Postagens

Mostrando postagens com o rótulo Crônicas Luci Afonso

Doce invasão

Imagem
  Luci Afonso   O dia começa, é preciso viver. A lua ainda não se recolheu. O sol acorda aos poucos, como uma criança, e provoca no muro ocre um espetáculo de luz.   Só dura um instante. Os jovens ainda dormem o sono ingênuo.   A casa está em silêncio, exceto pelos gatos, que miam para sair. Eles se acostumaram com o espaço e a liberdade, e agora os exigem assim que amanhece. Saio ao jardim, meu primeiro alimento diário. Nasceram quatro acerolas, uma delas já caída na gram. Apareceram rosas amarelas em meio às vermelhas. Não me lembrava de tê-las plantado ali. O pé de manacá branco-lilás se encheu de flores. Os amores-perfeitos estão abraçadinhos. As sementes de alamanda não vingaram. Precisarei pedir outras ao vizinho da esquina. Nasceu mais uma flor-de-cera. O painel de treliça está cheio delas. Parecem minúsculos doces de aniz tingido cor-de-rosa, capturando o olhar e insinuando o toque. A aparente delicadeza esconde uma vontade férrea. Agarra-se com for...

Está tudo aqui

Imagem
  Luci Afonso     Está tudo aqui: a grama macia, o ipê-rosa, o céu puro azul, a nuvem de algodão, o canto da cigarra. Então, penso em você. Quando te vi a primeira vez, reparei nos seus sapatos. Nunca tinha visto tão feios. Depois vi o lugar exato onde você começaria a perder o cabelo. Calvície precoce , pensei. Continuei te examinando enquanto você falava. Os olhos de amêndoa o faziam parecer meio japonês, e a pele morena jambo (inventei essa cor para sua pele) era um sinal de que você vinha de outra região. A boca bem desenhada guardava um sorriso confiante. A voz era grave, aveludada, e os óculos, redondinhos como os de John Lennon. Um quebradinho no dente lhe dava um ar desprotegido. A risada solta balançava todo o seu corpo e quase te levava às lágrimas. As nuvens agora formam um elefante. Uma flor do ipê-rosa cai no meu rosto; dizem que é uma bênção da natureza. A cigarra dá uma pausa no canto. Você mentiu sua idade, para parecer mais velho — nem tinha v...

Ninguém me amou como você

Imagem
  Luci Afonso   A casa amanheceu em meio à névoa densa e fria, que umedecia até a alma. Ela acordou mais tarde, serviu o chá, procurou o álbum de fotografias antigas e começou a folheá-lo, encolhendo-se debaixo do cobertor. Fotografias preto e branco explicavam o presente e anteviam o futuro. Pedaços de alegria saltavam das imagens, enquanto pedaços de tristeza as amarelavam com crueldade. Viu-se aos vinte anos, esbelta, cabelo longo, sorriso solto, envolta no abraço dele: aconchegante, seguro. O abraço dele: refúgio, jardim, nascer do sol. Lembrou-se amada. O amor dele tinha o toque da seda, o calor de uma coberta numa noite de chuva. Estava tão certa desse amor que o retribuía com um afeto sem dor. Tanto que não sofreu na separação. Ou pensava não ter sofrido. Agora sentia vontade de dizer: Ninguém me amou como você . Mas estavam distantes no tempo e no espaço. Sonhara com ele. Faziam amor num quarto de hotel. No momento do gozo, ele a inundou  com o fluido pu...

Árvore

Imagem
  Luci Afonso   Não sei o seu nome, árvore, mas te amo desde que joguei a semente à terra e esperei que brotasse. Enquanto lhe dava água, eu também saciava a minha sede. Tão pequena e tão generosa! A sombra miúda já abriga uma criança. Suas folhas demoraram a aparecer. Você foi a última a ter folhas verdes no tronco seco e aparentemente morto. Quiseram te arrancar do jardim, eu não deixei.   Reguei-a duas vezes por dia, pedindo em silêncio que você nascesse. Até que despontaram suas folhas. No dia seguinte, estavam maiores, e continuaram crescendo até que você se tornou a árvore mais alta do jardim. Ainda não sei seu nome, mas converso com você de manhãzinha, enquanto o sol nasce e as pessoas despertam. Você é a minha nova razão de viver.                                                        ...

