Mil tsurus

 

                                                                                                                    Luci Afonso

 

O tsuru, pássaro sagrado japonês, representa a boa sorte e a felicidade. É também símbolo da paz. Quem pratica o origami, técnica de dobradura em papel, sabe que, segundo a lenda, são necessários mil tsurus para alguém ter um pedido realizado. Conta-se que a menina Sadako Sasaki, uma das vítimas da bomba atômica, conseguiu fazer 646 antes de morrer.  Seus amigos fizeram mais 354, para que mil fossem sepultados com ela. Seu pedido foi a paz da humanidade.

Após quase dois anos de quarentena, estamos mudados. Sobrevivemos ao vírus, ao confinamento e à desesperança, mas trazemos marcas permanentes do isolamento prolongado. Perdemos muitas pessoas muito próximas. Amores se desfizeram na convivência sem tréguas. Crianças sentiram a  angústia da privação de liberdade. Porém, saímos dessa experiência mais humanos do que quando entramos. Tivemos tempo para confeccionar os mil tsurus de que fala a lenda japonesa, e o pedido coletivo pelo fim da pandemia foi atendido.  

Recomeçam os eventos literários que tanto alimentam a alma.  Vou finalmente reencontrar meus amigos escritores. Uns se lançam à aventura do primeiro livro, pronto desde o início da quarentena. Outros aprimoram a técnica e o estilo, enquanto observam tudo o que ocorre ao seu redor. Alguns repartem o conhecimento em doses terapêuticas, com afeto e generosidade. Todos são movidos pelo amor à poesia, isto é, pelo amor à vida.

Neste final de ano, haverá lançamentos, saraus e festas. Ao ar livre, com o distanciamento necessário, mas com proximidade suficiente para o abraço. É a celebração da vitória contra o caos. Vou a uma festa japonesa a fantasia. O tema é o tsuru, em homenagem a Joana, jovem professora de origami que este mês retorna ao Japão. O presente do amigo oculto será artesanal e cheio de afeto.

Com a mão delicada, Joana faz pingentes de tsurus minúsculos para presentear o grupo. Eu levo um arranjo com flores de cerejeira para compor a decoração. Vestirei um quimono preto bordado com pássaros – como as mulheres japonesas, tenho os passos curtos, mas a alma é imensa. Nas asas do tsuru, voamos rumo à fonte inesgotável do mais humano, cheios de esperança e alegria.

Sobrevivemos. Agora, queremos viver.                

                                                             Novembro 2021

 

(Imagem: https://www.minutoseguros.com.br/quem-somos/lenda-tsuru)


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