domingo, 22 de maio de 2016

A vista de cima



                                                                                                                                    Luci Afonso

Beatriz e Cecília Valentina brincam embaixo de um jovem ipê amarelo. Uma delas sobe no pequeno galho onde despontam os primeiros brotos, a menos de dois metros de altura.
Como é a vista aí de cima? — pergunta Beatriz, que está no chão.
Cecília Valentina observa em volta e responde, com enlevo:
— É linda, Beatriz!

Saio cedo para caminhar. Uso chapéu bordado e levo câmera de bolso para registrar os acontecimentos diários flores caídas, folhas ao vento, pessoas ao despertar. É a melhor parte do dia, antes dos sintomas e flutuações dos remédios. A médica recomendou olhar bem onde piso. Já levei dois tombos, típicos da fase em que me encontro, mas não consigo fixar os olhos no chão pelo menos, não enquanto velhinhos encantadores e senhoras estrangeiras tristes cruzarem o meu caminho.
Tenho uma coisa com velhinhos: compartilhamos a insistência em viver. Lembro o Sr. Rubens, o velhinho torto que morava no outro prédio. Fofinho e cheiroso. O Sr. Pernambuco, nobre guardador de carros e de poesia. Dona Flor, esvaindo-se dignamente como a última chama.
Não conheço pessoalmente os velhinhos atuais, por isso dei número a cada um. O Sr. 01 usa bengala, dá passos miudíssimos e leva uma eternidade para chegar ao outro bloco. Tem movimentos mínimos. Por que se dá ao trabalho de sair de casa? O Sr. 02 exibe seu carrinho motorizado, dando voltas e voltas na quadra. Deve ser rico para ter um carrinho desses. Há um assento de passageiro. Talvez eu lhe peça carona qualquer dia. O Sr. 03 é acompanhado por uma morena forte que o leva pelo braço. Eles conversam animadamente. A Sra. 04 também usa bengala e é cuidada por uma jovem quieta e calada. Duas solidões que não se abraçam.
No meio do trajeto, encontro a Sra. Estrangeira 01. É asiática. Anda sempre olhando para o chão e, com certeza, não leva tombos. Não levanta os olhos nem mesmo quando cruza com alguém. Usa um chapeuzinho bege, combinando com a roupa. Nenhum traço de cor, nenhuma estampa. Eu me confundo com o amarelo dos ipês, o vermelho dos flamboiãs e o azul-claro do céu. Às vezes, a paisagem se camufla em mim.
A cada passo, imagino um mundo perfeito. O Sr. 02 convidaria o Sr. 01 para andar no carrinho motorizado; o Sr. 03 caminharia de braços dados com a Sra. 04, conversando animadamente, as cuidadoras rindo ao lado. A Sra. Estrangeira 01 se vestiria de estampado e sorriria sem motivo. Eu perderia o medo de cair.
Cecília Valentina tem razão: é linda a vista aqui de cima.
                                                                                              Janeiro 2016 

Comentários no Facebook:

Tarlei Martins   Lindeza guardada em palavras, como sói acontecer pela arte dos grandes cronistas. Gostei em especial deste " Às vezes, a paisagem se camufla em mim". Abs!! 23 de maio às 10:40

Maria Amélia Elói   Suave. Uma delícia. 23 de maio às 11:17

            Francine Figueiredo    Como suas crônicas me encantam! 23 de maio às 14:19  



#Compartilhe:

