segunda-feira, 30 de novembro de 2009

O massacre dos quirópteros



Luci Afonso

— Mãe, olha o passarinho preto!
— Quieto, meu amor, já vai começar!
O auditório estava lotado. O diretor dava as boas-vindas ao público e anunciava o primeiro item do programa.

O menino só conseguia prestar atenção no bicho esquisito que surgira de repente do teto. Parecia um passarinho, mas tinha cara feia e asas sem penas. Apareceram mais dois e começaram a sobrevoar o palco.

— Mãe, olha! – Desta vez, ela enxergou as pequenas criaturas, mas não conseguiu identificá-las. — Fique quietinho, meu bem, é parte do cenário, - mentiu. Estava concentrada no recital.

À medida que transcorria a apresentação, outros saíram do telhado e passaram a voar também sobre a platéia. O salão estava muito quente e as portas, fechadas. Algumas pessoas notaram a estranha movimentação, até que um sussurro percorreu o recinto:
— Morcegos!

A partir daí, o público passou a observar os mamíferos voadores. Seu número parecia aumentar a cada salva de palmas. Um casal na última fileira tentou, discretamente, deixar o auditório, mas a porta principal estava trancada — por medida de segurança, o zelador só a abriria às 22 horas, quando terminasse o evento. Ainda eram 20h30min. As portas laterais, por sua vez, estavam obstruídas pelo equipamento de som. O casal voltou ao seu lugar em silêncio.

A esta altura, todos acompanhavam o voo das criaturas, agora mais numerosas. O diretor, ao perceber a apreensão geral, tentou relaxar os presentes:
— Estamos com sorte! Para os chineses, os morcegos trazem muita felicidade. – Como ninguém ali era chinês, não funcionou. Todos estavam visivelmente tensos, e alguns já se levantavam para ir embora, sem saber que ainda não poderiam sair.

Para segurar a plateia, o diretor pulou alguns pontos do programa e anunciou a última atração, o cantor Fred Jr., que executaria algumas músicas da Bossa Nova. Em seguida, passariam ao coquetel. As pessoas voltaram a se sentar, contrariadas.

Fred Jr., muito conhecido na cidade, sofrera recentemente de síndrome do pânico e há muito tempo não se apresentava em público. Hoje seria sua volta ao palco. Não conseguira decorar as letras e ensaiou o tempo todo nos bastidores, sem perceber o que se passava lá fora. Surpreso, foi chamado antes da hora combinada.

Entrou, decidido, e já começava a dedilhar o violão quando notou que algo estava errado. As pessoas olhavam para o alto, nervosas, e pareciam não notar a presença dele. Olhou também e sentiu um arrepio. Tinha medo de tudo que voasse, de mosquito a avião, mas tinha pavor irracional e incontrolável das criaturas horripilantes que agora enchiam a sala.

Respirou fundo e tentou distrair o público e a si mesmo com uma brincadeira:
— Acho que estão promovendo o filme do Batman! – Ninguém riu. Ele começou a cantar, mas a voz saiu fraca e desafinada. Os morcegos se agitaram, e um deles fez vôo rasante na cabeça de Fred Jr. Aterrorizado, ele largou o microfone e saiu correndo para a porta. Muitos o seguiram.

— Está trancada! – avisou o casal que tentara escapar. As mulheres se desesperaram, as crianças começaram a gritar. Os morcegos se inquietaram ainda mais. Os homens fingiram controlar o medo.

Um ambientalista argentino subiu numa cadeira e gritou em portunhol:
— Calma, pessoal, ellos son pacíficos!

Um senhor careca, de óculos minúsculos, pediu a palavra. Além de apreciador de poesia, era biólogo e doutor em quirópteros (nome científico dos morcegos). Para tranqüilizar os presentes, explicou que 90% da ordem Chiroptera eram sementívoros e apenas 10%, hematófagos, ou seja, era mínima a probabilidade de alguém ali ser mordido. Além disso, argumentou, os morcegos vampiros, ou Desmodus rotundus, só atacavam em zonas rurais para se alimentar ou se defender — como, aliás, havia acontecido, há poucos dias, num condomínio do Distrito Federal.

A explicação teve efeito oposto: os homens se juntaram, pegaram a mesa de madeira maciça e tentaram derrubar a porta. Aumentaram os gritos e o choro. O frenesi se instalou entre bichos e humanos. Os celulares foram acionados para chamar a Polícia, o Corpo de Bombeiros e o IBAMA.

