Mutilação Ortográfica


Antônio Cardoso Neto

Algum tempo após a independência dos Estados Unidos, Noah Webster concebeu um dicionário da língua inglesa sem se importar com os ditames britânicos, voltado para o povo da nação recém-nascida. Desde então, os Estados Unidos adotam oficialmente uma ortografia soberana, independente da usada na Inglaterra. E isso nunca os impediu de lerem as versões originais de Joyce, Dickens e Shakespeare, nem constituiu qualquer estorvo aos súditos de Sua Majestade ao lerem Faulkner, Poe e Twain. A reforma ortográfica da língua portuguesa, recém-imposta, é uma demonstração de que não somos “macaquitos” imitadores de gringos, e que a nossa independência da Europa é diferente da dos ianques. Ainda somos meio portugueses.

Esse negócio de acabarem com o acento do substantivo vôo não é nada mais que a admissão oficial de que, na prática, há muito tempo que os vôos não possuem mais assento, pois ainda vai chegar o dia em que “acento” e “assento” terão a mesma grafia.

Alguns hífens acabaram de uma vez por todas; ninguém os pronunciava mesmo. Deviam ter acabado com todos os hífens restantes para podermos adotar o portunhol de uma vez por todas; afinal de contas, não se escreve Merco-Sul, Mercossul nem Mercoçul, e mesmo assim ninguém chama o Mercosul de Mercozul.

Como a conjugação do verbo “parar” na terceira pessoa do presente do indicativo perdeu o acento, vejo-me obrigado a escrever “pra” no lugar da preposição “para”, o que, de certa maneira, aumenta o meu vocabulário. Deviam ter dado um fim em todos os acentos, pois não fazem a menor falta. Depois que acabaram com o acento da Petrobras, alguém a chama de Petróbras?

O trema foi definitivamente extinto. Os senadores que aprovaram a reforma poderão, finalmente, dormir trankilos, como já costumam dizer alguns deles. Parabéns!

Mas o maior motivo de exultação pela reforma ortográfica é o seu caráter popular, pois, finalmente, o Ká, o Dabliú e o Ypissilône estão de volta, para grande júbilo do Wandekleyton, do Klysterwaldo e dos jogadores de futebol em geral, além da (por que não?) Comadre Sebastiana. Este será um grande ano para as letras; principalmente para o K, o W e o Y.

***

Em diversos livros sobre lingüística, consta que o italiano é o mais regular de todos os idiomas europeus. Regularidade, nesse contexto, significa quão adequada é a escrita à fala. Em outras palavras, é uma medida que indica o número de exceções na pronúncia; quanto mais regular, menor o número de exceções. Acredito que é por ser uma espécie de latim sedentário, que o italiano acabou sendo a língua mais apropriada ao sistema de escrita criado pelos romanos. A Itália é o império romano que não parou de decair até hoje, mas isso é outro assunto do qual podemos falar outro dia.

Vivi por mais de quatro anos na Inglaterra e pude constatar a dificuldade das crianças em serem alfabetizadas em uma língua na qual não há regularidade entre fonética e grafia.

Pois bem. Embora com menos exceções que o inglês (e mesmo que o francês), o português também tem um número muito grande de exceções (exame, sexo, xadrez). Para piorar um pouco mais, uma das raras regras sem exceção foi para o quiabo recentemente, quando o presidente da república assinou o decreto que estabeleceu as novas regras ortográficas da nossa língua. Para quem gosta de ler, foi uma tristeza ter de se despedir do trema. Sei que para quem não gosta tanto faz, mas as pessoas têm de, pelo menos, saber o conteúdo do que estão assinando.

Não vou respeitar a nova ortografia. Continuarei escrevendo as minhas coisas do mesmo jeito que sempre escrevi, pois sou engenheiro e escrevo por puro diletantismo. No entanto, por ser servidor público, terei de escrever os documentos oficiais que me caem às mãos de acordo com a nova ortografia. Toda vez que eu for obrigado a suprimir o trema, lembrar-me-ei do dia 29 de setembro de 2008, mas não como sendo a data da grande queda da bolsa de Nova Iorque.

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