O cabeleireiro fiel



Luci Afonso

— O senhor está na fila do pão? - ouço atrás de mim.
Ninguém responde.
— O senhor está na fila do pão? – uma jovem morena me cutuca o ombro.
— Não, estou na dos salgadinhos - digo, virando-me na direção da voz.
— Ah, me desculpe, eu pensei...
Sinto-me o alvo de olhares curiosos na padaria cheia. Desisto dos salgadinhos e volto para casa.

— Quem é o novo morador? - pergunta o síndico ao porteiro, ao me ver entrar no prédio. Não dá tempo de ouvir a resposta.

— Nossa! Ficou... ficou... - gagueja minha mãe ao abrir a porta. Dirijo-me ao quarto, mas, no caminho, enfrento o olhar reprovador do meu filho adolescente:
— Por que você fez isso, mãe?

Tranco a porta, pego o espelho de mão e confirmo o que vira um pouco antes no salão: de costas, pareço um homem musculoso, de ombros largos, cabeça comprida e ovalada. Poderia até ser confundido com um militar, por causa da jaqueta verde. Conto até três e me olho de frente. Os seios grandes não deixam dúvida quanto ao gênero feminino, mas o cabelo quase raspado e os traços fortes de caucasiana suscitam indagações quanto à orientação sexual.

E tudo por culpa de um coiffeur raivoso.

Conhecera Xiquinho há quase vinte anos, no condomínio onde ele morava com a mãe e no qual eu passava fins de semana. Ele fazia um delicioso doce de jaca, colhida no próprio quintal, e delicadamente me levava uma porção. Ele bordava, pintava quadros e criava animais exóticos. Era também cabeleireiro.

Desde o início, ficou maravilhado com meu cabelo, segundo ele, de tonalidade e textura raras, e me convidou para ir ao salão onde trabalhava. Aceitei o convite e saí extasiada com o resultado obtido pelas mãos do artista.

Nunca mais procurei outro. Xiquinho mudava muito, mas eu conseguia o novo telefone ou endereço e ia atrás. Aos poucos, fui aparando o corte longo, sempre contrariando meu mágico capilar:
— Não faça isso, lindinha. Eu adoro seu cabelo!
— Fica mais jovem! Pode cortar - eu insistia.
Quando chegamos ao Chanel, ele pediu:
— Vamos deixar crescer, lindinha! Sinto tanta falta...
Não atendi ao seu apelo. Eu estava mais velha, ganhara peso e ouvia em toda parte que o cabelo mais curto rejuvenescia.

Finalmente, decidi radicalizar:
— Quero bem curto e repicado - pedi a Xiquinho, assim que cheguei. Ele parecia aborrecido e não fez nenhum comentário. Pegou a tesoura e começou silenciosamente o trabalho. Sentei-me de costas para o espelho, enquanto a manicure me atendia.

Daí a pouco senti um friozinho na nuca.
— Não está muito curto? - perguntei, sem obter resposta. Tentei virar a cadeira, mas ele a prendeu com o pé e continuou a cortar, agora no topo da cabeça. De repente, a tesoura parou. Xiquinho me pôs frente ao espelho:
— Está radical, lindinha, ou quer mais? - E subiu correndo as escadas, num soluço histérico.

Passei o dia no quarto, esperando que minha sobrinha trouxesse uma bandana maneira para eu usar na rua. À noitinha, o porteiro trouxe uma encomenda deixada na recepção. Dentro da caixa forrada com tecido estampado, encontrei uma tesoura, mechas de todos os tamanhos do meu cabelo e um bilhete: “Perdoe-me, lindinha. Não consigo viver sem ele”.

Xiquinho nunca mais foi visto num salão de beleza.

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