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Mostrando postagens de Maio, 2016

A vista de cima

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Luci Afonso
Beatriz e Cecília Valentina brincam embaixo de um jovem ipê amarelo. Uma delas sobe no pequeno galho onde despontam os primeiros brotos, a menos de dois metros de altura. Como é a vista aí de cima? — pergunta Beatriz, que está no chão. Cecília Valentina observa em volta e responde, com enlevo: — É linda, Beatriz!
Saio cedo para caminhar. Uso chapéu bordado e levo câmera de bolso para registrar os acontecimentos diários flores caídas, folhas ao vento, pessoas ao despertar. É a melhor parte do dia, antes dos sintomas e flutuações dos remédios. A médica recomendou olhar bem onde piso. Já levei dois tombos, típicos da fase em que me encontro, mas não consigo fixar os olhos no chão pelo menos, não enquanto velhinhos encantadores e senhoras estrangeiras tristes cruzarem o meu caminho. Tenho uma coisa com velhinhos: compartilhamos a insistência em v…

Bom dia, Deus

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Luci Afonso
Não uso despertador. Às sete em ponto, minha gata Hannah abre a porta do quarto e pula na cama, querendo pescocinho — nome que dei ao carinho no pescoço, que a faz ronronar de prazer. Em troca, ela me lambe com sua linguinha áspera e morde meu dedão do pé, seu eu não estiver acordada. O pescocinho é repetido várias vezes ao dia, e é ela que determina a duração. Quando está satisfeita, levanta-se e vai cuidar da vida. Durmo mais um pouco. Às sete e quarenta e cinco, Anacleide traz a bandeja com o café da manhã, junto com uma flor que ela roubou no caminho. Não, ela não é homoafetiva, é uma alma pura que se apaixonou por mim e me cerca de cuidados, como se tivesse adotado uma criança grande.    Preparo-me para caminhar. Faz um pouco de frio, mas eu gosto assim. Me aconchego em mim mesma e dou três voltas na quadra. A cada dia aumento o trajeto, em busca de mais endorfinas.  Depois do banho morno, coloco o vestido longo que sempre uso em casa e os colares de sementes miúdas que …

Para Olivia

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Luci Afonso Olivia querida, Quando soltamos os balões coloridos em direção ao céu e dissemos em coro “Elicio! Elicio!”, senti-me tão viva!  Quanto mais alto voavam, mais forte era meu desejo de viver. Me perdoa? Seu grito “Acaboooou!”, quase partindo-a em duas, ecoa em mim após tantos dias. Onde encontrou forças para colocar a poesia na roda? Como se lembrou de distribuir rosas, poemas e balões coloridos? Por que agradeceu, quando é você que merece gratidão? Ao velar o corpo de Elicio, você parecia cuidar de um filho no berço ou de uma planta no jardim. Você reparou que o sol se escondeu, que as nuvens escureceram, que o vento se aquietou? O tempo fechou os olhos e fez um minuto de silêncio para que vocês se despedissem em paz. Outros falecimentos aconteciam à nossa volta naquela tarde, mas nenhum de um poeta, como o nosso. Dizem que o outono é a estação do ano preferida de quem parte (talvez pela temperatura amena), e a mais temida de quem fica. Dizem também que o fim de tarde é propício…