Breakfast



Marco Antunes


Calling you

(Bob Telson)

A desert road from vegas to nowhere
some place better than where you've been
A coffee machine that needs some fixing
In a little cafe just around the bend
I am calling you
Can't you hear me
I am calling you



Era uma estrada deserta entre Vegas e nenhum lugar que me pareceu merecer um nome — e talvez Mojave haveria de ser o sobrenome de qualquer ponto no mapa — se houvesse a possibilidade de encontrar algum no porta-luvas abarrotado de papéis sem ordem (ou motivo de arquivo) sobre trastes com aspiração a lembranças.

Parado no acostamento com os dedos queimados pelo copo de café desproporcional, eu olhava a mulher recostada em meu carro com seu jeans imundo e me perguntava em que limite da solidão eu começaria a usar de algum critério para não dormir sozinho.

O vento empoeirado da estrada sugeria aflito um rumo para os lados da Califórnia, mas a possibilidade de chegar sem mim a algum destino, impressão que oceanos sempre me causam, aconselhava mais vagar.

Um lagarto espreitava a manhã com fome paciente e um caminhão saía do posto tomando ridículo cuidado antes de entrar na via.

Na janela do carona, um menino sonolento colava o rosto contra o vidro, curioso de nós ali parados e pode ser que o pai apertasse a aba do boné a significar uma saudação aos estranhos no acostamento.

Solidão mais silenciosa depois.

O velho frentista guardou o pano no bolso do macacão puído e entrou porta a dentro.

Então, éramos, de novo, eu a mulher cujo nome, se soube alguma vez, me faltava agora, o lagarto e a estrada.

O olhar dela, emoldurado em rugas, não se animava a me indagar de seqüências, mas tampouco parecia conformado ao silêncio de minha vontade.

O lagarto desistiu de nós ou da manhã e sumiu atrás de uma duna.

O café chegava ao fim e a mulher desenhou com o pé um arco na areia.

Agora o sol estava autorizado a queimar forte e começava a trabalhar com diligência.

— O que tem pra lá? – Eu disse apontando a margem esquerda da estrada.
— Cold Creek – Disse a vagabunda sem me olhar diretamente.
— Onde quer ficar?
— Se for voltar a Vegas, me deixe em Big Plantation; se resolver seguir, fico em Indian Spring, a 3 milhas daqui, pode ser?
— Na boa! – Respondi pela metade ignorando a pergunta intrínseca: “O que vai ser?”

Olhei o bustiê nojento que, de noite, cheguei a tirar com os dentes e cuspi para o lado a borra de café com essa lembrança.

O corpo era disforme, desproporcional: ancas enormes, barriga flácida e seios tão exageradamente falsos que me deu vergonha de ter chupado.

O dia seguinte de todas as minhas escolhas tinha sempre a mesma náusea e arrependimento inútil. A dura verdade é que, se quisesse ir a algum lugar, estaria fora de rumo e provavelmente atrasado.

Ter saído do motel sem banho era o remorso mais imediato, porque subia um vapor quente de minha virilha enquanto urinava na areia e, injustamente, me deu ganas de espancar a vadia. “Mulher porca!”, pensei, mas já sabendo que iniquamente.

De cabeça, fiz as contas e parei em cinco mil pilas, que era o fôlego ainda no bolso para essa viagem sem roteiro.

Ela me olhou menos tolerante: queria saber uma direção...

Olhei os dois destinos prováveis e escolhi a solidão mais imediata.
— Vou te deixar em Indian Spring!

Ela balançou a cabeça e entrou no carro. Fingi precisar qualquer coisa na mala e me demorei um pouco mais olhando o letreiro em néon do Bagdá Café, ainda aceso mas onde há muito devia estar queimado o “B”.

Me perguntei se era ali o lugar que inspirou o filme e bati a tampa da mala com força desproporcional e tola, porque, depois de ouvir o barulho, ficou bem claro que não dizia o que eu estava pensando,e, se dissesse, aquela mulher não entenderia...nem a estrada.

Entrei rendido no carro, mas foi então que me surpreendeu uma certa inocência azul de olhos que, se mais nada explicava ou inspirava, contavam um pouco da noite por trás da bebedeira e o mundo pareceu menos mal.

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