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O guardião da manhã



Luci Afonso


Acordo aborrecida com pequenos problemas. Ainda não fiz a declaração do Imposto de Renda, que sempre deixo para a última semana; minha secretária não está limpando a casa direito e começou a reclamar da ida diária ao supermercado; preciso retomar as sessões de acupuntura para a tendinite, mas não tenho ânimo; o trabalho está um saco; ainda não escrevi a crônica da semana.

Tomo o café sem sentir o gosto e me arrumo com mau humor, antevendo a chatice de enfrentar o trânsito congestionado no Eixão e de procurar uma vaga no estacionamento entupido.

Esqueço que justamente ali me aguarda um ser humano-humano, que tem o dom de transformar meu espírito.

— Bom-dia, madame! - Saúda a voz de samurai.
— Bom-dia, Sr. Pernambuco. - Respondo, já me sentindo um pouco mais leve.
— A senhora tá boa? A família tá boa? - pergunta o sorriso de dentes escassos.
— Tudo bem. E o senhor?
— Tudo bem, graças a Deus.

E, como um sacerdote que acabou de celebrar a missa matinal, profere a bênção que sempre me enternece:
— Deus lhe acompanhe.
— Amém - digo quase com alegria.

Ninguém sabe o nome verdadeiro ou a idade do velho que é o primeiro a chegar de algum setor distante do Plano Piloto para lavar os carros de altos funcionários públicos, geralmente insatisfeitos, como eu. Só faltou ao trabalho duas vezes: quando o filho levou um tiro e quase morreu no Hospital de Base e quando ele próprio foi assaltado e ferido na perna, perdendo parte dos movimentos.

A aparência rude esconde um homem bonito. Imagino-o executivo bem-sucedido, mandando lavar o carro de luxo em algum estacionamento, ou nobre Deputado, atravessando, em terno escuro, os corredores da Câmara e impressionando os ouvintes na tribuna.

Mas preciso dele exatamente ali. Enquanto o guardião da manhã mantiver seu posto, estarei a salvo de angústias menores.