Uma casa para Luci

Imagem
  Luci Afonso   Descubro aos poucos os segredos da nova casa. É de madeira, com paredes amarelo-queimado e enormes janelas de vidro. No gramado da frente, plantei ipês-amarelos, e, atrás, há uma jabuticabeira e um pé de romã bem altos. Reservo a charmosa suíte externa para o ateliê. Quando o dia clareia, me levanto e abro as cortinas para o sol. Como fazia na infância, numa camisolinha de algodão florido e renda, penso: Aqui serei feliz . Ao longo da vida, sonhei muitas vezes com esta casa, com gramado, árvores, flores, sol, sombra. Logo escolho meus recantos favoritos e neles passo grande parte do dia. Moro com três jovens e três gatos. Nunca estou sozinha. Ao longo do dia, nos espalhamos, gente e gatos, pelos quatro cantos da nossa vivenda. De manhã, sento-me ao sol para fazer colares coloridos, que depois penduro nas árvores. É uma saudação à nova morada e uma celebração do longo caminho que percorri até aqui. No final da tarde, mato a sede das plantas e a minha, ...

Amor encontrado

Imagem
  Luci Afonso   Tenho escrito tanto sobre o amor perdido que esqueço de falar do amor encontrado. O pé de camélia me oferece uma flor todo dia. Eu a recolho da grama e a coloco em oferenda ao Buda na entrada da casa. Os pés de jabuticaba e de romã estão cheios de brotos.   Eu os visito pela manhã e à noitinha. A bela jovem me tira para dançar no baile de carnaval. A pureza do gesto me comove. A adolescente me abraça e alisa meu cabelo. Como minha avó fazia. As crianças, os velhos e os gatos me ensinam a viver. Eu aprendo. A mãe planta ipês e damas-da-noite no jardim. Eu os vejo brotar e crescer, como tenho feito em sessenta anos de vida. O vento sacode meus colares pendurados nas árvores. O reflexo das miçangas enfeita as paredes. O sol atravessa as lantejoulas e ilumina o quintal. A dança das luzes me energiza. A água refresca as plantas. Sacio minha sede junto com elas. A lua cheia promete momentos felizes.   Há muito tempo não observamos ...

Quase nada

Imagem
Luci Afonso Quase nada resta de você. Há outro corpo quente embaixo do cobertor. Fiz uma playlist das músicas que te mandaria se ainda te amasse. Seu rosto raramente aparece em meus sonhos. Braços fortes me conduzem na dança que nunca encenamos. Como ela é? Te dá o mesmo prazer? Te espia com olhos de infância? Fala durante o sono?   Como ela é? Espera você acordar para começar o dia? Adora café na cama? Sem ela não amanhece? Quase nada restava de mim. Deixei aí meus desejos mais sinceros. A aliança de noiva, o altar à beira do lago. O resgate do afeto perdido, o laço indissolúvel. A paz final. Quase tudo nos separa. Sua voz está cada vez mais longe. Sua pele se esvai aos poucos na névoa que encobre sua lembrança. Minhas palavras estão de luto. Quando ele passar, vestirei as palavras brancas da saudade. Quase tudo restará de mim. Janeiro 2020 (Foto: Diego Feitosa)

Deusa do Amor

Imagem
Luci Afonso Este é um antigo ritual em homenagem à Deusa do Amor, e que só tem efeito se praticado à luz da lua, numa mata virgem cercada por água pura. É preciso antes harmonizar corpo, mente e alma. São necessárias, pelo menos, três mulheres apaixonadas para que a magia se complete — outras são bem-vindas. Podem estar presentes um ou mais homens, desde que tenham uma vital compreensão do feminino.   A fase da lua deve ser escolhida de acordo com o que se deseja: a lua crescente faz expandir o amor, enquanto a minguante o enfraquece (caso se queira esquecer alguém). A lua nova traz outro amor, enquanto a cheia leva à plenitude o que já existe. Recomenda-se muito cuidado ao fazer o pedido. Se uma palavra for trocada, é possível perder o amor que se quer fortalecer, ou encontrar um novo mesmo que o atual pareça satisfatório. A plenitude só é alcançada gradualmente, se for merecida.   Feche os olhos e repita três vezes, mentalmente: “ Deusa do amor , Conceda-...

