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Probleminha



Luci Afonso



— O seu texto está bom... - ele começou, olhando o relógio.

— Ufa! Ainda bem. O senhor não sabe como precisei criar coragem para vir aqui hoje. Lembrei que era dia de atendimento aos alunos e pensei: “Vou dar uma passadinha lá, não custa nada, ele não morde...” Quando fico nervosa, meu cérebro entra em hiperventilação. Quase desmaio no elevador...

— Desculpe-me, esqueci seu nome...
— Pode me chamar de Jô.
— Pois é, Rô...
— Jô.
— Pois é, Jô, como eu dizia, está bom, só tem um probleminha...
— Deve ser porque não escrevo faz muito tempo. É uma concordância, uma conjugação? Os verbos dão tanto trabalho!
— Trabalho quem vai me dar é você - pensou ele, com um falso meio sorriso.

Ele voltara à sala apenas para pegar a carteira. Tinha um encontro com uma loira maravilhosa no bar de um famoso hotel da cidade. Era uma turista americana, de passagem por Brasília, e com quem antecipava momentos inesquecíveis. Estava bem-vestido, perfumado e excitadíssimo.

Ia fechando a porta quando apareceu a aluna com olhar suplicante, ansiosa para mostrar-lhe o que escrevera sobre o tema proposto na semana anterior.

— Só um probleminha - ele continuou, levantando-se da poltrona: seu texto é esquizofrênico!
— Como? - ela se espantou.
— Esquizofrênico - ele repetiu, com prazer. - O primeiro parágrafo fala de um assunto; o segundo, de outro; e o terceiro chega a uma conclusão que nada tem a ver com os dois primeiros.
— Eu não percebi - disse Jô, desapontada. — É só esse o problema?
— Só - respondeu ele, de novo com o meio sorriso, e encaminhando-se para a porta.

— Como posso corrigi-lo? - perguntou ela, os olhos cravados no mestre, à espera de ensinamentos.
— Nunca mais escreva - ele pensou, conduzindo-a para fora da sala. Enquanto trancava a porta, porém, assumiu o tom didático e aconselhou: — Desenvolva só um tema de cada vez e chegue a uma conclusão, de preferência, lógica.
— Vou tentar - ela disse, humilde. - Depois trago o resultado. Obrigada, o senhor me ajudou muito.
— Foi um prazer. Boa noite, Rô.
— Jô...

Ele se afastou rapidamente em direção aos elevadores. Estava 20 minutos atrasado. Torceu para que a loira não se aborrecesse com a demora. Imaginou a chegada ao hotel, o vinho antes de subir para o quarto, as preliminares — ele até aprendera uns palavrões eróticos em inglês.
— Professor! - Jô vinha correndo atrás dele, uma folha voando na mão.
Ele apertou o passo e entrou no elevador.
— Desce! - gritou ela, fazendo com que o ascensorista a esperasse.

— Professor, esqueci este outro texto, sobre a morte do meu cachorro, o senhor poderia levar para casa? É muito importan... - Não conseguiu terminar a frase. Seu rosto cobriu-se de suor, a respiração se acelerou e ela caiu, desmaiada, nos braços que tanto desejavam a outra mulher.

Quando o elevador chegou ao térreo, a equipe do Departamento Médico já estava a postos.
— Quem está acompanhando a moça? - perguntou o enfermeiro. Ninguém se manifestou.
Recobrando os sentidos por alguns instantes, ela pediu:
— Professor, leve meu texto...

— O senhor conhece a moça? - indagou o enfermeiro ao homem elegante, que fazia menção de se afastar.
— Só de vista. - Quarenta minutos atrasado. Ainda havia esperança.
— Então, me acompanhe ao DEMED, por favor.
— Mas tenho um compromisso inadiável...
— A moça não pode ficar sozinha. Precisamos do senhor até que ela receba alta.

Ele passou algum tempo ao lado da paciente, enquanto aguardavam a família. Quando finalmente chegou ao hotel, a blonde já se recolhera e deixara aviso na portaria de que não queria ser incomodada.

No caminho para casa, esmurrou o volante e xingou os outros motoristas com os palavrões em inglês. No bolso do paletó, levava a estória sobre a morte do cachorro, que prometera ler.

Enquanto isso, Jô, refeita do mal-estar, começava a revisar o texto “esquizofrênico”, para ter o prazer de mostrá-lo ao professor na próxima aula.