Rouxinol, Pombinha e Cotovia


Luci Afonso

Olhou para os quatro cantos do teto, como sempre fazia ao acordar. Fez o sinal-da-cruz da direita para a esquerda, depois ao contrário. Recitou a Oração da Serenidade em voz baixa. Era tarde, o dia já clareava.
— MEU BEM, ESTOU COM SAUDADE. VAMOS NOS VER HOJE? ROUXINOL. - Selecionou os dois números.

Alongou-se, fez a ginástica dos safenados, passou um fax para o Fernando Henrique.

Inclinava a cabeça bem para trás para tomar os remédios dispostos em ordem alfabética no criado-mudo. Guardou o pijama preferido, que sua filha lhe dera de aniversário há 20 anos. Só dormia bem quando o vestia e calçava meias, costume herdado da tia Albertina. Conferiu o cabelo no espelho do banheiro e decidiu que não caíra nenhum fio desde o dia anterior. Ajeitou os poucos que restavam.
— PRECISO DE VOCÊ. ESTOU COM MUITO T... BJS. - Enviou para ambas. Estava a perigo, não conseguiria passar a noite sozinho.

Duas bananas, uma lima-da-pérsia, um iogurte de morango, que ele tomava aos goles, movendo a cabeça rápido como um pombo. Alguém tinha comido o seu queijo.

No elevador, olhou de novo para os cantos do teto. Contou as marquises — oito, como sempre. Em frente à Igrejinha, parou o carro e rezou, de olhos fechados, duas ave‑marias. Só depois se sentiu pronto para começar o dia.

Conferiu a agenda: fazer depósitos, levar o relógio para consertar, buscar o carro do neto na Cidade dos Automóveis. Por último, se desse tempo, passar na sala dos aposentados para saber as novidades sobre as ações na Justiça. Ah, seria bom prevenir uma caixa de chocolates para a noite, ou melhor, duas: licor e menta.

Ao meio-dia, passou na Santo Antônio para chupar um picolé de coco. Teve uma idéia:
— ESTOU DOIDO PRA FAZER AQUILO QUE VC ADORA E QUE EU TB GOSTO. - Ele conseguia levá-las muito além do ponto G, e elas sabiam disso.

Almoçaria em casa, pois sobrara muita comida do domingo. O que não comesse, daria ao porteiro. Aproveitaria para lembrá-lo dos dez reais que lhe devia.

Pôs o jornal em ordem antes de ler. Procurou notícias sobre a Amazônia: por que nenhum avião havia sido derrubado após a Lei do Abate? Estavam escondendo os fatos — escreveria à Presidência da República a respeito.

Antes de cochilar, encostou a vassoura na parede do corredor, para que ninguém o surpreendesse. Os netos lhe davam cada susto! Desligou os telefones, pôs o aviso na porta: “Não perturbe”, tomou meio Lexotan e se preparou para a sesta. Quando acordasse, certamente teria recebido resposta.

Não tinha. Apelou para o último recurso, pois eram quase 5 horas:
— MEU BEM, HOJE É LUA CHEIA. - Ele ficava particularmente inspirado nesses dias.

Nunca falhava. O celular acusou, imediatamente, duas mensagens recebidas:
— ROUXINOL, ESTOU DOIDA PARA VC FAZER AQUILO QUE EU ADORO E QUE VC TB GOSTA, MAS HOJE NÃO POSSO. AMANHÃ AINDA É LUA CHEIA? COTOVIA.
— AMORZÃO, TE ESPERO ÀS 7. ESTOU LOUCA PRA... POMBINHA.

Foi se arrumar, feliz. Pegou os bombons... de menta e apagou todas as luzes antes de sair. Parou um momento na porta, com a sensação de ter esquecido alguma coisa. Provavelmente não era importante... A noite com Pombinha seria ótima! Amanhã cuidaria de Cotovia.

A noite foi um fiasco. Na pressa, esquecera-se de tomar o Viagra.

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