O auditório se transformou em campo de batalha. O ambientalista, contrariando seus princípios, abateu com sua pasta alguns morcegos, para defender as damas em perigo. Uma poetisa que sempre se apresentava com um cachecol aproveitou-o para enforcar uns três. As mulheres mais valentes usavam seus chales para capturar e matar os nojentos animais. Os homens recorriam aos paletós. O menino que os vira primeiro pegou um filhotinho e guardou-o para dissecação, um de seus hobbies.

Fred Jr. se escondeu atrás do palco, mas um morcego havia chegado ali antes e estava à espreita — um Desmodus rotundus, o único na sala. O cantor, desesperado ao ver tão próxima a repugnante criatura, tentou atingi-la com o violão, acertando, sem querer, a cabeça do diretor, escondido no mesmo local. Ambos desmaiaram, um, pelo golpe, outro, pelo pavor, e o vampiro pôde se alimentar à vontade.

Todos os quirópteros foram abatidos, exceto o Desmodus, que depois de satisfeito se refugiou novamente no telhado, à espera de nova vítima. A porta foi arrombada, e descobriu-se o zelador em sono profundo no subsolo do prédio. A Polícia e os Bombeiros chegaram e atenderam prontamente aos dois homens inconscientes, que tinham dois grandes furos no pescoço. Eles despertaram, desmaiaram de novo, ao saber que haviam sido mordidos, e receberam dose preventiva de vacina anti-rábica. O IBAMA não foi encontrado.

A sindicância instaurada pelos proprietários do auditório não concluiu de quem foi a culpa pelo incidente. Muitos a atribuíram ao zelador; outros, a Fred Jr., enquanto os estudiosos apontavam causas naturais, como a baixa umidade e o período de acasalamento, o que tornaria os quirópteros mais irritadiços.

Não se chegou a laudo conclusivo, mas o evento ocupou o noticiário nacional por várias semanas e ficou registrado no imaginário brasiliense como o mais aterrorizante sarau literário-musical realizado na Capital da República.
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domingo, 22 de novembro de 2009

As marcas do clichê


Frases e expressões sedimentadas podem facilitar a comunicação, mas não contribuem para a renovação do idioma.

Braulio Tavares

Nos cursos de jornalismo, professores mandam a turma redigir um trabalho qualquer e depois vão anotando os clichês que aparecem: "Ferragens retorcidas... os bravos soldados do fogo... tórrido romance... corpo escultural... posição privilegiada...". São clichês, lugares-comuns, junções de substantivos e adjetivos que um dia, quando foram usadas pela primeiríssima vez, provocaram no leitor um agradável susto-de-novidade. Hoje, após milhões de repetições, são indício de preguiça mental.

Os clichês são invisíveis e onipresentes e só damos pela sua existência quando estamos à sua procura. Basta escrevermos pensando apenas no assunto, e não na linguagem, para que eles desabrochem. Não os vemos porque eles fazem parte da paisagem, como os semáforos e os orelhões. São expressões prontas, "prêt-à-porter", que nos dispensam de pensar.

Exemplo

Por exemplo: usei acima o termo composto "susto-de-novidade", que não pode ser encontrado em nenhum dicionário. É uma expressão rara, mas acho que qualquer pessoa entende. (É também uma expressão metalinguística: a reação que produz em nós é seu próprio significado.) Se eu continuar a usá-la, ela se tornará familiar. Se todo mundo começar a usá-la, daqui a alguns anos será um insuportável clichê.

Há uma anedota sobre o sujeito que foi ver o Hamlet pela primeira vez e queixou-se de que a peça estava cheia de clichês: "Ser ou não ser, eis a questão", "Tem algo de podre no reino da Dinamarca", "O resto é silêncio"... As grandes frases, quando se popularizam, viram lugar-comum. É o perigo de autores como Nelson Rodrigues, cujas expressões extremamente criativas acabaram virando chavões: "Óbvio ululante", "Calçar as sandálias da humildade", "Elas gostam de apanhar", "O olho rútilo e o lábio trêmulo"... São ótimas, mas devemos evitá-las. Deixemos que repousem apenas nas páginas imortais (olha o clichê!) do velho Nelson.

Relatividade

O clichê serve de atalho, quando estamos com preguiça de pensar e queremos chegar logo ao ponto principal. Em vez de passarmos cinco minutos à procura de uma maneira nova de dizer algo, dizemos da maneira que todo mundo já se acostumou a ouvir. Mas parar para pensar neles pode ser um bom exercício nas faculdades: fazer uma lista de clichês e inventar uma nova maneira de dizê-los. Quem os criou não os criou do nada e sim a partir de uma situação, um fato concreto, uma associação de ideias. Este processo pode ser refeito para produzir um resultado novo, desde que você seja um redator de mão-cheia. (Olha o clichê!)