domingo, 15 de maio de 2016

Bom dia, Deus


Luci Afonso

Não uso despertador. Às sete em ponto, minha gata Hannah abre a porta do quarto e pula na cama, querendo pescocinho — nome que dei ao carinho no pescoço, que a faz ronronar de prazer. Em troca, ela me lambe com sua linguinha áspera e morde meu dedão do pé, seu eu não estiver acordada. O pescocinho é repetido várias vezes ao dia, e é ela que determina a duração. Quando está satisfeita, levanta-se e vai cuidar da vida.
Durmo mais um pouco. Às sete e quarenta e cinco, Anacleide traz a bandeja com o café da manhã, junto com uma flor que ela roubou no caminho. Não, ela não é homoafetiva, é uma alma pura que se apaixonou por mim e me cerca de cuidados, como se tivesse adotado uma criança grande.   
Preparo-me para caminhar. Faz um pouco de frio, mas eu gosto assim. Me aconchego em mim mesma e dou três voltas na quadra. A cada dia aumento o trajeto, em busca de mais endorfinas.  Depois do banho morno, coloco o vestido longo que sempre uso em casa e os colares de sementes miúdas que eu mesma fiz, a cor combinando com a da roupa. Batom, perfume, e estou pronta para trabalhar.
Dirijo-me ao escritório, bem em frente ao quarto. Acendo o incenso, faço a oração do dia e ligo o computador. As palavras estão lá, frescas e inspiradas pelos sonhos da noite. Elas me esperam para mais um dia de conversas e negociações. Confabulamos em silêncio até sermos interrompidas pelo telefone.
Às dez e trinta, meu namorado liga. Estamos a nove horas de ônibus de distância, mas o encantamento continua. Em seguida, Anacleide traz a bandeja com a vitamina de frutas e o café coado na hora, junto com outra flor. Hannah quer mais um pescocinho. Descanso um pouco enquanto a acaricio.
Vou ao quarto do meu filho doente. Abro a porta e observo o gigante magro encolhido debaixo do edredom, como se ainda estivesse dentro de mim. O cabelo está grande e feio, a barba o faz parecer um homem de cem anos. Passa dias sem tomar banho e insiste em usar uma camiseta velha, cheia de buracos. Só nos abraçamos a meu pedido. Ele me dá beliscadinhas no braço, como jeito de fazer carinho. Sua tristeza, aliada à minha, é mais do que posso suportar. Fecho a porta devagar, remoendo-me de culpa.
Hoje fomos convidados para uma festa de aniversário.  Festas me doem. Meu corpo esqueceu como se dança, meu coração não se lembra  de como sentir alegria. Mas iremos, meu filho e eu, na esperança de algum milagre.
Retorno às palavras, remédio de uso contínuo e prolongado.  Anacleide traz mais um café, Hannah vem pedir outro pescocinho. O dia segue. É o que temos pra hoje, como diria o poeta sem nome.
                                                                                                         Maio/2016

Comentários no Facebook:


Eneida Soares Coaracy     Bom dia Luci! Mergulhei no seu dia. Que seu domingo siga manso e iluminado. Bj   15 de maio às 13:03

Maria Célia Morici Corrêa      Vc é muito forte, Luci! Parabéns! Beijo 15 de maio às 14:41

             Marcia Bandeira     Luci, que texto tão belo e tão triste e tão revelador da alma humana. Sua sensibilidade me emociona profundamente. Beijo nos corações seu e do Ramon🌸🌻🌸 15 de maio às 21:03 
#Compartilhe:

domingo, 1 de maio de 2016

Para Olivia


Luci Afonso
Olivia querida,
Quando soltamos os balões coloridos em direção ao céu e dissemos em coro “Elicio! Elicio!”, senti-me tão viva!  Quanto mais alto voavam, mais forte era meu desejo de viver. Me perdoa? Seu grito “Acaboooou!”, quase partindo-a em duas, ecoa em mim após tantos dias. Onde encontrou forças para colocar a poesia na roda? Como se lembrou de distribuir rosas, poemas e balões coloridos? Por que agradeceu, quando é você que merece gratidão?
Ao velar o corpo de Elicio, você parecia cuidar de um filho no berço ou de uma planta no jardim. Você reparou que o sol se escondeu, que as nuvens escureceram, que o vento se aquietou? O tempo fechou os olhos e fez um minuto de silêncio para que vocês se despedissem em paz.
Outros falecimentos aconteciam à nossa volta naquela tarde, mas nenhum de um poeta, como o nosso. Dizem que o outono é a estação do ano preferida de quem parte (talvez pela temperatura amena), e a mais temida de quem fica. Dizem também que o fim de tarde é propício a grandes despedidas, pois é nessa hora que se abre o portal do adeus.
Você sabia que minhas palavras voltaram ali mesmo, depois de longo silêncio? Elas haviam me deixado por algum motivo que não sei explicar talvez medo de não ter nada a dizer , mas eu as reencontrei enquanto observava os balões subindo, subindo, até desaparecerem no ar. Chegando em casa, corri ao computador para escrever, antes que elas de novo se sentissem óbvias e desimportantes e se calassem.
 Não é a primeira vez que suas palavras despertam as minhas, adormecidas por alguma razão menor. Estou lidando novamente com seus textos, e sua voz me chega nítida e clara. Não é a primeira vez que sua paixão visceral pela vida — mesmo na ausência dela — me inspira e contagia. Não é a primeira vez que o seu amor ilumina o meu receio de sofrer. Eu estava presente na noite celeste em que vocês se conheceram, e estou agora, na tarde terrestre em que se despedem. Descobri que amo de verdade o homem que já pensei em deixar. Como não agradecer?
Metade de você era verso, Olivia. A outra metade sempre será poesia. O universo fecha os olhos e faz um minuto de silêncio, enquanto os balões coloridos alcançam o eterno finito de Elicio.




#Compartilhe:
© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira