Amém!




Ainda estava escuro quando o grito de mulher acordou a vizinhança. Logo em seguida, as batidas frenéticas na janela do quarto:
— Dona Loíde, corre! É o Menino!
Levantou-se assustada e abriu a janela apesar do vento gelado.
— O que foi, Dona Maria?
A cara preta estava transtornada.
— É o Menino! Quebraram as pernas dele! Ele não anda, coitadinho...
Meio tonta, vestiu um casaco e correu para a casa ao lado. Menino estava quieto, em cima do sofá. Parecia dormir. Dona Maria o pegou no colo e o pôs no chão para que andasse. Ele não se mexeu.
— Vem pra mamãe, vem! - Ela disse, agachando-se, mas não adiantou. Pegou-o de novo, com carinho, e tocou suas pernas finas e moles — pareciam realmente quebradas.
— Vamos para o pronto-socorro - decidiu a vizinha, conhecida pelo coração bondoso e pela calma que sempre mantinha em situações de emergência. Vestiu-se rápido e ligou para o ponto de táxi, mas o Sr. Afonso, único taxista na cidade, não acordou do sono profundo.
— Pega a bicicleta, Dona Maria. A senhora vai na garupa. - Enrolaram o Menino num edredom e desceram a ladeira, ainda no escuro, até o centro da cidade. O plantonista também precisou ser acordado.
— Qual é o plano de saúde? - perguntou, sonolento.
— Plano de saúde? Não tem, não, senhor.
— Cartão, cheque ou dinheiro?
— Uai, precisa pagar?
— É claro, dona. Pensou que fosse de graça?
— Pensei, uai. Como é que eu vou fazer, meu Deus? - Abraçou com mais força o Menino, que continuava de olhos fechados.
— Pode deixar, Dona Maria - interveio a vizinha, com a tranqüilidade habitual. — É cheque, moço. Faça o que for preciso - disse, educadamente, ao rapaz no balcão.
O Menino foi auscultado, radiografado e, finalmente, tomou uma injeção com um potente antiinflamatório.
— O que é que ele tem, doutor? Por que não anda? Ele vai melhorar? - quis saber a mulher.
— É só uma inflamação nas juntas, minha senhora. Precisa de repouso e alimentação. Canja de galinha é bom. Se não melhorar, a senhora volta amanhã.
Já estava claro quando as duas mulheres subiram a ladeira até em casa, uma empurrando a bicicleta, a outra, segurando com cuidado o paciente envolvido no edredom.
— Vou dormir mais um pouco, Dona Maria. Dê notícias mais tarde.
— Deus lhe pague, Dona Loíde.
— Amém.
Dormiu não mais que duas horas, um sono leve e confuso. Sonhou que o Menino morrera e era velado num pequeno caixão no centro da sala da vizinha. Preocupada, resolveu preparar a canja que o médico recomendara. Sabia que a dispensa da amiga estava vazia.
Quando chegou à janela, sentiu-se aliviada ao ver que Dona Maria e o Menino assistiam ao programa da Ana Maria Braga — ela adorava as receitas e, ele, o Louro José.
— Como ele está, Dona Maria?
— Parece que está reagindo, Dona Loíde. Até já abriu os olhos!
— Eu fiz a canja de galinha.
— Deus lhe pague.
— Amém.
Depois do almoço, precisou voltar ao centro para pagar umas contas. Na Boa Vista, encontrou, por acaso, sua comadre e sentou-se com ela numa lanchonete para tomar café e pôr os assuntos em dia. Eram tantos e tão interessantes que ela acabou se demorando mais do que pretendia. Sentiu-se culpada, pois Dona Maria poderia precisar dela.
Quando virou a esquina de casa, percebeu um alvoroço. Apressou o passo, com um mau pressentimento. Ao chegar ao portão, parou: Dona Maria, sentada na porta da sala, a cara preta radiante, observava, com orgulho, o passeio do Menino pelos canteiros de couve.
— Vem pra mamãe, vem! - chamou a mulher. Ele veio, as pernas agora firmes, os olhos miúdos atentos, a crista empinada, metade de uma minhoca no bico. A vizinha correu para abraçá-la:
— Deus lhe pague, Dona Loíde!
— Amém, Dona Maria.
Todos dormiram muito bem aquela noite. Na manhã seguinte, ainda estava escuro quando o grito do Menino acordou a vizinhança.

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