Os estudiosos da poesia oral já observaram que grande parte dessa poesia é feita de clichês que se repetem. São expressões que, metrificadas de acordo com o ritmo usado nos poemas, podem ser transpostas de um poema para outro para novas utilizações. Uma descrição vívida e sonora passa de poema em poema, de personagem em personagem, incorporando-se ao estilo.

Estudiosos do nosso romanceiro popular registram muitas dessas expressões. Um personagem diz:
"Sou conde barão
de espora no pé
e espada na mão".

É uma descrição simples, sonora, com uma imagem visual forte... E pode ser encontrada em numerosos romances em versos. É um clichê - ou melhor, foi um clichê, dentro da cultura em que esses romances eram recitados. Você talvez a esteja encontrando pela primeira vez, e isso mostra que conceitos como clichê, originalidade, novidade e tradição são relativos.

Instrumentais

Existem também os clichês instrumentais. São aquelas expressões que não denotam coisas nem seres, apenas servem de conectivos entre as partes do discurso. Estes são ainda mais invisíveis, transparentes, e por isso mesmo mais perigosos.

Se pegarmos qualquer artigo de jornal ou revista vamos encontrar expressões como "é forçoso observar que", "e por que não dizer", "a obra gira em torno de", "faz-se necessário ressaltar", "cumpre registrar que", "não é outra coisa senão", "e como não poderia deixar de ser"...

É crime usá-las? Felizmente não, mas quando precisamos fazer cortes num texto porque ultrapassamos a quantidade de caracteres-com-espaços sugerida pelo editor, são essas expressões as primeiras que cortamos sem dó nem piedade.


Sedimentada

"Sem dó nem piedade", aliás, é um belo dum clichê, concordam? O clichê não é feito propriamente de palavras, porque nunca nos damos o trabalho de ler individualmente cada uma das palavras que o compõem. Lemos o sintagma inteiro e compreendemos com que intenção ele foi posto ali. Dó, piedade, nenhum destes termos será levado ao pé da letra ("ser levado ao pé da letra...?"). Importa apenas a função semântica que o conjunto irá cumprir dentro da frase.

O clichê pode ser um vício de linguagem, mas é um vício inevitável, porque não podemos ser criativos o tempo todo. A comunicação ficaria difícil se cada vez que disséssemos algo tivéssemos de fazê-lo de uma maneira completamente nova. O lugar-comum é linguagem sedimentada, previamente aceita, que já foi decodificada, assimilada e nos serve porque é instantânea como café solúvel, rápida como aquelas saladas já cortadinhas e embrulhadinhas em plástico. Se eu digo que Fulano é um espírito de porco ou que Sicrano meteu os pés pelas mãos, posso confiar que serei compreendido sem dificuldade. O clichê torna a linguagem mais rápida e mais coletiva, mas ao mesmo tempo a torna menos criativa e menos pessoal.

Não se pode evitar totalmente o clichê, mas é possível policiar seu uso. O melhor exercício é ler coisas escritas pelos outros e anotar numa folha todos os clichês encontrados. Depois, fazer o mesmo com os próprios textos e tentar criar formas alternativas de dizer aquilo. Em vez de "Fulano e Sicrana tiveram um tórrido romance", podemos dizer: "Tiveram um caso daqueles de incendiar os lençóis".

Braulio Tavares é compositor, autor de Contando Histórias em Versos (Editora 34, 2005). btavares13@terra.com.br
(Revista Língua Portuguesa nº 49, novembro de 2009)
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O lugar do lugar-comum



Em O Pai dos Burros, o jornalista e escritor Humberto Werneck reúne frases feitas que um dia já foram "novidade"

Edgard Murano


Tão involuntário quanto o uso de uma expressão clichê foi o nascimento de O Pai dos Burros (Arquipélago Editorial), coletânea feita por Humberto Werneck (do excelente O Santo Sujo, Cosac Naify, 2008). A obra surgiu da preocupação do jornalista com expressões que, de tão usadas, perdem a força, como "beleza efêmera", "mistura explosiva" e "sonora vaia".

Cliché é termo de origem francesa para a chapa metálica usada na impressão gráfica. Na literatura, é o estereótipo, o chavão. A ideia de produzir sua própria coletânea do gênero é dos anos 70, quando Werneck partilhava, no Jornal da Tarde, dos preceitos do "jornalismo literário", que evitava a todo custo expressões batidas.

— Por volta de 1972, comecei a anotar lugares-comuns, além de provérbios e expressões idiomáticas muito chapadas. Virou brincadeira, da qual alguns colegas passaram a participar. Virei, sem perceber, uma espécie de gari da semântica. Só mais tarde, nos anos 90, eu me dei conta de que havia ali um embrião de livro - conta.

