O lugar do escritor*



por Eder Chiodetto


(Entrevista com Adélia Prado)


FILHA DE DEUS

“Acho que o livro é sempre melhor que eu. Estou sempre no encalço do meu próprio livro. Se o acho bonito, quero ser bonita. Quero ser boa e perfeita, igual a ele. Aquela harmonia que suponho conseguir é também a busca da minha harmonia pessoal, da minha vida, enquanto cidadã, filha de Deus aí no mundo. Estou buscando aquilo que o livro consegue antes de mim.”

SEMENTES

“Escrevo à mão, em cadernos, não importa em que lugar da casa. Prefiro o lápis à caneta. É o meu kit poesia. Sempre carrego o caderno, mesmo em viagens, para registrar um episódio, um acontecimento que tenha natureza poético-literária. Sei que é a semente do texto. É meu dever registrar aquilo. É um presente divino que preciso guardar. Pode estar ai o embrião de um poema, de uma prosa, de uma novela. Se você tem um dom, a coisa mais agradecida que pode fazer em relação a ele é aceitar, cuidar disso como um operário. Mas quando o livro fica pronto, costumo queimar todos os cadernos de rascunho.”

MOVIMENTO DA VIDA

“Não separo a mãe e a dona de casa da escritora. Sou uma mulher casada, tenho filhos, casa e escrevo. Tudo junto. Por isso o escritório é a minha vida. Se montasse um escritório, ficaria pateta lá dentro, não teria o que fazer. O movimento do cotidiano é mais importante. A vida está pulsando ali. Vejo criação literária e vida pessoal como um tecido único. Não separo. O livro faz parte da casa, da comida, da experiência, da maternidade, do cotidiano. Também não separo a experiência religiosa da experiência poética.”





*Cosac & Naify Editora, 2002. Fotos e entrevistas por Eder Chiodetto.

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