O Quebra-Cabeças



Liana Ferreira



As peças tantas vão-se amontoando em minha frente numa desordem monumental e eu me sinto perdido. Ligeiramente tonto, percebo o tamanho da tarefa que preciso executar. Juntar estas peças todas e organizá-las em um quadro perfeito será minha derradeira ocupação e me dedico a esse trabalho com devotamento.


Pegando em cada pedaço, atentamente, vejo descortinarem-se as histórias que vivi e, perplexo, concluo que na maioria das vezes contentei-me em ser coadjuvante onde teria que ser o ator principal. Custo a reconhecer-me em algumas cenas, desconfio de alguns cenários, duvido de algumas imagens. Elas não parecem reais, recriam a mesma coisa inúmeras vezes sem produzir nada de novo, substancial. Montando o quebra-cabeças, persigo a minha verdade e almejo desnudar as ilusões. Temos sempre tantas ilusões acerca de nossas vidas...


Com indisfarçável inquietação revejo o meu passado: semanas, meses, anos, o tempo implacável desfilando diante de mim, soberano, vitorioso. Tento-me concentrar no futuro, mas parece que não há; tudo é passado e, no presente, apenas este imenso quebra-cabeças e minha incapacidade para montá-lo. Vejo as oportunidades desperdiçadas; tanto lixo acumulado. Tenho medo. Sinto frio. Há um imenso inverno dentro de mim. Procuro agasalhar-me, mas das lembranças vem um sopro gélido que me penetra os ossos. Quero desistir, mas não posso. É preciso ter calma, saber exatamente o que fazer em seguida. Vacilante, fico girando ao redor da mesa. Afasto-me um pouco e deste novo posto de observação percebo que há uma tênue opacidade no canto superior direito da figura. Só consegui arrumar os cantos. Já o centro, que é o que realmente importa, permanece balburdiado. Esforço-me para encontrar algumas peças que estão sumidas e aparecem-me outras que já nem mais supunha que existissem: antigas feridas, velhas cicatrizes, acontecimentos mal compreendidos e parcialmente esquecidos, ressentimentos eternos; sombras que correm atrás de mim, incansáveis. Um amontoado de ossos esparrama-se em um canto e seu tilintar agudo fere-me os ouvidos. Martiriza-me porque insiste em me contar todos os meus segredos. Fatos ocultos, tramas, misteriosos enredos tão bem guardados nas gavetas dos meus dias. Tento impedir que minha própria voz se pronuncie e olho ao redor da sala com olhos míopes. Um forte cheiro de mofo invade as minhas narinas. São muitos os cadáveres insepultos, fantasmas que ameaçam me perseguir para sempre. É urgente recolher esses ossos. É urgente que lhes dê uma cova.


Os últimos raios de sol já caíam sobre a tarde e refletiam sua pálida luz nas lápides marmóreas, quando lentamente e em procissão, chegaram todos até a campa aberta. Sem pressa, mas de modo irreversível, os acontecimentos vão-se sucedendo enquanto os ponteiros avançam nos quadrantes do relógio. Até que os coveiros descem o caixão preso por barulhentas correntes e abandonam o morto na mais completa e desoladora solidão.

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