Todo clichê já foi expressão feliz ou, diz Werneck, um "lugar-incomum". Foi o jornalista Augusto Nunes, diz Werneck, que nos anos 80 teria pela primeira vez usado, na revista Veja, "porões da ditadura" e "anos de chumbo", expressões que acabaram vítimas do próprio sucesso. Para Marcelo Módolo, professor de filologia e língua portuguesa da USP, sem tentativa deliberada de estilizar-se o que se diz, usar clichês é só um vício de linguagem.

— Clichês não são necessariamente negativos. Há uma história da fraseologia por trás deles - afirma Módolo.

Força vital

Módolo ressalta a expressão "o pulo do gato", "aquilo que o mestre não ensina". Viria da história, coligida em Contos Populares Brasileiros (Melhoramentos, 1965) por Lindolfo Gomes, sobre o gato que ensinou artes à onça. Após tudo aprender, ela quis comê-lo. Ele se safou pulando para trás, coisa que não ensinara à onça.

Os clichês são como esse gato. Se os desdenhamos, crendo que não nos ensinam mais nada, corremos o risco de ignorar a força que ainda não lhe foi roubada.

(Revista Língua Portuguesa nº 49, novembro de 2009)
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sábado, 14 de novembro de 2009

Sobre cavalos mansos e unicórnios




Rubem Alves


(...) Então você está confusa com os seus sentimentos. Ele apareceu tão de repente na sua vida, com aquele brilho manso no olhar, com aquela meiguice na voz, sem pedir coisa alguma, meio como um Pequeno Príncipe caído de um asteróide.

Aí você me veio com a terrível pergunta, querendo diagnóstico. Você queria saber se você estava sofrendo da doença proibida — você, uma mulher de meia-idade, que foi sempre irrepreensível em pensamentos e ações. Aquela doença que põe tudo de cabeça para baixo e começa a querer começar a vida de novo, com outra pessoa, mesmo que já seja tarde demais e tudo aconteça só na imaginação.

É muito fácil responder: “A presença dele traz alegria?”. Isso é tudo o que importa. Se trouxer só prazer, é fogo de palha. Prazer é coisa do corpo, só acontece quando o corpo do outro está lá. Alegria é coisa da alma, acontece só de lembrar.

Você sofre, é claro, porque isso lhe parece infidelidade. Você continua a gostar do seu marido. Há bonitos sentimentos de amizade entre vocês dois — mas é como aquele cavalo domado que fica amarrado no pau, paciente, sem pressa, arreado para qualquer eventualidade.

O que você pode fazer se você sonha é com o branco unicórnio que coloca a cabeça no seu colo e adormece? Amor não é lei, é graça, imprevisível como o vento, sopra numa direção, depois sopra em outra. O apaixonado é uma vítima inocente.

Muitas coisas podem ser prometidas e cumpridas, mas não posso prometer que ficarei sorrindo ao pensar no seu nome, não posso prometer comoções na minha carne ao ver o seu corpo.

Dizem os entendidos que os unicórnios são animais em extinção. Cuide bem do seu. Pode ser que seja o último a lhe aparecer.


(Trechos de crônica publicada no livro “Um céu numa flor silvestre — A beleza em todas as coisas”, Verus Editora, 2005.)
(Imagem: Marc Chagall)
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sábado, 7 de novembro de 2009

Comentário sobre "Velhota, eu?"


De: Roberto Campos da Rocha Miranda
Enviada em: terça-feira, 3 de novembro de 2009 08:23
Para: Luci Afonso de Oliveira
Assunto: Adorei o "Velhota eu?"

Cara Luci,

Adorei seu livro e vejo que temos a veia cômica em comum.
"O massacre dos quirópteros" é fantástico!
Grande abraço,

Roberto

Roberto Miranda é autor do livro de crônicas e contos “Dança das horas”, Editora Thesaurus, 1995.
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A última crônica



Fernando Sabino


A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.

Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.

Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho — um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular. A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.

São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "Parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura — ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido — vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.

Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.
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segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Ouse




Lou Andreas-Salomé

Ouse, ouse… o
use tudo!
Não tenha necessidade de nada!
Não tente adequar a sua vida a modelos, nem queira você mesmo ser um modelo para ninguém.
Acredite: a vida dar-lhe-á poucos presentes.
Se quer uma vida, aprenda … a roubá-la!
Ouse, ouse tudo!
Seja na vida o que você é, aconteça o que acontecer.
Não defenda nenhum princípio, mas algo de bem mais maravilhoso: algo que está em nós e que queima como o fogo da vida!!
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© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira