O ponto




Emanuel Mazza


Meu sangue percorre caminho entre ruas escusas, intransponíveis, obstruídas na ânsia de si mesmas, num entrave certo à vida. Ele faz o que tem de fazer, segue sua sina, busca o aconchego de outros mares, e eu, não sei se quero ir com ele, ou apenas me deixar ficar, soltar amarras e ansiar a morte, naturalmente como deveria ser, se hoje não fosse, longe de tantos recursos, paralisado no cansaço do corpo, preso na inércia de mim.

Melhor não pensar, uma vida inteira pautada em razões, em caminhos e atitudes racionalizadas, em porquês delineados, essa conduta de herói, de dominador, daquele que dispõe dos fins e dos meios (ilusão), me levou aonde estou, ao trombo. O trombo é um ponto no caminho. Um ponto de sangue coagulado no tempo.

Procuro não pensar. Há tantos significados que pensar seria crime, há tantas variáveis na matemática do existir que é impossível o pensar. Apenas deixar vir, as imagens cintilam como idéias, estrelas que pulsam na noite, ao acaso. O sopro seco do vento no inverno. Queria realização quando a vida me cobrou seu momento, e me senti aquém, aquele que não viveu senão o compromisso, cujo destino principal não estava em si mesmo.

E quando o acaso, senhor absoluto de todas as coisas, veio buscar o que é seu, e trouxe na mão uma balança, percebi que o muito que havia era quase nada, que outros eram os sonhos, que o que havia em mim estava calado, recôndito, estagnado no ponto.

Quando a comichão da morte me tocou eu não me senti à vontade, gritei por mim na iminência do não ser, e o que ouvi foi um eco, o baque surdo da minha voz contra as rochas, e as rochas eram o trombo.

Vejo minha mão e percebo como se minha não fosse, uma parte inerte presa em sua anestesia. Mais um quarto escuro, uma caverna que se resguarda em si, e tantas já são. Despojos de guerra atirados no sótão, distraidamente, ao longo dos anos, até que não sobrasse muito, mas que a própria memória não dá por falta, exceto por uma nesga, uma fincada cruciante de que algo de mim se perdeu, e esse algo talvez fosse tudo.



(Imagem: Le modèle rouge, René Magritte, 1935)



Emanuel Mazza de Castro nasceu em 3 de maio de 1967, em Teresina, PI, e mora em Brasília desde 1992. Formou-se em Medicina pela Faculdade Federal do Piauí. Trabalha em Clínica Médica e Terapia Intensiva na Câmara Federal e TCU. Casado pela segunda vez, é pai de dois meninos, Chael e Breno. Como contista, foi premiado em diversos concursos. Também é autor de estórias infantis. Publicou “Vôo Livre”, contos, em 2003, e “O Rei, o castelo e o dragão”, estória para crianças, em 2004. (emanuelmc@tcu.gov.br)

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