sábado, 24 de janeiro de 2015

Quase tudo




Tarlei Martins

 “Um livro aberto tem o exato desenho de duas asas. E quando se abrem as asas de um livro, quem voa somos nós. A bordo de um livro, sinto-me como se estivesse sendo guiado por um tapete mágico bordado de palavras do começo ao fim.”

“Preciso dessa saída diária de mim para voltar com mais força ao meu eixo. Sem esse espraiar-se sedento por várias geografias humanas, eu dificilmente me reconheceria no que tenho de nítido e preciso. Para me encontrar por inteiro, preciso sair de mim. E, para sair de mim, nada melhor que o tapete mágico das palavras.”

“Frase do Eduardo Giannetti que está no livro A ilusão da alma: ‘Fixado o centro, tudo o mais se ordena’. Sinto que tenho um centro. O meu centro é a leitura. É a leitura que alarga enormemente a minha circunferência existencial. A leitura é um passaporte precioso que permite a mais fantástica das viagens – que é a viagem de si a si mesmo.”

“Escrever será sempre um ofício de artesãos pacientes. Não há pressa que faça nascer um texto. (...) Só o que desejo: ser um artesão das palavras. E viver sob a certeza de que quanto mais escrevo, mais escravo.”

“Por que é que eu demorei tanto a descobrir como funciono? É aquela velha pretensão de todo escrevente de fazer textos longos, elaborados, profundos... Agora sei que fui talhado para as miudezas, para o ordinário (...) Sou pássaro de voo curto que não sabe voar para longe de si mesmo. E se não consigo abdicar da ancoragem biográfica em tudo que escrevo, que eu consiga pôr no que escrevo um pouquinho de arte – a arte que sustenta a vida real.”

“Há quem costume ser acometido de delírios de grandeza. Eu sou acometido de delírios de miudeza. (...) O meu olhar amoroso para a vida menor vive me premiando com belezas baldias escondidas nas dobras do quase invisível. E tudo porque, acho, não tenho um olhar domesticado. Não perdi a capacidade de assombro, de espanto diante do belo gratuito e de tudo o mais que é da vida.”
 
*Trechos do livro Quase Nada. Crônicas – ou quase! Tarlei Martins. Brasília: Thesaurus, 2013.
                (Imagem: Pássaro da Liberdade, pintura de Clarice Lispector, 1975)


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Ligia Fregapani Adorei. 24 de janeiro às 20:55 ·

Meire Fernandes Que texto maravilhoso! Querida Luci Afonso. (Tarlei Martins). Amei, simplesmente. Abs para você. 25 de janeiro às 15:03 ·

Eneida Soares Coaracy Adorei! Voei com o autor e me senti pássaro. Quero mais! 25 de janeiro às 21:50

Olivia Maria Maia Maia Muito lindo!!! Adorei tantas coisas mas, particularmente com isso, cheguei a me identificar muito: " Há quem costume ser acometido de delírios de grandeza. Eu sou acometido de delírios de miudeza. (...) O meu olhar amoroso para a vida menor vive me premiando com belezas baldias escondidas nas dobras do quase invisível". 25 de janeiro às 21:56
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domingo, 11 de janeiro de 2015

Basófoba, eu?


