terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Ave Marina



Luci Afonso


Ave Marina, cheia de graça. Quando ela chega, os pássaros inauguram o canto, as flores se abrem e os frutos amadurecem, desejosos de serem comidos. Quando ela ri, a manhã se anima.

O Senhor é convosco. Quando ela fala, as violetas pressentem água fresca. Quando ela anda, o vento desperta para brincar com seu cabelo.

Bendita sois vós entre as mulheres. Se ela chora, as lagartas se apressam para virar borboletas. Se ela sofre, as fadas tecem casulos invisíveis para sua dor. Se ela anoitece, os vagalumes a iluminam.

Bendito é o fruto de vosso ventre. Ela sopra, e o céu se liquefaz em bolhas de sabão. Ela respira, e o ar se torna mais puro. Ela cria, e o cosmos se expande.

Santa Marina, mãe do homem. Olhai por nós, Eva moderna. Agora e na hora da nossa sorte também.

(Texto presenteado à minha amiga oculta, Marina, em dezembro passado.)
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segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

O velhinho torto

Luci Afonso




Há semanas espio o velhinho torto que caminha toda manhã de uma ponta à outra do edifício, indo e vindo, mancando e girando o corpo à esquerda. À tarde, a mesma coisa. Ainda não contei quantas voltas ele dá nem quanto tempo leva, mas sei que o trajeto nunca se altera e jamais ultrapassa os limites da calçada.

É vaidoso: tênis modernos, meias brancas três-quartos, bermuda cáqui de brim, camisa de mangas curtas, cinto de couro marrom. Tem o cabelo bem cortado e a barba benfeita. Quando chove, ele traz o guarda-chuva. Se está frio, veste uma jaqueta jeans; se faz sol, usa óculos escuros. Imagino que tenha um cheiro bom e estou louca para descobrir qual é.

Enquanto espero o táxi, ele conversa com o porteiro. Apuro o ouvido e descubro que se chama Rubens, torce pelo Botafogo e odeia o Arruda. Fala baixo e tem um riso gostoso de menino levado.

Sempre o vejo na fila do caixa no Carrefour — eu na de 10 artigos, ele na preferencial. Embalo as compras devagar para sair depois dele e o sigo até o prédio. Ele anda sem pressa, parando aqui e ali para cumprimentar os conhecidos e observar as árvores.

Hoje nos topamos na parada de ônibus. Discretamente, telefono à chefe avisando que vou me atrasar e, para disfarçar, folheio na prateleira do T-Bone o instigante Relatório 2005 das Atividades da PETROBRAS. Quando o Sr. Rubens acena ao zebrinha, embarco mesmo sem saber o rumo e peço licença para sentar-me ao seu lado, na tentativa de cheirá-lo.

— Acho que moramos no mesmo prédio - diz ele. — Já vi a senhora na portaria.

— É mesmo - respondo, inebriada com o talco Johnson’s que exala do velhinho e que me devolve à primeira infância.

— Vai fazer compras? - pergunta ele, gentilmente.

— ...?

— No Conjunto.

— ...?

— Nacional. É para lá que vamos.

— Ah, é! Preciso comprar um sapato.

— Um ou dois? - ele brinca.

— Dois... E o senhor?

— Vou apertar os parafusos.

— Da cabeça? - nós dois rimos.

— Da perna.

É setembro. O ipê amarelo em frente à varanda está carregado de brotos. As lagartas cumprem o humilde caminho até o céu; as cigarras explodem em canto e o passarinho da chuva dá recitais quase despercebidos. O incansável vizinho marcha, sereno e elegante, para lá e para cá, reinaugurando, a cada passo, a primavera da velhinha torta que o observa da janela do sexto andar.
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© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira