Ligeira, sim; superficial, não*




Pelo caráter absolutamente original da crônica brasileira, gênero merecia maior reconhecimento

por Luiz Ruffato

Ainda hoje há certa resistência em compreender a crônica como gênero literário específico. Esse equívoco talvez possa estar assentado num preconceito e num estereótipo. O preconceito advém de sua dupla origem plebéia: nascida nas páginas dos jornais, veículo utilitário e descartável, é cultivada em troca de um salário no final do mês. Nada mais abominável para aqueles que imaginam um ofício aristocrático para as letras... Já o estereótipo é aquele que reduz a crônica a “um comentário ligeiro a respeito de assuntos cotidianos, vazado numa linguagem simples e direta”, como se “ligeiro” fosse sinônimo de “superficial”, “assuntos cotidianos” fossem “irrelevantes” e “linguagem simples e direta” equivalesse a “linguagem pobre e reducionista”.

No entanto, pelo caráter absolutamente original da crônica brasileira, que em seus melhores cultores alcança excelência de estilo e força de transcendência, deveria ser-lhe assegurado um lugar mais digno nos compêndios de literatura brasileira, já que, quando estudada, encontra-se relegada a rodapés ou apêndices secundários. Isso acaba criando situações extravagantes, como os casos de Rubem Braga e Fernando Sabino, entre outros, contrabandeados ambos como ficcionistas menores, quando são de fato cronistas maiores. Essa camisa-de-força teórica deveria ser encarada pelos críticos como um desafio.


Talvez a razão esteja, mais uma vez, com os leitores que, ignorando essas questões, mantêm uma relação apaixonada com os cronistas — basta acompanhar o fenômeno em que se transformou Luis Fernando Veríssimo, cujas recolhas de crônicas sempre alcançam o topo dos livros mais vendidos. Também se pode auscultar o movimento editorial, que cada vez mais tem cedido espaço aos livros de crônicas — a Editora Global, por exemplo, mantém, desde 2003, uma coleção exclusivamente dedicada ao gênero, hoje com 17 autores, que vão desde campeões de venda, como José de Alencar, Machado de Assis, Cecília Meireles e Manuel Bandeira, até autores como Roberto Drummond, conhecido como cronista apenas no âmbito de Minas Gerais. Ou pode-se ainda observar a permanência dos eternos best-sellers, além de Braga e Sabino, Paulo Mendes Campos, Nelson Rodrigues, Mário de Andrade, Raquel de Queiroz.


Historicamente, a crônica brasileira estabeleceu-se no momento em que os jornais adquiriram caráter de empresa industrial, em meados do século XIX, portanto em plena vigência do romantismo. Afrânio Coutinho afirma que a nossa descende diretamente do personal ou familiar essay inglês, inicialmente denominada “folhetim” — palavra que mais tarde iria designar um gênero específico de ficção, publicada em fragmentos periódicos. O hibridismo da crônica, que dialoga ao mesmo tempo com o jornalismo, com a prosa de ficção e com a poesia, é o que dá a nota original ao gênero — sua riqueza ou sua deficiência, dependendo de quem a maneja.

Interessante é que a crônica não conhece exatamente uma evolução, pois os pressupostos do gênero já se encontram nos primeiros escritores que a ela se dedicaram, José de Alencar e Machado de Assis, a partir da década de 50 do século XIX. Eles perceberam de imediato a importância do espaço do jornal como forma de intervenção na sociedade, comentando desde pequenos incidentes cotidianos até os grandes fatos da nação, polêmico o primeiro, sarcástico o outro, nunca descurando ambos da língua. Alencar reuniu os seus escritos em livro, Ao correr da pena, ainda em vida, em 1874. Machado, com sua autocrítica impiedosa, embora tenha escrito perto de 700 textos, reuniu apenas seis no volume Páginas recolhidas, de 1899, além de um “debuxo” autobiográfico, a obra-prima “O velho Senado”. Posteriormente, seus trabalhos foram agrupados em diversos volumes.

Olavo Bilac, mais conhecido como poeta, foi, entretanto, também um badalado cronista no começo do século XX, escolhido para substituir Machado de Assis no prestigioso jornal Gazeta de Notícias. Mas quem forneceu contribuição original ao gênero por essa época foi João do Rio, autor que aos poucos vem sendo resgatado desse cipoal que se convencionou chamar “pré-modernismo” (como no excelente João do Rio, de Renato Cordeiro Gomes). É dele a síntese que melhor caracteriza o gênero — “espelho capaz de guardar imagens para o historiador futuro” — curiosamente seguido à risca por seu desafeto, Lima Barreto (cujas crônicas foram em sua totalidade recentemente reunidas por Beatriz Resende e Rachel Valença). Com o advento do modernismo surge uma geração de ouro na crônica, Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Rubem Braga, Joel Silveira, Raquel de Queiroz, Eneida, Carlos Drummond de Andrade, sucedida por outra não menos importante, José Carlos de Oliveira, Antônio Maria, Otto Lara Resende, Clarice Lispector, Paulo Mendes Campos.

Se não se deve falar em evolução, no sentido qualitativo e cumulativo, como exposto acima, a crônica, entretanto, desinibiu-se, ao longo do tempo, assumindo cada vez mais sua aspiração à permanência. Sendo ainda hoje possível ler com prazer as crônicas de José de Alencar, as de Machado de Assis oferecem, além disso, como toda sua obra, uma verdadeira reflexão a respeito dos costumes e hábitos da sociedade brasileira, atravessando praticamente todo o Segundo Império até a proclamação e instalação da República — reavendo assim seu caráter original de “relato dos acontecimentos em ordem cronológica”. O mesmo ocorre com João do Rio e Lima Barreto, tão díspares e tão complementares, em relação à compreensão do Brasil durante a República Velha.

O surgimento de Rubem Braga, na década de 30, dará um novo fôlego e uma nova diretriz à crônica brasileira. Ombreando-se a Machado de Assis, o capixaba introduziu uma voz personalíssima no gênero, transformando toda matéria objetiva em substância para sua imaginação lírica, explicitada numa linguagem límpida e clássica, que injeta um frescor e uma atualidade impressionantes aos seus verdadeiros poemas em prosa. Esta ousadia emularia Carlos Drummond de Andrade, que, estreando um pouco mais tarde, se tornaria voz e consciência de praticamente todo o período moderno da história brasileira, contribuindo para o resgate da crônica em versos — usada antes apenas pontualmente. E emularia também o bem mais jovem Fernando Sabino, que aproximou ainda mais a crônica da narrativa de ficção, de tal maneira que em sua obra se confundem, enriquecendo-se ambas.

E havendo subversão na forma, não poderia deixar de havê-la no conteúdo. O humor foi definitivamente incorporado, com Arthur Azevedo e Barão de Itararé e seus sucessores, Stanislaw Ponte Preta e Carlos Eduardo Novaes; e os temas, ampliados, como o futebol, na obra do genial Nelson Rodrigues, e a política, no inesquecível Carlos Castelo Branco. Hoje, quase todos os jornais e revistas possuem seus cronistas e até mesmo o mundo virtual da internet ensaia os seus — sinal de sua vitalidade.

Assim, se houver uma conclusão possível para este artigo, seria o de que não há “gênero” menor, mas escritores menores. Como em todos os outros gêneros literários.


*Artigo publicado na revista Entrelivros n° 13, maio de 2006, Duetto Editora
(www.revistaentrelivros.com.br)

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