Asa negra


Emanuel Mazza

Ele sempre sonha com aquela rua. É uma rua estreita, coberta com pedras antigas de um calçamento que desce a ladeira e vai dar numa praça. A praça se abre em muitas outras vias, cercada de uma igreja e tantas outras casas que se perdem no arcabouço da memória. Dessa vez ele voa baixo, pesado, quase arrastando. Por mais que se esforce não consegue alcançar o tão almejado céu, o que vê é um céu escuro e opaco da noite de breu sem fim.

Não há nuvens no horizonte límpido e frio da consciência, exceto uma ou outra carregada de chuva, que, tão pesadas como ele, parecem se arrastar com o vento. Na verdade, não há horizonte, e toda natureza conspira contra ele naquele momento, nem o vento o suporta. Nem ele mesmo se suporta.

Assim, fatalmente será agarrado. Sim, há um perseguidor, é então que ele o vê, a poucos passos, não consegue uma noção concreta de quem está por trás, é tudo um sonho mesmo, e se virar muito a cabeça certamente irá cair. Ele voa, tenta em desespero bater mais forte as asas, mas não consegue. Essas asas que não são feitas das penas de um anjo, mas de negras membranas dispostas entre longas alças arqueadas que as sustentam e terminam em garras, como as de um demônio.

Será pego, isso está certo, e a idéia o atormenta, o devora, como ele estava acostumado a devorar. O caçador finalmente torna-se presa. O assassino incansável para quem pouco importa a vida ou a morte, exceto a dele mesmo. Acossado, ouve a respiração forte e regular, os passos firmes e cadenciados de quem não tem nenhuma dúvida de que o irá apanhar. O homem corre, apenas segue veloz, e é mais forte que ele.

Fraqueja, sente-se mortal como há muito não sentia. Não suporta a idéia de ser um homem comum, desacostumara-se com isso. O coração começa a falhar, um peso o abate, a esmigalhar o peito e o ventre, e se espraia pelo corpo, como ondas de choque que vibram num pulso. Suas asas ruflam contra o vento enquanto ele em vão emite um guincho medonho.

Sim, sabe que vai perder aquela luta, que de nenhuma maneira poderá escapar, já está condenado, é o fim...

Os olhos se abrem lentamente na escuridão. A respiração, a princípio rápida e entrecortada, vai suavizando. Sente o suor frio e pesado como um manto pegajoso e glacial agarrado à sua pele e que lhe dá nojo. A roupa encharcada numa realidade que se impõe sobre o sonho. Ou um sonho que não é senão parte de uma inesgotável realidade.

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