Luci Afonso
Ele se senta ao meu lado na cama. A careca reluz em contraste à roupa preta. As olheiras profundas realçam os olhos escuros. A boca é pálida, quase transparente.
— Quem é o senhor? — pergunto.
— Sou o encarregado do seu caso no Departamento de Tombos e Quedas. Vim fazer o relatório diário.
— Mas fiz o pedido há quatro meses...
— O número de funcionários caiu muito — logo percebo sua pretensão a humorista.
Ele pega a prancheta:
— Sempre é tempo, não é mesmo? Vejamos... Hoje é 31 de outubro... Dia das Bruxas. Alguma ocorrência?
— Levei um tombo hoje de manhã.
— Tombo ou queda?
— Qual a diferença?
— Tombo é barulhento, espalhafatoso; queda é silenciosa, quase imperceptível.
— É tombo mesmo.
— Foi grave?
— Não, apenas ralei joelhos e cotovelos.
— Nível 1: escoriações leves localizadas.
— É, mas tem um detalhe.
— Qual?
— Eu caí na faixa privativa dos ônibus e quase fui atropelada.
— Então, nível 5: provável risco de vida. A senhora teve ajuda?
—Não, tive um sermão.
— De quem? — ele pergunta.
— De um brigadista à paisana.
— O que ele disse?
— Ele me recomendou que prestasse mais atenção. 
— O que a senhora respondeu?
— Eu o mandei à merda.
— É preciso tratar bem os brigadistas. Nunca se sabe quando vamos precisar deles. Retomando: foi seu primeiro tombo?
— Não. Da primeira vez, bati o rosto.
— Este foi mais leve, então.
— Exceto pelo detalhe de que poderia ter morrido.
— Felizmente, não morreu.
Fico em silêncio.
— A senhora vai escrever sobre isso?
— Como o senhor sabe que eu escrevo?
— Li toda a sua obra. Devo dizer que me diverti bastante.
— Não achei graça nesse episódio.
— Ainda não... — ele emenda, com familiaridade.
— É, ainda não...
Começo a imaginar que graça haveria em ter caído no asfalto e quase ter sido atropelada por um ônibus. Só se eu mudasse alguns detalhes: uma bicicleta aqui, uma moto ali, personagens...
— Quando foi mesmo o primeiro tombo?
— Há quatro meses.
— A frequência está boa.
Ele preenche algumas questões “sim” ou “não”.
— Qual a última coisa de que a senhora se lembra antes de cair?
— Lembro-me de estar em pé.
— Hum-hum. Alguma outra observação?
— Senti muita angústia.
— É normal. A senhora se considera basófoba?
— ...?
— Tem medo de cair?
— Não.
— Ainda não... — ele anota no formulário.
 Chegamos à última página.
— A senhora já experimentou algum delírio?
— Este é o primeiro.
— Hum-hum. Algo mais a declarar?
— Estou com muito sono.
 Ele me estende a prancheta:
— Por favor, rubrique todas as páginas no canto inferior direito.
Ele espera cortesmente, confere a papelada e some pela janela:
— Durma bem. Volto amanhã, se Deus quiser.
Acordo um pouco confusa da soneca da tarde. Lembro vagamente de ter sonhado com um homem sentado na cama. A fantasia de Halloween está pronta no cabide: uma releitura sexy de bruxa, com short curto, meia-calça preta e saltos altíssimos. Meus joelhos e cotovelos ainda doem. Só espero não levar outro tombo.

Comentários no Facebook:

Raquel Melo Adorei!
11 de janeiro às 21:00

Eneida Soares Coaracy Delicioso delírio onírico!
11 de janeiro às 22:05

Sandra Daher Muito bom Luci Afonso, ri muito no seu conto! Parabéns pelo aniversário,  tenha um grande ano!
11 de janeiro às 23:33

Cinthia Kriemler Que delícia! Só você para criar um ambiente desses!
12 de janeiro às 00:53 

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sábado, 3 de janeiro de 2015

Pequena Grande Mãe




Luci Afonso


O nome “Isolda” tem origem incerta. Na versão grega, significa “a que protege”. É também o nome de uma princesa no poema épico “Tristão e Isolda”, inspirado numa lenda celta. Nome forte, antigo, impõe respeito, igualzinho à dona.

Nos meus dois últimos anos na Câmara, trabalhei ao lado de Isolda no Cefor – Centro de Treinamento. Foi preciso coragem. Quando nervosa, ela é um perigo! Dava bronca em mim, no marido, na empregada, no marceneiro, na moça do telemarketing, em quem cruzasse o seu caminho. Mas a braveza passava logo, e o sorriso se abria. Trabalhava sem parar e não gostava de ver ninguém desocupado. Era extremamente objetiva, rigorosa, exigente, eficiente, superprodutiva. Enquanto eu fazia um texto, ela fazia quatro, e começava imediatamente a próxima tarefa.

Quem a conhece sabe que ela faz mil coisas ao mesmo tempo – escreve poesia, declama, canta no coral, faz teatro, coordena grupos de dança circular, dá oficinas aos terceirizados da Câmara, ensina jogos cooperativos, apresenta saraus, entrevista convidados num programa de TV (do qual também é produtora), participa de eventos literários na cidade e no país. Será que esqueci alguma coisa? Luta ferozmente pelo que acredita. Graças a ela, o programa Canto das Letras, da TV Câmara, chegou neste mês à 29ª edição, mostrando o talento de escritores e músicos brasilienses.

Nas horas vagas, Isolda cuida da família, dos amigos, dos vizinhos, de pessoas carentes em geral, da casa, do gato, do planeta. Cuidou de mim quando precisei. Sabem aquela luz que toda noite atravessa o céu de Brasília e que muitos pensam ser um satélite? Não é um satélite: é o amor de Isolda dando voltas e voltas no mundo sem se cansar; é a Pequena Grande Mãe velando nosso sono.

Isolda não tem fronteiras. (Aliás, o Médicos sem Fronteiras foi inspirado nela.) E agora, então, que é imortal? Em 19 de agosto deste ano, Isolda Marinho tomou posse, como escritora imortal, à Cadeira nº 40 da Academia de Letras do Brasil – Seção DF. Seu patrono é Pablo Neruda. Ninguém mais segura a poeta alagoana.

O senso de humor e a presença de espírito são conhecidos de todos os que frequentam os saraus. Sua veia cômica e sua intensidade dramática contagiam qualquer plateia. Onde houver um sarau, lá estará Isolda, declamando sua poesia ou a de outros poetas. Tudo fica mais engraçado ou mais comovente na sua voz.

Isolda tem três grandes amores: a vida, a vida e a vida. Não perde uma chance de ser feliz. Corre atrás da alegria e a enlaça pela cintura. Juntas, elas dançam até a última música da última festa. Se o corpo dói, ela toma um Dorflex. Se é a alma que dói, ela toma um poema, de preferência com gosto de fruta. Mesmo que seja o cítrico doce do Beijo de Tangerina, seu terceiro livro, concebido de sobras de lágrimas, resquícios de placenta e estilhaços de retina.

Tenho certeza de que ao se aposentar vai fazer milhões de coisas, enquanto eu faço uma ou duas. Só me resta a inveja – branca, não, que essa não existe; inveja roxa de amora ou vermelha de morango.

Isolda, só três:

Isolda Poeta.

Isolda Carinho.

Isolda Marinho.

(Texto em homenagem à poeta Isolda Marinho, lido no 62º Sarau da Câmara dos Deputados.)

(Ouçam o texto e a resposta de Isolda Marinho no Portal Cultura Alternativa, de Anand Rao.)

Comentários no Facebook:


Isolda Marinho Não canso de ler e reler este belíssimo texto que Luci escreveu em minha homenagem. Muito emocionada e agradecida, não sei bem se sou mesmo tudo isso. Sei que gosto de viver intensamente e, de preferência, fazendo os outros felizes.
2 de dezembro de 2014 às 14:29

Tarlei Martins Se a Luci escreveu, Isolda, merece toda fé...
2 de dezembro de 2014 às 15:12

Maria Amélia Elói Foi lindo, Luci Afonso. Fiquei maravilhada com a homenagem.
2 de dezembro de 2014 às 15:20

Cinthia Kriemler Lindo texto. Como quem o inspirou. E como quem o escreveu. Emoção pura. Merecido de verdade!
2 de dezembro de 2014 às 15:32

Maria Amélia Costa Costa Muito lindo Luci Afonso! Parabéns às duas.
2 de dezembro de 2014 às 15:57

Cristiane Bernardes foi lindo mesmo! adorei! A Isolda merece!
2 de dezembro de 2014 às 18:36

Deliane Leite bela homenagem
2 de dezembro de 2014 às 19:02

Ádyla Maciel Lindo!
2 de dezembro de 2014 às 19:09

Raquel Melo É tudo verdade, Luci Afonso.! Isolda Marinho é essa riqueza de gente! Linda homenagem!
2 de dezembro de 2014 às 19:44

Angela Menezes Delgado Eu que nem conheço a Isolda, fiquei com vontade de. Parabéns, Lucy pelo seu belíssimo texto!
3 de dezembro de 2014 às 09:00

Nádima Nascimento Linda linda queridas, homenagem mais do que procedente feita com a exatidão delicada da amiga escritora!

3 de dezembro de 2014 às 20:16
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© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira