A paixão feminina pela palavra*




Entrevista com Nélida Piñon

(Por Luiz Costa Pereira Junior)



Há quem diga que ler muito não faz escrever melhor, necessariamente, e o ideal seria ler tanto quanto escrever muito. Para escrever bem posso dispensar o hábito de leitura?

Sem a leitura não acumulamos vocábulos, não temos contato com pensamentos que descobrimos na leitura, não confrontamos nossas idéias com as do livro. Você precisa ser reformulado pelas idéias do outro e um livro é uma maneira. É preciso se opor à idéia do outro para vir a ter idéias que possam representar uma mudança pessoal. Se você lê e não escreve, significa que você está intimidado. Que a leitura não está lhe dando a liberdade que ela tem de oferecer. Escrever deve ser uma conseqüência natural do prazer de ler. Agora, acho também que ler e escrever não são incompatíveis. Quanto mais você lê, mais se dá conta que é dificílimo escrever, mas é necessário e pode aprimorar a sua escrita.

No que um texto produzido por uma mulher é diferente do feito por um homem?

A mulher esteve sempre segregada. Não teve sempre acesso à escrita. É um ser recente na cultura. Portanto, a leitura que ela fez foi produzida pelo ontem, por uma leitura masculina. Isso por si nivela uma competência intelectual se ela leu tanto quanto o homem textos fundamentalmente masculinos. Ora, todo ser segregado tem seu leitmotiv interno, tem seus ressentimentos, mesmo que diga que não. Vai adicionar ao que escreve e pensa o fruto da sensibilidade social que lhe impuseram, aquela que talvez não seja ainda a sua sensibilidade.
Você conta nos dedos o número de mulheres de destaque na literatura nacional. Você não vence uma resistência histórica em duas gerações. Veja um casal de mesmo nível intelectual e social. O homem tende a falar muito mais do que ela. A mulher é historicamente afásica. Mas estão queimando etapas. Com isso, também a sensibilidade do novo homem está se forjando. Agora que ele está no horizonte dele, ele também se reformulou.

Depois de ganhar tantos prêmios internacionais, o que pretende em sua literatura?

Ter saúde e organização mental, mas principalmente vivacidade. Que me deixe arrebatar pela vida e pelas pessoas, e continue pensando que a vida é um enigma. Enquanto for um enigma, vou bater à sua porta. No dia em que achar que estou apática, e que os prêmios escrevem os meus livros, estou perdida. Preciso da minha consciência, de meu desgoverno, de meu caos, de minha paz para criar meus livros. Não há prêmio ou consagração que alivie a minha angústia.


*Trechos de entrevista publicada na Revista Língua Portuguesa n° 7, maio de 2006

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