Receita






Recolha uma mão cheia de lágrimas e sorrisos frescos. Anote um punhado de pequenas e grandes dores. Registre, em letra miúda, sofrimentos extremos e acrescente uma dose farta de incontroláveis alegrias. Peneire o fermento, misture bem e deixe descansar à sombra.

Junte uma porção de frases inesperadas, como: “Se precisar de mim, não conte comigo”; “Pode ir embora à vontade”; “Como assim, sozinha?”. Adicione uma pitada de sal, outra de açúcar e uma colher de cravos-de-cheiro. Bata até adquirir consistência. Reserve para o recheio.

Apanhe uma série de imagens fugidias. Sugestões: um rapaz de uma perna só, de muletas, que leva uma caixa de engraxate no ombro. Um homem manco que baila na faixa de pedestres. Um velho que se aposentou e passeia sozinho pelo shopping. Uma mulher que perdeu o filho. Um menino que deseja um amigo. Alterne em camadas e cubra com suspiros.

Aqueça vozes solitárias em fogo brando. Pegue uma saudade nunca apaziguada, recorte-a em tiras finas e derrame angústias úmidas em tardes de domingo. Mexa suavemente até o ponto de calda.

Reúna os ingredientes, corte o excesso e leve ao forno preaquecido até dourar. Polvilhe açúcar refinado e decore a gosto. Sirva com delicadeza em porcelana antiga. Rende infinitas porções.

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