamar a polícia ou os bombeiros.

— Não precisa, Sr. Laurentino. Foi só um susto.

Tia Loíde repreendeu o companheiro:

— Que escândalo é esse, Geraldo?

— Nooooooossa, cê me assustou.

— Eu tive que te acordar. Você não parava de gemer.

— Tive um pesadelo horrível.

— Com o quê?

— Cê sabe que eu num lembro? Só sei que era horrível.

— Então volta a dormir, Geraldo, mas fica quieto.

— Cadê meu pandeiro?

— Está bem do seu lado.

Loíde e Geraldo vieram de Minas para o lançamento do meu livro. Visitaram o Congresso, a Catedral e o Palácio do Planalto, onde tiraram fotos com a Guarda de Honra. Depois de almoçar no Setor Comercial, foram até a Feira do Paraguai, procurar o perfume raríssimo que Geraldo usava. Deram sorte: acharam o último vidro de Lancaster na banca de uma velhinha coreana.

— Quando ele cansa muito, ele tem pesadelo — explicou minha tia na manhã seguinte.

— Cê me assustou, uai.

— Ninguém dorme com aquela gemeção, Geraldo.

— Cadê meu pandeiro?

— Está ali na cadeira, não está vendo?

— Minha vista tá meio borrocada, bem.

—Você pingou o remédio?

— Ih, esqueci!

— Traz lá que eu pingo.

Vinte anos mais nova, Loíde cuidava de Geraldo como de um pai. Distraído, ele se perdia até em casa, confundindo a porta do banheiro com a da sala, por exemplo. Além disso, só enxergava do olho esquerdo e tinha a memória fraca.

Geraldo não se separava do pandeiro. Tocara numa banda durante muitos anos, no Grande Hotel do Barreiro, onde era conhecido como Pandeiro de Ouro. Aposentado, aceitava qualquer convite. Eu o chamara para acompanhar meu amigo Nestor ao violão, na noite de autógrafos. Ele planejava conhecer o pessoal do Clube do Choro, mas descobrimos que estava fechado devido às férias.

Terminado o café da manhã, sentamos no sofá para ouvir as novidades de Araxá, isto é, quem tinha casado, morrido ou separado.

— Geraldo, qual é o nome daquela senhora do mercadinho?

— Do mercadinho? Cê sabe que eu num sei, Loíde?

— Dona... Beatriz. Ela teve um infarto.

— Noooooossa! Morreu?

— Não, está em coma.

— Coitada, sô! Tão nova...

— Nova? Noventa e cinco anos é nova, Geraldo?

— Noventa e cinco? Nooooooossa!

— E o marido tem 41.

— Quarenta e um? Noooooooossa!

— Você não sabe de nada, Geraldo!

— Você ainda cuida do seu neto? — perguntei, mudando o rumo da conversa.

— Cuido! Dá gosto de ver: ele tá grande, bonito, inteligente. Só que às vezes ele acorda imbizorrado e não quer ir para a escola de a pé.

— Imbizorrado por quê, Geraldo? – interrompeu Loíde.

— Cada hora é uma coisa, sô. Essa semana foi o jogo que estragou.

— Por que você não manda consertar?

— Pitimbado desse jeito? Cê tá é doida. Ele vai é assistir TV.

— Coitado, Geraldo!

— Coitado? No meu tempo nem isso tinha. Ele tá é pegando o boi.

A empregada apareceu na porta da cozinha, avisando que a comida estava pronta.

Após o almoço, Loíde sugeriu:

— Vai descansar um pouco, Geraldo.

— Mas eu não tô cansado, Loíde.

— Vai logo! Senão você fica uma plasta mais tarde.

— Já vou, bem! Cadê meu pandeiro?

— Está na sua mão, Geraldo.

