Sopa de pedra



Luci Afonso

Quando cheguei ao foyer, ouvi o celular.
— Você vem? - perguntou a voz inconfundível.
— ...?
— À Embaixada, ora pois! Vão servir daqui a pouco.
— Servir o quê?
— A sopa! A sopa de pedra!

Senti grande desânimo e sentei-me para continuar a conversa.
— Não recebeu meus e-mails? – insistiu a amiga. — Reservei nossos lugares. São apenas cem convidados.
Meu correio eletrônico estivera estranhamente vazio nos últimos dias. Só agora me dava conta de que havia algum problema.

Há um ano eu ansiava provar a lendária iguaria da região de Almeirim, temperada com feijões, lingüiças, salames e chouriços. Na degustação literária, escritores famosos vindos especialmente de Portugal recitariam suas obras.
— Não posso ir - expliquei a situação. — Amanhã me conte como foi.

Compromissos são sagrados. Entre os inúmeros eventos culturais que agitavam a cidade, havia a peça de uma conhecida poetisa, somente naquele final de semana. Recebi o convite inesperado e aceitei sem hesitar, já que perdera outras oportunidades.

Ao saber da sopa, porém, não achava mais o programa tão interessante. Eu sentia o cheiro nas panelas antes de passar aos pratos, em conchas reluzentes.
Pensava numa boa desculpa para me evadir quando a mão suave tocou meu ombro:
— Vamos, querida? - A outra amiga havia chegado e me empurrava em direção à porta.
— Você sabe quanto tempo dura? - perguntei.
— Três horas.

Não desisto facilmente. Calculei que, pouco depois de começado o espetáculo, eu fingiria um mal-estar, iria ao toalete e de lá escaparia rumo à Embaixada. No caminho, enviaria uma mensagem de texto para evitar preocupações.

Alguém teve a idéia de se levantar primeiro. A artista interrompeu a fala, mandou a equipe técnica focalizar os holofotes na figura que subia rapidamente as escadas e indagou:
— Aonde a senhora pensa que vai?
— Ao to...a...le...te... - gaguejou a fugitiva.
— Xi...xi ou co...cô?

A moça não respondeu e voltou trêmula à sua poltrona, sob as gargalhadas da platéia. Temendo ser alvo de repreensão semelhante, desisti da fuga e fiquei quase imóvel.

Nos primeiros 60 minutos, ainda sentia o desejo de tomar a sopa, mas diverti-me com determinadas cenas. Após duas horas, esqueci-a completamente e prestei atenção às minhas pernas, que começavam a inchar por falta de circulação. Na eternidade que se seguiu, deixei de sentir o corpo cintura abaixo, não entendia o que era falado no palco e passei a rezar pelo fim do suplício.

Minhas preces foram atendidas à meia-noite em ponto. Levantei-me devagar, caminhei lentamente até a saída, amparada pela multidão, e, após despedir-me, fui mancando até o carro. Em casa, massageei as pernas com Gelol, tomei Dorflex e deitei-me, confusa e dolorida.

No pesadelo que me atormentou a noite inteira, eu segurava um prato vazio e mancava atrás do garçom, enquanto era perseguida por holofotes e por uma voz feminina que gritava:
— Aonde a senhora pensa que vai?

Fui acordada pelo telefone:
— Você perdeu! A sopa estava deliciosa e o recital, maravilhoso!
— Quando vão servi-la novamente?
— Ouvi dizer que foi a última vez. Parece que sai muito caro trazer os escritores e os ingredientes de Portugal. Como foi a peça?

Não encontrei palavras para responder.

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