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Mais uma de Helena ou a Pior Idade



Olívia Maia


Ausentei-me da cidade por alguns dias. Renovando a alma e a mente em andanças sem fim. Cheguei com vontade de pegar um cineminha. Sessão da tarde de domingo. Escolhi um filme bem leve — “O último Bandoneon”. Aquele ar gelado da sala não combinou muito bem com o calor amazônico que meu corpo, ainda, sentia. Terminado o filme, fui fazer um lanche. Shopping lembra sanduíches, saladas, sucos... Sentei-me à mesa quando de repente surge Helena, amiga que não via há algum tempo. Convidei-a para se sentar.

— Como estás? - perguntei.
— Estou bem... Não... Não muito... Estou chateada desde ontem. Bom te encontrar, assim, posso desabafar um pouco.

Desabafar! Poxa! Era a última coisa que eu queria ouvir no final de uma tarde de domingo. Depois de um filme cheio de musicalidade, dança e lição de perseverança. Pensei com meus botões: “Deve ser mais uma de suas brigas com o chefe”; coisa muito freqüente no cardápio das narrações lamuriosas de Helena. Enquanto olhava insistentemente para o garçom, verificando se minha salada estava pronta, indaguei:
— Mas que problema é esse que te chateia a ponto de te acompanhar numa tarde de domingo? Não me diga que brigou com o César novamente?
O chefe de Helena era sempre a bola da vez.

Havia esquecido que minha amiga é daquelas conversadoras que amarram um assunto no outro, dando a sensação de que vai perder o ar. Senti que fiz a pergunta errada. Abri a porta. A ladainha se apresentaria, decerto, recheada de detalhes infindos.

— Estou indigNAda! – falou, dando ênfase ao “na”. E continuou: —Estou começando a achar que, nessa era da informática, “futricar” a vida da gente tornou-se natural e legal. - E parou, reticente...
— Como assim? – Provoquei, já que senti que não tinha problemas à vista. No que ela continuou.
— Você imagina que depois que fiz 54 anos começou a chegar e-mail com Propagandas de excursões para pessoa da “Melhor Idade” ou da “Terceira Idade” ou coisa que o valha... Será que essas agências de turismo têm acesso aos Cartórios de Registro de Nascimento?
— Não sei... pode ser que sim... pode ser que não. Mais por que isso te incomoda tanto, a ponto de ficar indignada dessa maneira? - perguntei.
— É que há cinco anos faço terapia. E a questão que mais venho trabalhando é a aceitação da velhice com tranqüilidade e com naturalidade... Falou com ar de bem resolvida
Antes que pudesse comentar que com naturalidade é difícil, já que as idas aos médicos aumentam, a visão começa a “cansar”... Helena continuou.
— Esses folders cheios de eufemismo de Melhor Idade me tiram do sério. - continuou. — Sexta-feira recebi o resultado de uma densiometria óssea feita para averiguar uma dor infernal na coluna, que diagnosticava: “osteoporose densiométrica em L1-L2. Osteopenia densitométrica em L3-L4 e no Fêmur”.

Baixou a cabeça e suspirou profundamente. Ainda bem que minha salada chegou, pois assim pude quebrar um pouco o clima de tensão que se instalava, oferecendo-lhe um pouco da salada fresquinha e colorida. Porém, sem levantar a cabeça, nem mesmo para negar ou agradecer, ela esbravejou:
— Melhor idade é o “cacete”!

Olhei para o lado, verificando se alguém estava a observar o destempero de Helena.
— Meus ossos estão ficando podres, o que me leva a tomar meia hora de sol diariamente, como os bebês. Tive que reduzir as gorduras e as massas por conta do colesterol elevado. Tenho que fazer reposição hormonal para amenizar um calor que parece que estou queimando no fogo do inferno. Para “trepar” tenho que usar a porra de uma reposição hormonal local para evitar um ardor que se assemelha a pimenta malagueta. Pra abaixar tenho que ter cuidado. Pra levantar, a coluna dói!!!! E concluiu, cheia de autoridade:
— Quem chama isso de Melhor Idade não viajou nas asas da imaginação da infância. Não deu beijo no escurinho do cinema, ou atrás do muro, na adolescência. Não contestou, se aventurou, se realizou na fase adulta...

Enquanto Helena falava, pensei em sugerir que assistisse ao filme que eu acabara de ver. Pensei, ainda, em partilhar da minha emoção de ver uma dançarina de tango, do alto dos seus 60 ou 70 anos, sobrevoar os salões com uma leveza tal como a das borboletas de minha imaginação; de ver velhos de 70 e 80 anos dedilhando seus bandoneons com paixão e carinho e com um brilho nos olhos como os de uma criança que acaricia seu presente recebido em noite de natal; do companheirismo, da amizade, da alegria... Dizer-lhe, também, que entendo que todas as idades têm “seus piores e melhores”, mas que certamente, na metade da vida, começamos literalmente a “andar devagar, pois já tivemos pressa”, como disse o poeta, porém...

Helena levantou-se, pegou a bolsa que estava na cadeira ao lado, deu-me um beijo no rosto, e com ar de quem estava realmente na “Pior Idade”, saiu pisando de mansinho, se equilibrando num altíssimo tamanco.

Toc, toc, toc, toc, toc... a idade pedia passagem e se ia.