A noite de autógrafos foi um sucesso, animada pelo violão de Nestor e pelo pandeiro de Geraldo. Fomos dormir bem tarde, sem pesadelos.
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domingo, 17 de fevereiro de 2013

A diarista oportunista



Luci Afonso


— Gerusa?
— Não, não é a Gerusa.
— Ela está?
— Este telefone não é mais da Gerusa.
— É 5566-7788?
— Esse é o meu telefone.
— Não é da Gerusa?
— Não. Aqui não tem nenhuma Gerusa.
— Você tem o novo número?
— Não, eu não conheço a Gerusa.
— Desculpe, foi engano.
Liguei novamente. Poderia mesmo ter me enganado.  A mesma voz atendeu. Antes que a mulher me xingasse, desliguei rápido.
Gerusa havia sido muito bem recomendada. A melhor diarista de Brasília, disseram. Agenda lotada o ano inteiro, encaixe só com bastante antecedência. O problema era encontrá-la.
Eu precisava urgente de alguém para limpar a casa, lavar a roupa e cozinhar, pelo menos duas vezes por semana. Num momento de raiva, eu despedira Ceiça por desacato. — Vai pegar mais gato? — ela resmungou quando anunciei que adotaria Hanna, uma fofurinha branca presente de uma amiga. A empregada já implicava com o Patinha, que ela acusava de encher a casa de pelos, e não escondia a ojeriza por animais domésticos em geral.
— Diarista é ilusão — disse tia Afonsina, na visita de domingo. — Além de muito caras, são umas porcas.
Meu filho começava a protestar:
— Comida congelada, de novo?
— Eventualmente... hã... vamos ter outra empregada?
— Por que você não aprendeu a cozinhar?
Já estava sem forças nem respostas quando bateram à porta.
— Dona Lúci, meu nome é Solange, eu soube que a senhora está precisando de diarista...
A moça trabalhava no prédio e fora indicada pelo porteiro. Em curta entrevista, fiquei sabendo que deixara o emprego anterior porque era obrigada a lavar toda a roupa na mão (A senhora vê que absurdo, Dona Lúci?). Fiz a pergunta decisiva:
— Você gosta de gatos? — Hanna acompanhava a conversa, espichada no tapete da sala.
— Adoro! — ela respondeu, olhando a gatinha, embevecida. — Eu até tenho um!
— É mesmo? Qual é o nome dele?
— ...Xaninho.
Solange usava uma touca branca com o nome bordado em azul. Depois que fizera o curso de gastronomia no SENAC, se acreditava exímia chef de cuisine. Sua comida não era ruim. O problema é que estava sempre um pouco queimada (Suas panelas não são boas, Dona Lúci). Era extremamente desorganizada. A cozinha lembrava um cenário de guerra enquanto ela fazia o almoço — os vegetais jaziam decepados sobre a pia, a louça suja se acumulava como montanhas de detritos num prédio bombardeado. Além disso, fazia uma faxina apenas razoável e jamais conseguia terminar o serviço.
Também era espaçosa. No primeiro dia, na minha ausência, pegou o aparelho de som do meu quarto e o levou para a área de serviço, pois gostava de ouvir rádio enquanto passava roupa. Ao longo da semana, observei que a gaveta das calcinhas estava mexida e que os sapatos estavam ligeiramente fora de lugar, como se alguém os tivesse experimentado.
Eu ia levando até que aparecesse outra, porém Solange cometeu um erro fatal na sexta-feira da segunda semana. Enquanto palitava os dentes após o almoço, ela casualmente perguntou:
— A senhora tem contador?
— Como?
— Contador. Eu preciso de uma declaração de renda.
Acendeu o sinal vermelho. Sou totalmente a favor dos direitos das empregadas domésticas. Acho justo que recebam os mesmos benefícios dos outros trabalhadores. Sempre as pago em dia, dou horário reduzido e concordo que faltem se necessário, sem descontar no salário. Mas uma diarista que trabalhava para mim há quinze dias falar em declaração de renda me pareceu levemente ameaçador. A Ceiça, que estava comigo há dez anos, jamais pedira tal coisa.
Despedi Solange no mesmo dia, por telefone, como certo presidente da república fazia com seus ministros. Ela aparentemente se considerava efetivada, pois gritou:
— A senhora é uma tratante, Dona Lúci! ... E fique sabendo que eu não tenho, nunca tive, nunca terei e odeio gatos! — e desligou, antes que eu pudesse responder.
Liguei para Ceiça. Ela concordou em voltar com o dobro do salário, junto com os novos benefícios previstos em lei. Prometeu tratar bem Hanna, mas não pode vir de imediato: está no Maranhão, cuidando da mãe doente. Enquanto enrolo meu filho com comida congelada e fast food, vou tentando alguns números rabiscados na agenda:
— Gerusa?
— Aqui não...



