Papai Sacanoel




Luci Afonso



As luzes de Natal já brilhavam no prédio. Cumprimentou o porteiro com os olhos baixos. Achou-se feia no espelho do elevador.

A secretária a olhou com um sorriso indefinível.
— O doutor já está terminando. Água ou cafezinho? Fique à vontade, vou dar uma descidinha para lanchar.

Teve de esperar um pouco até sair a outra cliente. Estava nervosa, pois não o via há um mês. Ele viajara em férias com a família.

Quando entrou no consultório, ele ordenou, da poltrona:— Tire a roupa e deite-se na mesa. - Sempre começavam assim. Observou-a enquanto se despia e ia se aproximar quando o telefone o interrompeu. Era a esposa.— Oi, querida. Já pegou o carro novo? Estou atendendo a uma emergência. Te ligo quando acabar - desligou, apressado.

— Faz aquela cara safada que eu gosto!
— Esqueci como é - mentiu ela.
— Vou te ajudar a lembrar. Abre a perna. Mais... mais...

Ela estava quase se lembrando: ele segurava seus braços e sussurrava os nomes que ela adorava ouvir, enquanto fazia tremer a mesa com movimentos bruscos.
Ouviu-se uma musiquinha natalina — era o novo toque do celular dele. Uma cliente, aos prantos, queria antecipar o horário de qualquer jeito. Foi pegar a agenda na pasta:
— Hoje não dá, estou cheio! Pode ser amanhã, às 19 horas. Está tomando o remédio? Fique tranqüila.

Sua consulta era às quintas. Queria vê-lo mais vezes, mas ele argumentava:
— Vamos vivenciar a realidade, bem? - Na hora do almoço, ele ligava e pedia que se trancasse no quarto. Nas viagens a trabalho, telefonava de madrugada do hotel, e gostava que ela atendesse nua.

Deitaram-se no divã. A luz batia forte nos olhos dela, a sala sem ar-condicionado estava muito quente. Só restavam 30 minutos.
— Já mandei fazer cara de puta. - Ela fez. Mordeu-lhe a nuca com força, deixando uma marca dolorida que a faria lembrar-se dele até o próximo encontro. Tapou-lhe a boca para que não gritasse. Rolaram, enlouquecidos, para o chão.

Foi quando ouviram a campainha. Esperaram, quietos. Aparentemente, a secretária não voltara do lanche. Depois de alguns minutos, alguém enfiou um papel debaixo da porta. Ele se levantou para ver o que era: convocação de assembléia extraordinária do condomínio.

Faltavam 10 minutos. Atracaram-se no banheiro escuro, e, quando terminou o tempo, vestiram-se depressa. Ele lhe comprara um presente:
— Feliz Natal!
— Você vai passar comigo? - arriscou-se ela.
— Vamos vivenciar a realidade, bem? Abra.

Ela obedeceu, desanimada. Numa caixa de veludo vermelho, embrulhado em papel de seda, um vibrador modelo Ultra Satisfaction, tamanho G, movido a pilha, três velocidades.
— Vamos estrear amanhã quando eu te ligar - disse ele, a voz rouca.

A secretária despediu-se dela com outro sorriso enigmático:— Até quinta.

Não conseguiu se olhar no espelho do elevador nem se despedir do porteiro. Deu a caixa vermelha a um mendigo desdentado, que lhe pedia moedas, e correu em direção ao carro. As luzes de Natal haviam se apagado no prédio.

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