Bravo!






— Você gosta de Fernando Pessoa? - perguntou a diretora, na porta da sala.
— Adoro! - ele respondeu, olhando-a bem nos olhos, conforme aprendera no curso de Comunicação Assertiva.
— Então, conto com você no sarau hoje à noite.
— Com prazer. - Ela saiu, satisfeita, para convidar os demais funcionários.
O cargo de Chefe de Recursos Humanos estava em aberto e ele era o mais bem cotado para assumi-lo.

Certificou-se de que a diretora se afastara antes de abrir a Internet. Desanimou com o número de ocorrências para “Fernando Pessoa”: 2.810.000, em várias línguas. Um simples cantor de fados? Acessou a Wikipédia e, para sua surpresa, descobriu que não se tratava de um cantor, e sim de um grande poeta português. Tentou fazer algumas associações: Pedro Álvares Cabral, piadas de português, dentistas brasileiros... Não foi além disso. Imprimiu a página para ler durante o almoço e talvez decorar as informações mais importantes.

Já estava no corredor quando se lembrou da outra palavra que desconhecia. Devia ser importante: 1.110.000 ocorrências para “sarau”. Teria a ver com saúde? Imprimiu o verbete e guardou-o no bolso. Seria preciso abreviar a refeição para conseguir ler tudo. Logo hoje que não comera nada pela manhã! A placa com seu nome na porta da Chefia de Recursos Humanos valia o sacrifício.

Às 19 horas, o novo auditório ainda estava vazio, mas parte do elenco já estava a postos no palco decorado com mesas, velas e um grande retrato que, orgulhoso, reconheceu ser de Fernando Pessoa.

Sentia-se cansado e sonolento. Geralmente, a esta hora já estaria descansando no sofá de casa, enquanto a janta ficava pronta. Hoje, entretanto, precisava não só assistir ao espetáculo, mas também impressionar a diretora. Observou-a tomar assento na primeira fila, correu para sentar-se ao seu lado e tirou discretamente do bolso do paletó as anotações que fizera.

— Obrigado pelo convite - disse-lhe. Adoro saraus!
— É mesmo? Você vai a muitos? - ela quis saber.
— Não perco um, ainda mais agora que estão se proliferando no país inteiro!
— São um alimento para a alma - afirmou ela.
— É verdade. Sabia que o primeiro no Brasil foi realizado em 1750, em Minas Gerais, pela Academia dos Renascidos?
— Eu não sabia! Que nome sugestivo, não?

A conversa foi interrompida por um estrondo: uma das atrizes tropeçara num buraco escondido pelo novo carpete e dera de cara no chão. O tombo não teve conseqüências maiores, apenas o rosto inchado, que exigiu a aplicação de uma bolsa de gelo durante o evento.

— Então, Pessoa ou Camões? - ele disparou, mudando de assunto. Precisava aproveitar bem o tempo.
— Difícil dizer - respondeu ela, agradavelmente surpresa com a cultura demonstrada pelo colega.
— Se tivesse vivido outros 47 anos, hein?
— É mesmo. Imagine o que teria produzido!
— Você acha que a mudança para a África do Sul influenciou sua obra? - indagou ele.
— Claro! Foi onde ele aprendeu a língua inglesa.
— "I know not what tomorrow will bring... " - recitou com a pronúncia caprichada adquirida na Thomas.
Ela o olhou comovida: — A última frase do grande poeta...
As luzes piscaram duas vezes. Precisava se apressar.
— Campos ou Caeiro? - continuou, após consultar as anotações.
— Caeiro, definitivamente.
— Também acho! O guardador de rebanhos...
Antes que pudesse concluir a frase, as luzes se apagaram. Na abertura foi declamado um extenso poema. Notou que uma das atrizes mantinha os olhos fechados, extasiada, o rosto ligeiramente levantado para o lado esquerdo. Ele adotou a mesma postura, aproveitando para cochilar um pouco. Foi despertado com as palmas, às quais juntou as suas, gritando com veemência: — Bravo!
— Este poema sempre me emociona - disse, enxugando os olhos úmidos de sono.
— A mim também - concordou ela.
Poemas e músicas se sucederam sem que ele tivesse tempo de demonstrar outros conhecimentos anotados durante o almoço. Nos textos maiores, fechava os olhos, inclinava ligeiramente o rosto, simulando êxtase, e tirava um breve cochilo, que ninguém notava e do qual sempre era acordado pelas palmas. Por coincidência, o último e longo poema era do heterônimo Alberto Caeiro, sobre o qual copiara uma provocativa observação de um estudioso da obra de Pessoa. Desta vez, cochilou um pouco mais profundamente. Ao sentir um leve toque no ombro, irrompeu em palmas e disse, com um meio sorriso:
— Era preciso mesmo matar Caeiro?!
A faxineira olhou, assustada, aquele homem que aparentemente passara a noite no auditório e acordara dizendo coisas incompreensíveis, a baba escorrendo do canto direito da boca.

Ele correu para o salão, na esperança de ainda encontrar os outros no coquetel. No escuro, prendeu o pé no buraco do carpete e soltou um grito de dor. A perna engessada o impediu de assistir à posse do novo Chefe de Recursos Humanos.

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