Preciosa



Luci Afonso

Ando assombrada por dúvidas e aflições e procuro uma amiga para desabafar. Atendendo ao pedido de socorro, ela deixa afazeres domésticos e intelectuais e vem ao meu encontro no 10° andar, onde temos ampla visão do horizonte.

— Um café de queimar a língua, por favor, com umas gotinhas de leite - ela diz ao garçom. Eu peço o mesmo.

É manhã de sexta-feira, reservada para a Oficina de Literatura na qual somos colegas de ofício. Faltamos à Oficina, mas a escrita nos acompanha aonde estivermos. Trazemos na bolsa as últimas palavras derramadas no papel, e que a partir de agora seguirão caminhos diferentes. As minhas viajarão pelo imprevisível mundo virtual, enquanto as dela serão lidas ao vivo para uma audiência privilegiada.
Hoje os textos da amiga falam da água, elemento mágico que nós duas amamos. Navegamos rios e mares antes de entrar no assunto que nos trouxe aqui.
— Como está você, mocinha? - ela pergunta .

Sim, sou mocinha diante dessa humanóloga em estágio avançado. Ela ouve com paciência minhas inquietações e as desfaz, uma a uma, mostrando-me seu significado maior. Escuta meus medos e os dilui na certeza de uma mudança benéfica e inadiável. Empurra-me à frente com uma palmadinha, como uma mãe carinhosa faria com uma criança insegura.

— É seu turning point - observa, com delicadeza.

A conversa substitui meses de terapia, mas precisamos nos despedir porque a amiga tem compromisso ao meio-dia.

— Cuide-se bem, mocinha de colarzinho branco. Você é preciosa - ela conclui.

Observo-a se afastar em direção ao carro e tenho vontade de gritar:

— Preciosa é você, mulher de alma azul! Preciosa é você!

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