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Escrevo porque...*




Fernando Sabino



“Escrevo porque me sinto descompensado em relação à realidade. Preciso de uma verdade fora de mim em que me agarrar. Me sinto defasado. A minha realidade interior vive abaixo do nível da realidade que me cerca. Para restabelecer o equilíbrio, num contato normal com os demais seres humanos, tenho que escrever, porque a recriação da realidade pela imaginação, através da linguagem escrita, é a maneira que tenho de me comunicar. Há uma espécie de catarse naquilo que escrevo: para não precisar me deitar no divã de um psicanalista. Se escrevi, por exemplo, um livro com o título A faca de dois gumes, pode ter sido para não esfaquear alguém.”

“Sempre que me sento para escrever, sou um principiante. Vou escrever alguma coisa que não sei o que seja, justamente para ficar sabendo. E que só eu posso me dizer, mais ninguém.
Por isso às vezes passo horas, dias à procura da palavra adequada ou do encadeamento de uma frase. Não quero repetir coisas já ditas, inclusive por mim, o que infelizmente às vezes acontece. Para isso tenho de desaprender o que aprendi, me desvencilhar dos preconceitos, me livrar das hipocrisias, das idéias que me foram impostas, de tudo enfim que possa tolher a minha liberdade de expressão.”

“Já os que consideram a crônica também literatura descartável certamente estão mal informados. A crônica é um gênero literário com uma tradição que vem dos quinhentistas portugueses, como Diogo do Couto, desembarca no Brasil com Pero Vaz de Caminha, passa por Machado de Assis e chega até nossos dias com Rubem Braga. Como se vê, uma linhagem das mais nobres, a que qualquer um se orgulharia de pertencer.
A confusão vem provavelmente de o termo durante algum tempo ter servido para designar em jornal as seções especializadas: a crônica política, social, esportiva — enfim, tudo o que escreviam os que hoje são mais propriamente denominados colunistas.
Entre um romance e outro, escrevi e continuo escrevendo centenas de crônicas, contos e histórias curtas. Tudo é genericamente chamado de crônica. Como se diz das doenças: não sendo aguda, é crônica...”

“Escrevo antes de mais nada para mim mesmo — aquilo que eu gostaria de ler. Mas não escrevo só para mim. Nem para meus amigos, nem para meia dúzia de leitores, mas para o maior número de pessoas. Escrevo para me comunicar, e o que me alegra é quando essa comunicação se estabelece.
Só que poucas vezes chego a tomar conhecimento — e essa é uma das aflições de um escritor. Quanta coisa já escrevi que, mesmo tendo sido lida por muita gente, jamais saberei o efeito que causou.”

“Nada mais penoso para mim que a busca da expressão adequada, da propriedade vocabular. Há mil maneiras de dizer uma coisa e só uma é perfeita. Para descobri-la, a gente pode levar a vida inteira. Levei exatamente trinta anos para encontrar o final certo da novela O bom ladrão.
Acredito que escrever seja, basicamente, cortar. Cortar o supérfluo. Eliminar repetições, ecos, rimas, cacófatos, redundâncias, lugares-comuns. Mas principalmente o excesso: (...) é preciso não duvidar da inteligência do leitor. Tenho a impressão de que, ou ele me valorizaria muito, ou passaria a ter por minha literatura o maior desprezo, se soubesse o que ela me custa: aquilo que ele levou alguns minutos para ler me custa dias, meses, às vezes anos para escrever."


*Trechos do livro O Tabuleiro de Damas, Editora Record.