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domingo, 10 de fevereiro de 2013

Janeiro



Luci Afonso

Então, vamos recomeçar:
Observar o desenho que o sol da manhã fará na parede da sala. Pendurar o quadro novo. Comprar uniforme. Pedir ração. Chamar a  empregada.
Esvaziar o armário da garagem. O do quarto. O da cozinha. Descartar alimentos vencidos. Despedir-se de roupas velhas. Aproveitar os pijamas.
Espalhar guardiões. Limpar a estante branca. Mandar o livro para o exterior. Recebê-lo de volta em outra língua.
Aprender adjetivos novos; substantivos incomuns; advérbios desconhecidos.
Conjugar verbos raros. Ousar vírgulas, opcionais. (Abusar de parênteses.)
Velar o sono da mãe. Cobri-la, se estiver frio. Passar a mão devagar no cabelo cinza. Amaldiçoar. Pedir perdão. Agradecer.
Dormir sem homem. Acordar sem pai. Sonhar com o primeiro amor. Lembrar do último.
Flanar sob as árvores. Pairar sobre a dor. Beber a chuva.
Terminar esta crônica. Começar a próxima.
Esperar fevereiro.
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domingo, 3 de fevereiro de 2013

Oração de uma recém-aposentada




Luci Afonso





Senhor, dai-me forças para não passar o dia de pijama. Insuflai-me ânimo para tomar banho, mesmo que não seja imprescindível. Ajudai-me a cuidar das unhas. Incentivai-me a pintar o cabelo. Lembrai-me de escovar os dentes.


Adverti-me de olhar no espelho antes de sair. Esclarecei-me por que não devo usar as roupas de casa na rua. Incentivai-me a passá-las a ferro. Repreendei-me quando eu não trocá-las diariamente.


Protegei-me das horas sem fim no Facebook. Negai-me a opção “curtir”. Abrigai-me do recurso às compras on-line. Fazei com que eu vá a pé ao supermercado. 

Meu Deus, dai-me paciência quando perguntarem pela centésima vez “O que você vai fazer?”, ao saberem que me aposentei. Não me deixai sucumbir à tentação de dormir tanto quanto os gatos e em todos os lugares. Martelai na minha cabeça a importância da atividade física. Empurrai meus pés ao primeiro passo.

Impedi-me de brigar com a empregada. Escondei da minha vista os cantos cheios de poeira. Afastai dos meus ouvidos os resmungos constantes.

Instruí amigos e parentes quanto à diferença entre aposentado e desocupado. Auxiliai-me a relaxar sem culpa após trinta e cinco anos de trabalho pesado. Desapegai-me do horário comercial e dos dias úteis. Libertai-me do relógio.

Não permiti que eu engorde como a vizinha do 409. Impedi-me de saborear banana frita com queijo e açúcar mais de uma vez por semana. Preveni-me sobre o hábito de comer dois pães quentes com manteiga toda manhã.

Abençoai os que estão longe de se aposentar. Os que têm medo de fazê-lo. Os que se arriscaram, mas agora buscam desesperados a reversão da aposentadoria.

Pai Eterno, obrigada pela folga. Livrai-me da preguiça e perdoai meus pecados, assim na ativa como na inatividade.

Amém.



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© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira