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Eu te perdoo

Luci Afonso Pai, é tarde de domingo, o vento está forte, e parece que vai chover. No domingo, geralmente, sinto um pouco de angústia quando vão se aproximando as 17 horas. Hoje, meu coração está tranquilo, sem sofrimento. Por isso, resolvi falar com vc. Sei que no domingo à tarde vc gosta de assistir ao futebol na TV. No intervalo, faço um café, frito um biscoito e te chamo para o lanche. Seu time está perdendo, vc está preocupado com o segundo tempo. Volta para a sala, e eu começo a lavar a louça do almoço. Esse é o sonho que me vem constantemente. Me dá uma agradável sensação de paz e bem-estar, que se dissipa logo que acordo. Só me permito amar vc em sonhos. É que eu não te perdoei, e assim deixei de receber o imenso amor que vc me dedicava. Me perdoe por não ter falado com vc na última vez que ligou. Peguei o telefone, ouvi sua respiração ansiosa, mas as lágrimas me impediram de responder. Saí correndo para o quintal, e sei que vc também ficou muito triste. Po...
Domingo com Clarice Lispector E eu não aguento a resignação. Ah, como devoro com fome e prazer a revolta. Como sou misteriosa. Sou delicada e forte. Ao seu lado, na rua, passavam criaturas que certamente se haviam dificultado menos, e que seguiam para um destino mais imediato. Há um ponto em que o desespero é uma luz, e um amor. Clarice dá tanto aos outros e pede licença para existir (Dr. Lourival, citado sem sobrenome por Clarice) Sua coragem é a de, não se conhecendo, no entanto prosseguir. É fatal não se conhecer, e não se conhecer exige coragem. Agora ela está toda igual a si mesma. Ela é a amante que sabe que terá tudo de novo. (...). Está cada vez menos sôfrega e menos aguda. ,,, medo do que é ao mesmo tempo selvagem e suave. Uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais.

Primeira carta ao meu pai

Primeira carta ao meu pai Luci Afonso Pai, hoje é 1º de agosto de 2022. Faz mais de quarenta anos que você partiu. Saiu de casa para viver nas ruas de Araxá, às vezes sem ter onde dormir, sem se alimentar direito. Devorado pelo álcool e pela solidão. Fiquei sabendo, por um primo, que você morreu num hospital psiquiátrico, sem ninguém ao seu lado. Ia ser sepultado como indigente, não fossem seus tios aparecerem para enterrá-lo. Tenho 62 anos, tenho um filho, Ramón, hoje com 26 anos. A maior alegria da minha vida. Gentil, sensível, generoso. Estudei muito. Aprendi línguas. Tive vários empregos, até chegar à Câmara dos Deputados, uma das mais importantes instituições do país. Trabalhei muito até me aposentar. Tenho uma doença grave, mas não fatal. Tive muitos namorados, hoje tenho muitos amigos. Sou Luci Afonso, escritora. Voltei a escrever depois de muito tempo. Publiquei quatro livros e estou finalizando o quinto. O título provisório é Príncipe dos Pardais, e será dedicado a você. Vol...

Julia e eu

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Luci Afonso Durante a quarentena, minha terapeuta sugeriu que eu desse uma oficina infantil de criação literária para me distrair. Escolhi o nome: Colivrinho-20 — Oficina Infantil Virtual de Criação Literária. Para a primeira aula, fiz um roteiro dos dez passos para escrever uma história, que pretendia seguir fielmente, e entrei na live do Skype disposta a dar uma aula clássica de redação. Não funcionou: na outra tela só havia uma pessoa, que não se mostrava inteira. Ora eu via o cabelo, ora os olhos, mais frequentemente o teto. Eu não entendi o que ela dizia. Perguntei sua idade, ela disse que tinha 31 anos. Estranhei: a oficina não era infantil? Só com o tempo descobri que Julia tinha alma de criança. Só com o tempo ela se sentiu à vontade diante da câmera. Primeiro, apareceu o rosto. Depois, o cabelo, cada vez com uma tiara diferente. Mais umas semanas, ela deu um sorriso, e a tela se iluminou. Ela o repetia toda vez que terminava uma frase. Era encantador. No desenrolar da ofi...

Mil tsurus

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                                                                                                                                                    Luci Afonso   O tsuru, pássaro sagrado japonês, representa a boa sorte e a felicidade. É também símbolo da paz. Quem pratica o origami, técnica de dobradura em papel, sabe que, segundo a lenda, são necessários mil tsurus para alguém ter um pedido realizado. Conta-se que a menina Sadako Sasaki, uma das vítimas da bomba atômica, conseguiu fazer 646 antes de morrer.   Seus amigos fizeram mais 354, p...

Tzen Tze Re Rei - Loli Cosmica

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Versão de canção medicinal da comunidade Shuar, do Equador. O autor é Nase Chiriap. “Tzen Tze Re Rei” significa “a flecha que avança e abre as portas”.   Tzen Tze Re Rei   Y es aquí Donde quiero estar Junto a ti Re re Re re Tséntse a-re-re-re Tséntse a-re re-re re   De tus ojos Salen los colores Del universo Pedimos todo   Y esos colores Son el alimento Para la existencia Que somos todo Re re re...   De tu voz Salen los sonidos Del universo Que oímos todo   Y esos sonidos Son el alimento Para la existencia Que somos todo Re re re...   De tus manos Salen las caricias Del universo Que sentimos todo   Y esas caricias Son el alimento Para la existencia Que somos todo Re re...   Y es aquí Donde quieres estar Junto a ti (2x)

Oração ao bebê prestes a nascer

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                                                                                                                                                                                                               Luci Afonso   Para Sara Letícia e Camila Nasce logo, meu amor. Te espero com certezas e pressentimentos. Seu quarto terá todas as cores, seu berço, todas a...

Deus é bom

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  Luci Afonso     Enquanto as Torres Gêmeas desabavam em Nova York, numa bela manhã de setembro, meu filho de quatro anos procurava numa gaveta seus super-heróis favoritos, para enfrentar os monstros imaginários que desenhava. Às vezes, olhava para a televisão, sem se interessar pelo que acontecia.              Anos depois, quando ouvimos a notícia sobre outro ataque assassino, desta vez em Madri, ele continuava brincando em seu mundo inocente e pacífico, que só as crianças habitam.              Toda noite, antes de dormir, quentinhos na cama, líamos a Bíblia Ilustrada para Crianças, sempre seguido dos comentários infantis. No primeiro capítulo, Deus criava todas as criaturas, inclusive o homem. Ao final do dia, ele parava, olhava tudo o que tinha feito e gostava do resultado.              — Nossa, e...

Bilhete de Leonardo

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Tia Luci, Eu estava vagando pelo apartamento vazio em uma noite de insônia quando decidi imprimir alguns textos, ou melhor, parágrafos que andei rabiscando nos últimos tempos. Estou lhe enviando alguns e gostaria muito que você os lesse quando tiver um tempo. Ah, e junto vai o quadro com o poema que você me emprestou há muito tempo. Ele é lindo, e adorei poder lê-lo quase todos os dias. Com carinho, Leonardo Poema de Mariza* Estive doente Dos olhos Da boca Dos nervos até Destes olhos que viram mulheres perfeitas Da boca que receitou poemas em brasa Ah... dos nervos manchados de fumo e café   Estive doente Não quero escrever Eu quero um punhado de estrelas maduras Eu quero a doçura do verbo viver. (Autor desconhecido)   Poemas não perdem a coragem. Recebi este das mãos da terapeuta Mariza Oliveira, um mês antes de ela falecer devido ao câncer. O poema me acompanha deste então, e esteve durante algum tempo com meu sobrinho Leonardo. Leia t...

Feedback

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Feedback da educadora Miliane Benício sobre os livros A família do Patonildo, de Julia Correia, e As aventuras de Tobii , de Ana Clara Santos de Souza. Os livros foram produzidos na Oficina Virtual Infantil de Criação Literária, que conduzi ano passado.   MILIANE : Olá! Amada Luci. Apenas hoje reencontrei os livros da Ana Clara e da Julia. Amei as aventuras vividas pela família do Patonildo ao sair de férias da Patolândia. E, amei mais ainda o como você, minha amiga, apaixonadamente, apresenta a Julia para o leitor.  O fato de os patos terem barco, acamparem, não saberem nadar. E, fulminantemente, as reticências depois do FIM. Amei! Amei! Amei! E, quanto à atrevida da Ana Clara... Para quem bicho de pelúcia, cães, gatos e peixes têm voz e atrevimentos impensados, a danada me pegou de jeito. Não conseguia parar de ler nem para atender ao chamado do Axel, que berrava: "MA MÂÂÂEEEE...!!!" Os pirapeixes merecem o Prêmio Nobel de Atrevimento no reino invent...

Mulheres que inspiram

  Lugar.de Encontro Mulheres que nos inspiram Essa semana, começamos falando de mulheres que nos inspiram. Hoje separamos um compilado de obras de uma mulher potente, cheia de criatividade e que tem uma importância muito grande para o Lugar de Encontro. Luci Afonso é natural de Araxá, MG e mudou-se ainda criança para Brasília. Licenciada em Letras-Português pela Universidade Católica de Brasília, é servidora aposentada da Câmara dos Deputados. Publicou quatro livros de crônicas: Velhota, Eu?,   O Guardião da Manhã, Senhora dos Gatos e Viagem Ao Sul de Mim. É membro da Academia de Letras do Brasil - Seção DF.   Foi duas vezes finalista do Prêmio Jabuti de Literatura na Categoria Ilustração. Promove oficinas de criação literária. Criou e coordena o Clube de Leitura Mulheres Maduras. Em suas obras Luci traduz situações reais de forma poética, nos trazendo em sua escrita a esperança e o olhar atento ao outro. Para adquirir os livros de Luci Afonso, é só entrar em co...

Azul

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  Azul Luci Afonso   Ele está na beira do lago.   A água é límpida e refrescante. Enquanto molha os pés, ele observa o cenário. Ipês de todas as cores enfeitam o parque. O chão está coberto de folhas. Como as árvores, ele espera a chuva para amenizar a angústia da seca.   A chuva é azul , sussurra o vento. A chuva é azul , repetem as nuvens. Ao longe, ele avista o Bando de Amigos debaixo de uma árvore.   Eles se reúnem a cada quinze dias. No encontro anterior, aprenderam a fazer origamis de tsurus em tons suaves. Depois, tiveram uma oficina de pulseiras artesanais. Com cuidado, ele produziu pulseiras para a mãe, numa singela combinação de formas e cores. O bando de amigos é azul , dizem as árvores. O bando de amigos é azul , confirmam os pássaros. Por mais que ande, ele não consegue chegar ao grupo. Eles parecem estar sempre mais longe, como num pesadelo. O sol está forte e o tempo, seco. O chão pega fogo. Ele tem muita sede. Cansado, ele se deit...

Desafio Literário do Dia do Professor - Sindicato dos Escritores de Brasília

  Fiquei muito feliz em ser opção de resposta neste Desafio Literário - questões 3 e 5. Agradeço ao SindEscritores. [17:19, 25/07/2021] Sindicato dos Escritores: Desafio Literário do Dia do Escritor   As três primeiras pessoas que enviarem as respostas às questões abaixo ganharão cada uma, um vale-compras da Livraria Leitura do Pátio Brasil Shopping no valor de R$ 100,00. Da quarta à 10ª pessoa que enviar as respostas corretas farão jus a um livro de autor brasiliense. Mande as respostas para: sindicatoescritores@gmail.com até a meia noite de hoje. O Resultado será publicado logo após a meia-noite. E então, bora? 1.Qual dos escritores abaixo não nasceu no Rio de Janeiro nem em Rondônia? A)- André Giusti B)- Jorge Amâncio C)- Gilbson Alencar D)- Arisson Tavares   2.Qual dos escritores abaixo ganhou 3   Prêmios Literários da Academia Brasileira de Letras: o Prêmio Afonso Arinos, o Francisco Alves e o Coelho Neto. A)- Luiz Manzolillo B)- Cassiano Nun...

Sessão solene da Academia de Letras do Brasil-DF

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  Tenho a honra de constar entre os agraciados pelo Certificado de Honra ao Mérito  da Academia de Letras do Brasil-DF.

