Entrevista com Marco Antunes*



por Alexandra Rodrigues


É uma hora da tarde de uma sexta-feira de novembro. Marco Antônio Antunes acaba de conduzir o ciclo de poesia, o último dos horários dessa manhã preenchidos com oficinas de conto, poesia e crônica. A despeito da longa manhã literária, mostra-se totalmente disponível e disposto para uma entrevista, na acolhedora sala do Núcleo de Literatura do Espaço Cultural da Câmara dos Deputados, em Brasília.

1. Com uma identidade inseparável da existência literária, quem é Marco Antunes, poeta e contista? De onde ele vem e qual o seu projeto literário?

Quem eu sou não sei te dizer. Eu não tenho essa consciência que a gente vê em Drummond, que consegue, na primeira página do livro, fazer um projeto literário que irá cumprir até o final da vida, a ponto de chegar em seu último livro, colocar o título de Farewell e ser realmente o último livro. Talvez por isso, ao contrário de Drummond, que conseguiu se resumir de pronto em sete grandes temas, eu tenha feito meu projeto em vinte e um grandes temas, que são as Cartas do meu Tarô Pessoal.

Não sei quem eu sou, mas posso te dar algumas dicas: sou uma cara de 48 anos, que nasceu em Petrópolis, no Rio de Janeiro, veio para Brasília muito cedo, e, desde o meu primeiro momento de vida consciente, estou ligado ao teatro e à literatura sempre.

2. O que o impulsiona a escrever? Você acredita em musas inspiradoras?

Não, eu não acredito. Essa é uma dificuldade muito grande que eu tenho quando estou fazendo as oficinas, porque insisto que trabalhar é uma prática; e escrever é uma prática. A escrita é uma coisa que você pode e deve planejar e organizar. O meu trabalho é muito racional, eu não tenho nenhuma espécie de superstição para escrever. Só há uma ocasião na vida em que eu me sinto motivado (uma motivação imediata) a escrever: quando escrevo texto políticos ou estou muito revoltado com alguma circunstância política. O resto faz parte de um projeto muito maior e pensado anteriormente. Eu não escrevo no calor da paixão.

3. Como é o seu processo de criação literária em termos físicos, materiais, psicológicos? Como se programa para a escrita ? E quando ela acontece?

Ela acontece todo o dia, em princípio em uma hora programada: escrevo normalmente entre 4:00 da tarde e 8:00 da noite; este é meu melhor horário para escrever. Não sei se é uma questão de biorritmo, se esse é meu ciclo biológico, mas nessa hora minha mente está clara, eu sinto que posso interferir melhor na minha articulação mental e que não sou sujeito a turbulências; não estou nem tão desperto, naquela profusão de idéias, naquela tempestade mental da manhã, nem tão cansado quanto à noite, que é o momento em que vem mais o sonho, a inspiração, a oração (eu oro quase todos os dias). Esse é um horário em que eu fico num meio termo que me agrada, mas sempre a pensar: hoje eu quero escrever um poema sobre esse tema. E então sento... sento é um modo de dizer, porque às vezes eu ando feito um louco de um lado para o outro, até a achar a forma que desejo para esse poema. Na hora em que eu acho o conceito desse poema, ele vem fácil.

4. Marco, que escritores brasileiros se sentam à mesa com você em seus banquetes literários?

Meu prato favorito é Carlos Drummond de Andrade. Sempre foi e vai continuar sendo por muitos anos. Quando eu penso que estou numa fase em que esgoto Drummond, redescubro por outro ângulo que eu ainda não tinha atinado, um sabor novo que ainda não tinha provado. Vinicius de Moraes foi importante em uma determinada época, em especial a poesia mais social, aquela época do Operário em Construção, Desespero da Piedade. Mas eterno, aquele sabor que é o arroz, aquele que não cansa nunca, é Cecília Meireles. Essa está sempre comigo.

