Bifurcação


Luci Afonso

Na manhã de quinta-feira, resolvi encarar a chuva e o trânsito até o Parkshopping para comprar o presente do meu filho: um jogo eletrônico recém-lançado, que eu esperava encontrar no templo FNAC da tecnologia. Este ano estou sem dinheiro, graças a Deus, e só vou dar esse presente.

Eu planejava desincumbir-me da tarefa em pouco tempo e ainda voltar para o almoço em casa. A compra foi rápida. Demorada foi a chegada ao shopping.

Em vez de ir pelo Eixão, como sempre faço, decidi usar a EPIA. Dirijo pouco fora do Plano Piloto, e por isso não conheço as recentes duplicações e viadutos construídos pelo GDF. Após a Rodoferroviária, percebi que estava na faixa da direita, em direção à Estrutural, e que deveria pegar a da esquerda. Não deu tempo. Resultado: fui parar na rodovia sem retorno que leva a Taguatinga e Ceilândia.

Tentei ver a situação de forma positiva. Quem sabe, aquele era um sinal de que eu não deveria ir ao Parkshopping naquela hora, naquele dia? Lembrei-me de experiência semelhante vivida há apenas uma semana, quando uma amiga e eu procurávamos um endereço num condomínio no Lago Sul. Rodamos quase duas horas, indo e vindo pela Ponte JK — pontes também não têm retorno —, até que, exaustas e mal-humoradas, desistimos. Deus escreve certo por caminhos errados.

Pois bem. Agora eu estava na Estrutural, na direção oposta da que pretendia. Já estava conformada em fazer o longo trajeto quando avistei um retorno providencial. Não tive dúvida: entrei na Cidade dos Automóveis, procurando placas que me devolvessem ao destino correto. Placas havia de sobra: “compra-se”, “vende-se” e “troca-se”, mas nenhuma de sinalização.
Fiz balões e mais balões até parar numa extensa fila de carros, caminhões e ônibus. Motivo: obras na pista e um desvio de terra transformado em atoleiro pela chuva. Não estava preparada para o rally, mas enfrentei os buracos com coragem até chegar de novo ao asfalto, essa maravilhosa invenção humana.

Para minha surpresa, o atoleiro levara diretamente ao Setor de Indústrias, que conheço relativamente bem. Encontrei a saída para a EPIA e segui tranqüilamente o caminho, até descobrir mais à frente uma nova bifurcação à direita para o Parkshopping — desta vez, eu estava à esquerda. Felizmente, a antiga estrada para o Guará continua no mesmo lugar e também dá acesso ao paraíso das compras.

No final, deu tudo certo. Achei o presente e consegui evitar o tumulto de pessoas enlouquecidas pelo espírito natalino. Ano que vem, se Deus quiser, compro um carro com GPS.

Postagens mais visitadas deste blog

Roupa de época

Os personagens e seus nomes

A escrita de uma crônica*