Os três porquinhos filosóficos e o lobo curioso

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A moça do Fujioka

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  Luci Afonso   Toda sexta-feira, às 16h, vou ao Fujioka de Sobradinho revelar fotos. Eu digo “revelar”, como antigamente, porque ainda não me acostumei com a palavra “imprimir”. Fotos são minha paixão desde criança. Elas prolongam os bons momentos, quase os cristalizam. Elas atestam que as lembranças são verdadeiras.   Além disso, preveem o futuro de uma forma que só entenderemos mais tarde. Tenho muitos álbuns, cada foto revelando em detalhe a emoção daquele minuto que nunca mais se repetirá. Uma vez posta no álbum, a foto não sairá mais dele. Não suporto álbuns incompletos ou vazios. Estou sempre revelando fotos que os preencham. Há pouco tempo, descobri uma foto de trinta anos atrás, em que eu estava linda e sorridente. Fiz cópias e espalhei pela casa. Sempre que entro no quarto, vejo a linda moça me sorrindo com um frescor que me reanima. Aproveitei para colocar, ao lado da foto, um jarro com flores de buganvília vermelha. Entro no Fujioka e desperto, mai...

Entrevista à Associação dos Servidores Aposentados da Câmara dos Deputados

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      n.° 29200 - 5  de fevereiro de 2021 - Sexta Fala, associada Luci Afonso de Oliveira Nascida na cidade de Araxá-MG, Luci Afonso de Oliveira, chegou a Brasília em 1971, onde cresceu. É licenciada em Letras-Português pela Universidade Católica de Brasília. Ingressou na Câmara em 1985, mediante aprovação em concurso público. Trabalhou no Departamento de Taquigrafia, Revisão e Redação, aposentando-se em 2013. Depois que se aposentou, Luci trabalha na área de literatura, como escritora, revisora, assessora literária e coordenadora de oficinas e clube literário. Viajante assídua ela ja foi à Inglaterra, França e Itália, e, mais recentemente, a Nova Iorque. Também viajou pelo Brasil, no interior de Goiás e Minas Geras, e em praias do Nordeste. Luci além de escrever, ler, faz pintura espontânea (método de autoconhecimento), objetos, colagens e garrafas decorativas. É fotógrafa amadora, apaixonada...

Doce invasão

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  Luci Afonso   O dia começa, é preciso viver. A lua ainda não se recolheu. O sol acorda aos poucos, como uma criança, e provoca no muro ocre um espetáculo de luz.   Só dura um instante. Os jovens ainda dormem o sono ingênuo.   A casa está em silêncio, exceto pelos gatos, que miam para sair. Eles se acostumaram com o espaço e a liberdade, e agora os exigem assim que amanhece. Saio ao jardim, meu primeiro alimento diário. Nasceram quatro acerolas, uma delas já caída na gram. Apareceram rosas amarelas em meio às vermelhas. Não me lembrava de tê-las plantado ali. O pé de manacá branco-lilás se encheu de flores. Os amores-perfeitos estão abraçadinhos. As sementes de alamanda não vingaram. Precisarei pedir outras ao vizinho da esquina. Nasceu mais uma flor-de-cera. O painel de treliça está cheio delas. Parecem minúsculos doces de aniz tingido cor-de-rosa, capturando o olhar e insinuando o toque. A aparente delicadeza esconde uma vontade férrea. Agarra-se com for...

Prêmio Jabuti

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Está tudo aqui

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  Luci Afonso     Está tudo aqui: a grama macia, o ipê-rosa, o céu puro azul, a nuvem de algodão, o canto da cigarra. Então, penso em você. Quando te vi a primeira vez, reparei nos seus sapatos. Nunca tinha visto tão feios. Depois vi o lugar exato onde você começaria a perder o cabelo. Calvície precoce , pensei. Continuei te examinando enquanto você falava. Os olhos de amêndoa o faziam parecer meio japonês, e a pele morena jambo (inventei essa cor para sua pele) era um sinal de que você vinha de outra região. A boca bem desenhada guardava um sorriso confiante. A voz era grave, aveludada, e os óculos, redondinhos como os de John Lennon. Um quebradinho no dente lhe dava um ar desprotegido. A risada solta balançava todo o seu corpo e quase te levava às lágrimas. As nuvens agora formam um elefante. Uma flor do ipê-rosa cai no meu rosto; dizem que é uma bênção da natureza. A cigarra dá uma pausa no canto. Você mentiu sua idade, para parecer mais velho — nem tinha v...