O meu biscoito fino no café da tarde é Guimarães Rosa, que eu mais gosto de ler do que de me inspirar para escrever. Eu não diria que ele seria um pai da minha escrita, não tenho aquela verve de criação de palavras nem nada parecido. Agora, quando eu escrevo prosa, o meu sonho é ser Érico Veríssimo.

5. E com que escritores estrangeiros você toma café da manhã?

Vou-te citar dois que realmente resumem a minha paixão: um é Fernando Pessoa, especialmente Álvaro de Campos, mas também o ortônimo, Fernando Pessoa. E Walt Whitman. Aqui e ali eu vou tomar um refresco de Garcia Lorca, de Pablo Neruda. Teve uma época na minha vida que eu li tanto Pablo Neruda que o meu filho se chama Pablo em função dele. Mas uma figura fundamental na minha vida, no meu pensamento, é Brecht.

6. Na qualidade de Coordenador do Núcleo de Literatura do Espaço Cultural da Câmara dos Deputados você desenvolve oficinas de contos, poesia, crônicas, saraus e outras iniciativas. Como é que a literatura invadiu e passou a habitar uma casa política?

Vou-te dar a resposta mais honesta possível: porque eu quis. Eu trabalhava como chefe de assessoria de liderança de um partido político, um trabalho completamente burocrático. E via que a parte das artes plásticas e da música no espaço cultural se desenvolvia. A Casa respirava uma atmosfera de arte, graças a esses dois núcleos. Então um dia eu me apresentei ao André Amaro (diretor do Espaço Cultural da Câmara dos Deputados), que é um diretor de teatro com quem já tinha trabalhado em oportunidades anteriores, e falei que gostaria de desenvolver um trabalho na área de literatura. Fiz um projeto e ele me trouxe para o Espaço Cultural. Comecei com uma oficina e um ciclo literário que culminava em um sarau literário na Embaixada de Portugal. Já estou no décimo sexto ciclo, dedicado, de dois anos para cá, aos Estados, por ser essa uma Casa que tem representação estadual muito forte. Agora os ciclos vão ser com um autor brasileiro, um compositor e um autor estrangeiro.

7. No programa Prosa e Verso, da Rádio Senado, o ator e professor de literatura transforma-se em produtor e radialista. Qual é a proposta e o conteúdo do programa?

Esse programa é talvez a parte da minha vida de que eu mais gosto neste momento, porque é uma oportunidade que tenho de falar com mais de setecentas cidades em todo o Brasil. Quando penso nesse programa, eu penso no Marco Antônio lá atrás, dando aula no segundo grau, tentando romper uma barreira que os alunos tinham com literatura, por um erro estratégico de, por exemplo, colocar para alunos de segundo grau — preocupados com o que vão vestir no sábado à noite, se vão conseguir dar um beijo na garota ou não — obras como Dom Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas; quando o pobre Machado tinha condições de seduzi-los para que mais tarde, em outra fase da vida, eles pudessem fazer uma abordagem consciente dessas obras, uma abordagem real, vivida. Então, eu lá atrás fui um lutador, mas eu lutava de sala em sala.

Aqui, no Prosa e Verso, eu consigo lutar em muitas salas Brasil afora. Eu acho que o programa é um auxiliar dos professores de literatura de segundo e também de primeiro grau, porque ele usa recursos da radiodramaturgia e a interpretação de dois atores, eu e a Tuka Villa-Lobos, para facilitar a compreensão de determinado texto. A gente tem recebido cartas do Brasil inteiro e o meu grande projeto é distribuir, em parceria com o Ministério da Educação e Cultura, para todas as salas de aula do Brasil, 100 programas que cabem em dois CDs. Já imaginou um professor de literatura lá no Amazonas que, quando vai falar, por exemplo, do quinhentismo na literatura, pode colocar por quinze minutos, ao começar a sua aula, uma interpretação com dois atores falando da carta de Pero Vaz de Caminha ou Pero de Magalhães Gândavo, os cronistas de 1500? E assim nós passamos por todos os estilos, temas, abordagens, o programa é muito variado.

