De barriguinha pra baixo




Luci Afonso


Após muita insistência, Nalva me convencera a visitar seu amigo Olorico Barbosa, terapeuta naturalista. Conforme a massagista me explicara, ele era hidrologista, quilopata e natopata, isto é, atuava no diagnóstico da íris, destravamento da coluna e controle de peso mediante tratamento fitoterápico.

Fiz devagar o longo trajeto a Taguatinga logo de manhã. Quando preciso ir ao médico ou dentista, é um marca-remarca interminável. Dado o passo inicial, porém, sou a melhor das pacientes: obediente, assídua e fiel até a morte.

O verdadeiro nome de Nalva, eu acabara de descobrir, era Norvina (o pai, grande pescador, assim homenageara o peixe favorito). Ela já me aguardava no consultório decorado em tons de verde. Uma íris enorme nos observava na parede principal e outras menores espiavam de todos os cantos.

Fui apresentada a um moreno baixo e forte, de cabelo preto liso, parecido com o presidente boliviano, Evo Morales.
— Estou um pouco nervosa.
— Fique tranqüila, paixão - disse ele com leve sotaque. Você está em casa.

Olorico viera do Uruguai para o Brasil ainda criança. Crescera numa fazenda, onde aprendera a lidar com ervas medicinais. Já na cidade, trabalhara como alfaiate durante muitos anos, até descobrir a vocação de terapeuta naturalista. Fizera vários cursos na área, e sempre os repetia, para fixar melhor o aprendizado. Suas clientes eram sua paixão.

Na sala de exames, ele diagnosticou:
— Você precisa perder uns oito quilos, cinco de barriga. Você é uma mulher bonita, paixão, não uma coroa barriguda!
— A alta estima é importante - completou Nalva, segurando minha mão.

Em seguida, minha íris foi projetada na tela. Olorico gentilmente congelou a imagem por alguns segundos para que eu a fotografasse com o celular.
— Você sofreu um trauma antes de nascer, paixão. Seu pai brigava muito com sua mãe.
— Traumatismo craniano - emendou Nalva, acariciando meu cabelo. — Eu já suspeitava, mas não quis falar.
— Agora, deita ali de barriguinha pra baixo - mandou Olorico. — Desabotoe a calça.

Obedeci, com medo. Eu ouvira dizer que o destravamento da coluna era um processo muito dolorido.
— Suas pinças estão tortas - informou ele.
— Da coluna? - perguntei.
— Não, da calça.
— A costureira deve ser muito porca - opinou Nalva.
— Eu mesma fiz. São provisórias – desculpei-me, quase sem voz, pois Olorico montara em minhas costas e forçava meu pescoço para trás e para os lados, com movimentos bruscos.

— Segure os braços dela e dê uns trancos - ele ordenou à amiga, enquanto fazia o mesmo com as pernas. Ambos me esticaram até ficarmos exaustos.
— Você é musculosa, paixão. Difícil destravar. Volte semana que vem.

A consulta e os remédios custaram muito acima do valor previsto por Nalva, que ganhava comissão do amigo terapeuta.
— Estou muito orgulhosa de você! - ela disse, acomodando-me no carro.

Fiz devagar o longo trajeto à Asa Norte, satisfeita por ter rompido mais uma barreira. O corpo doía até os pés, mas a alta estima estava lá em cima.

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