Meninas gordinhas



Luci Afonso


Sempre fui perseguida por meninas gordinhas, feias e míopes.

Lembro-me, especialmente, de três.

A da escola primária nunca me deixava entrar na roda do recreio:
— Ela, não!

As colegas obedeciam com medo do punho forte, que derrubava até meninos. Eu me sentava na escada do pátio e comia o lanche. A gordinha, com ar de triunfo, não tirava os olhos de mim. Terminado o primário, ela se mudou da cidade.

A da adolescência tinha uma bunda enorme, que fazia sucesso entre os rapazes. — Fala “chuchu”! - Ela provocava, imitando o biquinho que eu fazia ao pronunciar essa palavra. Todos achavam muita graça. Depois do ginásio, nunca mais tive notícias dela.

Encontrei a terceira gordinha na Comunhão Espírita, onde trabalhávamos como voluntárias. Na primeira vez em que conversamos, ela abriu um meio sorriso e comentou: — Você parece uma freira! - juntando as mãos, como numa prece. Sempre que nos víamos, ela repetia o gesto. Algum tempo depois, ela deixou a Comunhão e nunca mais a vi.

Sempre amei meninas gordinhas, feias e míopes.

Lembro-me, especialmente, de três.

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