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Hipótese diagnóstica




Luci Afonso


Resolvo dedicar a semana antes do Natal a cuidados com a saúde. Primeiro, a consulta com o mastologista, que deveria ter sido em abril. Ele dá uma bronca pelo atraso e faz as perguntas de praxe:
— Ciclo menstrual?
— O último durou 75 dias.
— Não se preocupe, é o climatério. Algum medicamento de uso contínuo?
— Prozac, Lexotan, Tylenol, Buscopan e Dorflex.
— Atividade sexual?
— Moderada.
— Média de orgasmos?
— Um por mês.
— Método contraceptivo?
— Meu parceiro não pode mais ter filhos.
— Vasectomia?
— Idade avançada.
— Atividade física?
— Duas caminhadas este ano.

Ele constata que atingi vergonhosos 86 quilos e me sentencia a perder, pelo menos, dezesseis. Ouço uma extensa lista de doenças causadas pela obesidade: a flebite, por exemplo, dolorosa inflamação das veias que pode levar à paralisia das pernas.

Após o rápido exame de toque e a coleta de material para prevenção, ele me leva até a porta:
— Prazer em revê-la.

À noite, inicio o jejum para o exame de sangue. Não posso experimentar as deliciosas rabanadas que acabaram de sair do forno. Na agradável sala de espera do laboratório, assisto ao depoimento de um casal que engordou 30 quilos — 15 cada um. Graças a Deus, não sou casada!

A simpática enfermeira tem dificuldade em encontrar minha veia e pergunta se a deixei em casa. Finjo achar graça e fecho os olhos para não ver o sangue espirrando. Engulo um cafezinho e um biscoito de queijo e saio correndo para a próxima clínica, no final da Asa Sul.

Dez horas. Mamografia bilateral, suplício inventado para as mulheres que chegam aos 40 anos. A jovem funcionária aprisiona minhas mamas no aparelho de tortura, corre para trás do biombo protetor e ordena:

— Não respire! - Eu obedeço, e, além da respiração, seguro o grito de dor.
— Pode respirar! - A operação é repetida seis vezes, três para cada mama. A moça me dispensa, sorrindo:
— Feliz Natal, senhora! Até o ano que vem. - Daqui a vinte anos, ela estará em meu lugar.

Meio-dia. Ecografia transvaginal. A sala é gelada e a cadeira ginecológica está com defeito: é preciso equilibrar o apoio do pé esquerdo com o calcanhar. Minha perna começa a tremer.
— Não fique nervosa - diz a atenciosa auxiliar.

Sou atendida por uma médica que parece recém‑formada. Após algum esforço, consegue introduzir o aparelho no devido local e visualizar os órgãos do meu aparelho reprodutor. Torço para não precisar repetir o exame.

O retorno ao mastologista é na antevéspera do Ano Novo. Estou otimista: já perdi 200 gramas. Quando a porta do consultório se abre, levanto-me, confiante: qualquer que seja o diagnóstico, eu o enfrentarei como uma mulher madura e equilibrada, que completará 46 anos no mês que vem.