Gatos e flores

Imagem
Luci Afonso Meu novo apartamento é pequeno. Pequeno, não, minúsculo. Fica no primeiro andar, onde se ouve todo o barulho da rua. Motoqueiros entregando comida, carros acelerando, gente conversando na calçada. Mas aos poucos eu aprendo a gostar dele. O vizinho da casa em frente mandou pintar o novo portão de branco. A senhora que mora ao meu lado tem um pequeno jardim na marquise. Ouço quando ela abre a janela, duas ou três vezes ao dia. Em alguma casa subindo a quadra, alguém estuda flauta. O sino da Igreja toca ao meio-dia. Um gato amarelo passa em frente à janela. Comprei flores amarelas para enfeitar a sala. Depois de secas, eu as coloco na minha sala de escrever e acendo um incenso, enquanto medito. O poste lança a luz amarela nos quartos. Se eu abrir a persiana, a luz faz listras na parede. Preciso de pouco espaço para viver — que seja pelo menos do tamanho de um útero.                  (Imagem: Pintura espontânea d...

Querida estranha

Imagem
Luci Afonso De repente me deparo com essa querida estranha dentro de mim. Onde foi que ela andou? De repente me surpreendo no espelho com a pele enrugada. Como foi que envelheci? De repente me vejo através de olhos imensos. Quando foi que eles se abriram? Lá fora a seca embeleza o céu azul-abençoado. O pôr do sol se torna arco-íris, a grama tem mil tons de marrom. A mulher que caminha devagar sente a vida rebrotando no peito e não sabe explicar por que hoje acordou sentindo um amor absoluto por ela mesma. O cheiro das coisas a penetrou como nunca, e as várias camadas de pele impregnaram-se dos afagos do mundo. Imagina-se retocada de maquiagem, os dentes muito brancos, o cabelo cinza. Sabe que agora se conhece, se entende e se ama. O vestido para a festa é de cetim vermelho. Tem uma fenda na coxa direita e um decote que mostra parte dos seios ainda firmes. Enfim chegou aos sessenta, inteira e possuída de si mesma. Deixa que os redemoinhos da seca levem seu homem pa...

Eu só sei lutar

Imagem
Luci Afonso Segunda-feira Um pouco para o lado direito. Um pouco para o esquerdo. Esticar a perna. Esticar a outra. Dobrá-las até o peito. Segurar firme. Mover o tronco para um lado e para o outro. Tomar impulso e levantar. Terça-feira Pentear o cabelo com a mão esquerda. Escovar os dentes com ambas as mãos. Olhar longamente no espelho. Se amar. Quarta-feira Coar o café. Fazer torradas do pão amanhecido. Espremer a laranja. Lembrar das proteínas e da lactose. Quinta-feira Chamar o Uber. Ir até o consultório. Mais um. Mais outro. Sexta-feira Tomar os remédios. Ir ao mercado. Acalmar o passo. Andar até em casa. Sábado Almoçar. Descansar. Levantar. Domingo Lutar.                                            (Imagem: Como me vejo hoje, Luci Afonso)

Cuidado, frágeis

Imagem
Luci Afonso Meus livros estão apreensivos. Reuni muitos ao longo dos anos, e agora tenho que me despedir deles por falta de espaço em meu novo apartamento. Eles ficarão guardados na casa de uma irmã, mas sei desde já que nunca voltarão os mesmos. Serão abatidos pelo mofo e pela poeira. Serão lidos por insetos e apreciados por roedores. Percorro as estantes em busca daqueles que me são essenciais. Primeiro, separo os autografados, que não têm preço, especialmente se forem de amigos. A dedicatória do autor é o papel de presente que envolve a obra e a traz para bem perto de mim. Eu os arrumo em ordem afetiva, não importando o tamanho nem a primeira letra do nome. Todos são queridos, alguns são amados. Vou conservar também as obras que ainda não li, mas que comprei porque despertaram em mim um sentimento que ainda não consigo definir, um convite que posso adiar, mas nunca recusar. Esses trazem uma mensagem que espero ter tempo de descobrir. Sei apenas que é poesia adormec...