No Restaurante

Liana Ferreira




São vinte e duas horas e o restaurante tem poucas mesas disponíveis para o jantar. É quarta-feira, o coração da cidade bate acelerado e só um ouvido muito atento conseguiria captar as conversas embaralhadas que se multiplicam no recinto. Algumas palavras aqui e ali, misturadas com as de outras mesas, não fazem o menor sentido. Risadas vindas de trás e cumprimentos à chegada forçam-me a virar para olhar e, então, resolvo mudar de mesa. Escolho uma posicionada estrategicamente para que nada fique fora do alcance dos meus olhos.

Na mesa mais próxima, um casal janta em silêncio. Têm aproximadamente 60 anos e muito dinheiro, a julgar pelo vinho que estão bebendo. Comem como se cumprissem uma tarefa enfadonha. Seus olhares, quando se cruzam, muito rapidamente, não deixam transparecer nenhum clima de romance. Mas são casados. Ostentam com orgulho desmedido um par de grossas alianças compradas nessas lojas de preços obscenos. Comem sem pressa. Trituram o alimento entre os dentes, jogando-o de um lado para o outro, dentro da boca, com a mesma maestria com que lidaram com as suas próprias vidas.

Suponho que tenham vindo de Mato Grosso logo após a inauguração de Brasília. Ele deve ter ganho muito dinheiro com a construção civil, enquanto ela se distraía organizando chás beneficentes e cuidando da educação dos filhos. Não parecem felizes, mas com certeza, se tivessem outra chance, fariam tudo igual novamente. Amanhã, depois de assistir à missa, ela passará horas admirando suas jóias, enquanto ele se distrai num quarto de hotel.

Uma sonora gargalhada desvia a minha atenção para a mesa mais ao fundo: sete homens comem e conversam animadamente. Parece que foram moldados em uma mesma forma e fabricados em série, tal a uniformidade de atitudes. Devem ser paulistanos. Portam-se como se entendessem tudo de todas as coisas e falam de assuntos da República como se íntimos fossem do primeiro escalão. É provável que não tenham a importância que tentam aparentar.

Um garçom passa ao meu lado com um balde de gelo e champanhe Veuve Clicquot. Lanço um olhar por todo o salão tentando descobrir de quem é o pedido . Não é difícil. Embaixo da escada há uma mesa na penumbra onde um casal se olha com tanta paixão e desejo que neles há mais brilho do que na garrafa amarela e dourada. A figura do garçom por si só é capaz de imprimir um caráter de importância àquele momento. Esforça-se para servir o champanhe com solenidade, mas sem demora. Sabe que precisa deixá-los a sós.

O tipo físico da moça — ela tem uns trinta e cinco anos — não me permite arriscar um palpite sobre a sua naturalidade. Por isso mesmo vou dizer que é candanga. Mas seu parceiro, sobre este não tenho a menor dúvida: é sergipano. Há no olhar dos sergipanos um-não-sei-o-quê-de-sem-vergonhice que sou capaz de reconhecer ao longe.

Alheios aos enredos simultâneos que se desenrolam no restaurante, entre goles de bebida e roçar de mãos, arrebatados, percorrem um mesmo caminho misterioso de espantos e deliciosas descobertas — ele de tantos outros amores passados e ela que também já fora feliz alguma vez.

Pago a minha conta e, sem pressa, dirijo-me à porta de saída. Lá fora, uma enorme lua solta ilumina a madrugada melancólica. Entre jaqueiras e ipês vou, aos poucos, deixando para trás tantos personagens e suas histórias — agora livres para viverem as suas verdades.

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