8. Marco, como acontece o escritor, de que maneira você percebe o seu processo de formação desde o berço até à maturidade literária?

Eu não acredito mesmo na palavra talento, me parece meio transcendente, fora da vontade da pessoa. Eu acredito em vontade. Aquela pessoa que quer escrever, que tem esse desejo sincero e que é um bom leitor, em geral se transforma num razoável escritor. Se ele juntar a isso trabalho e a capacidade de livre pensar: isso inclui ter liberdade de pensamento político, não seguir os modismos, ser livre para receber todas as informações que o mundo dá (e o mundo dá muitas). Jamais reduzir literatura a uma coisa tipo gosto, não gosto. Eu provo tudo, não faço cara feia para nada, seja em música, seja em literatura. Tudo me ensina a escrever e também a ensinar. Detesto gente preconceituosa.

Um escritor sem um caldo cultural não é ninguém. Eu acho que uma pessoa que consegue essa liberdade de espírito e tem determinação, em princípio pode aprender a escrever. Aprender a escrever é fácil. Mas o escritor se faz por conta própria.

9. É verdade que o poeta é um fingidor? Como é que se engendra o fingimento poético?

É sempre um fingimento. No momento em que eu estou diante do papel ou do computador, eu estou falando supostamente com uma pessoa que não existe, que é o leitor/ouvinte ideal daquele poema, daquele conto, daquele romance. O que escrevo/falo não é ele que lê/ouve, afinal. Somos todos nós que moram em mim e todos eles que moram nele. E a mensagem será o resultado impossível dessa comunicação quase inviável. Essa é a magia de você poder representar Hamlet mil vezes e mil vezes ser diferente. Os temas são poucos, o resto é a sua capacidade de ver aquela história. Basta dizer que Shakespeare, por exemplo, só escreveu realmente um enredo, Sonhos de uma Noite de Verão. Todos os outros ele se apropriou de enredos pré-existentes. Porque conhecemos Shakespeare? Porque ele conseguiu entranhar melhor o espírito universal dessa personagem.

10. Digamos que ele fingiu mais completamente... Otávio Paz escreveu que as redes de pescar palavras são feitas de palavras. Como você acha que elas conseguem pescar em lugares do indizível?

Eu acho que acreditar na literatura é não acreditar em abstrações. Quando a gente põe em palavras, a gente está tocando, trazendo para o ser humano, dizendo assim: tome, esse é o meu corpo, provai e comei.

Eu acho que cada palavra é como um sabor. Por exemplo, quando era pequeno eu ria muito cada vez que alguém me falava a palavra criatura. Eu achava essa palavra de indescritível graça. Nessa época, na minha terra tinha um coquinho chamado coquinho de catarro. O nome é horrível, mas era um coquinho que você ia roendo e ele ia se transformando num sabor amanteigado muito gostoso. Se eu fechar os olhos aqui, nesse momento, é quase como se me transportasse para as colinas de Petrópolis, onde eu conseguia quebrar o coquinho e comer ainda com as mãos sujas de ter escalado a colina de terra. Aqueles sabores ainda me vêm. Eu acho que com palavras é a mesma coisa: uma palavra puxa outra. Uma sensação logo convida palavras para brincar.

11. Digamos que o poeta vive entre o fingimento, o indizível e a brincadeira...

Eu acho que é só brincadeira. Os verdadeiros escritores e poetas nunca perderam a criança. Quanto ao indizível, é outro conceito que eu tenho dificuldade de absorver. Depois de ter lido Fernando Pessoa e Drummond, eu tenho certeza que tudo pode ser dito, a dificuldade é ser bem dito. Eu preciso, como todo o poeta precisa, achar o sotaque onde eu possa bem dizer.

12. Considerando esse sotaque na literatura brasileira e latino-americana, que percepção você tem acerca dessa literatura no século XXI?

A literatura, especialmente o teatro latino-americano, tem uma força e um vigor monumental. Eu não sei explicar porque é que, em determinados momentos, um gênero floresce; porque é que o teatro americano, no século XX, foi um monumento com Eugene O’Neil, Tennessee Williams, com o monumental Arthur Miller; como em outros momentos foi a poesia na Argentina, a poesia no Brasil nos anos que se seguiram à revolução da Semana de Arte Moderna. Que força foi aquela que agrupou tantos talentos ao redor de uma idéia, como a música popular brasileira no final dos anos 60, início dos anos 70?

Eu acho que o Brasil, nesse momento, vive uma entressafra muito triste. Nada me convence que a poesia brasileira tenha o vigor que teve em meados do século XX. Eu encontro, aqui e ali, expressões monumentais. Encontro aqui e ali um Carpinejar, mas eu não encontro esse movimento em massa, essa desejo cultural que é capaz de mobilizar, de atrair, de ser uma força centrípeta e centrífuga, porque ela precisa reunir escritores e esses escritores projetarem uma nova visão de mundo. Será que é porque a gente está tão desesperançada com a sociedade que está construindo? Ou porque está perdendo a real identidade cultural desse país? Eu não sei, mas adoraria uma segunda semana de Arte Moderna, em que a gente pudesse achar uma rua Líbero Badaró como eles acharam lá em São Paulo e se reunir todas as semanas para pensar, para debater, com espíritos abertos, sem ninguém tentar impor estilo, e repensar o futuro dessa literatura.

13. Para encerrar, uma pergunta acerca de Marco Antunes habitante do mundo: que mundo é esse, que mora em você e você mora nele?

Esse mundo é um contra-senso. Eu vejo o mundo quase tão amargo quanto Brecht viu na sua poesia da década de 40 ou Drummond na Rosa do Povo. Mas, ao mesmo tempo, algo em mim fala de uma incrível esperança no homem. Eu acho que todas as nossas derrotas estão nos ensinando uma vitória muito maior. Quando a gente finalmente aprender que se pode morrer e renascer, que sem ideologias e religiões o mundo vai melhorar... não é sem fé, nem sem ideal, mas sem essa coisa cristalizada de ideologia e religião. Quando a gente conseguir um outro ser humano com menos mentira, com menos conceitos, com menos roupas — não as que ele usa, mas as que nós colocamos — a gente vai fazer estar construindo um mundo melhor. E curiosamente, eu acho que as novas gerações estão aptas a isso.

Eu acho, que, apesar de todos os tropeços, nós estamos construindo um mundo com gente com mais habilidade de dizer mais sim do que não, um mundo com profunda inclusão de todos, em que a gente possa profundamente abraçar sem roupas, sem cristais, sem idéias prontas. E eu percebo nas novas gerações essa vontade. Talvez elas não tenham uma palavra de ordem com a gente já teve um dia. Talvez não ter essa palavra de ordem, não precisar de uma liderança, seja a grande invenção. Eu não gosto de utopias, os seus criadores acabam sacrificando as pessoas reais (escrevi até um poema sobre isso) para que elas possam ir vivendo as suas utopias. O mal das utopias é que você não consegue homens utópicos para viver nelas, mas homens reais. Quando a gente puder aceitar o homem real como ele é, estará construindo um mundo melhor. Paradoxalmente eu acredito que, a passos lentos, a gente está caminhando para um mundo melhor. E vejo o início do século XXI, com toda a tecnologia e todos os problemas ambientais que a gente vai enfrentar, como uma grande oportunidade, porque da crise vai nascer essa sociedade futura. Tomara que a gente saiba aproveitar e que nós, os escritores, saibamos traduzir e convocar os operários da construção dessa realidade não utópica.

*Entrevista publicada na Revista Vagalume em junho de 2008.

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