Para, enfim, me deitar na minha alma*



Cinthia Kriemler



Narciso me fiz, ou nasci assim... Certo mesmo é apenas que somos vaidade e desejo, de uma coisa só, de tantas coisas... Somos carne, ou só espelho?

Se eu conhecesse o medo, talvez pudesse nomear a sensação que me toma quando essas portas se abrem. Um a um, a dois, em bando eles adentram e iniciam a profanar o que não entendem. Não há consentimento. Defloram.

O desaforo que o trabalho quase arqueológico de Vanessa, minha marchande, recebe dessa turba é nauseante. Ela passa meses pesquisando e escavando prédios antigos para assentar neles minhas exposições de forma tão magnífica. E sempre encontra lugares de boa fortuna. Desta vez, por sinal, ela se superou. As colunas dóricas da sala principal são magníficas! Lamento por mim, lamento por ela que o destino de tanta maravilha seja uma reunião de bárbaros.

Eu não posso impedi-los de entrar, de percorrer, de perguntar. É imprescindível que os receba, que os entenda, que perdoe a ignorância com que deitam seus olhares e sorrisos sobre as minhas formas de argila, madeira, ferro. Eu e minhas criaturas somos unos, indivisíveis. Eles são fragmentos desarmônicos.

Como é possível ter que compartir meu resplendor com esses imprestáveis que fazem do templo um mero passeio de trajes e elegâncias? Apenas vez ou outra encontro uma alma que me reverencia. No mais, apenas vendilhões.

Vanessa insiste em que eu me civilize mais. Que eu pare de implicar com as pessoas. Que eu abandone as frases secas pelas conversas intensas. Ela persiste na idéia de que para seduzir essa amante ingrata, que é a sorte, eu preciso negociar diálogos. Mas eu não sou desses aparvoados que vomitam palavrórios frouxos sobre suas obras. Não reproduzo com meus dedos intensos nem a tristeza de amores perdidos, nem paixões inacabadas, nem homens ou mulheres que habitam o meu éter. Não me importo com isso, são banalidades fracas. Minha obra sou eu. Completamente e tão somente eu. Eu sou a argila permeável, o ferro incandescente. Quando esculpo, sôfrego e entorpecido, é minha essência em cada busto, é minha ânsia em cada entalhe. Por isso, só o que espero de um olhar é devoção, adoração, contemplação.

— Quanto tempo demorou para fazer esse busto? - me pergunta uma voz masculina empostada.

Pronto, começou! Eis o primeiro que descumpre o caminho e vem direto a mim. Ele não quer saber do busto, quer vir até mim e me bajular com lisonjas! Ensaiou essa frase, por certo, desde a porta.

— Talvez uma quinzena...um mês no máximo - respondo sem pensar se a resposta é precisa.
— A sua obra se inspira em quê? - insiste o dono da voz.

Estou sendo cortejado mais uma vez! E o que mais me enfada no flerte inconseqüente não é a cantilena monótona que repetidamente acontece durante as minhas exposições, mas a sucessão de homens que oferecem a mim seu sexo empobrecido. Nenhum deles ofertou sua volúpia ao barro, à areia, ou ao metal que expus despudoradamente nestas salas! Se o fizessem, não precisariam vir a mim...eu já estaria neles, e seria eu a arrastá-los para fora dali para entregar-me como oferenda. No entanto, os que me ocupam as noites são hienas sorrateiras: sua avidez é pelos restos. Os suspiros de gozo que escuto no meu leito são gemidos de bestas que me afastam da beleza que sou, da beleza que crio.

No avançado da hora, quando o ressonar substitui as carícias, me esforço em moldar os corpos desajeitados que me acompanham. O negrume do quarto, que impede a visão de ter certezas, é minha desculpa para esquadrinhar com as pontas dos dedos cada pedaço de carne. Depois, antes que o sol venha me fazer homenagem, eu deixo a febre se apossar de mim e passo horas, ainda na escuridão, repetindo em substâncias o ato retido em minha mente. Não há nos corpos a menor essência do belo. Sou eu que filtro para a perfeição a vulgaridade enfadonha das feições. Na verdade, nem preciso deles.

A conversação já foi longe demais por esta noite. Hoje, não admito mais máculas. Peço licença e me afasto do pequeno grupo que já começa a formar-se. São outras perguntas, outros rostos inexpressivos, outros ignorantes. Mas onde está Vanessa? Talvez por aí, envolta com pessoas. Sempre guardiã das minhas belezas.

Escapo do ambiente sufocante para percorrer os corredores do casarão. Em cada sala, meu eu se espraia em triunfo. Não há melhores. Tudo é excelência. Não sei por que ainda exponho minha criação aos indivíduos, por que desperdiço meu tempo permitindo a esses pretensiosos julgar e poluir as minhas formas. Eu sou irretocável.

Vanessa me prometeu uma surpresa no último cômodo da mansão. Pediu que eu me deslocasse até lá lentamente, para saborear melhor o inesperado do presente. Agora, é hora de consumar a expectativa.

Na entrada do salão, que ainda está às escuras, um homem de terno, impessoal e casual, me recebe.

— Acendo, senhor? - me pergunta ele respeitosamente.
— Acender?
— As luzes do salão, senhor.
— Pode acender....não, não espere um pouco...eu quero ficar um pouco no escuro.

Ah, os homens de terno treinados como eunucos! Obedecem, poupando as emoções inúteis.

Finalmente me sinto relaxado. Somos eu e a penumbra. Eu, a penumbra e as silhuetas irregulares das formas que daqui a pouco serão invadidas pela turba que se arregimenta. Enquanto aguardo, meu toque encontra asperezas, saliências, contornos, relevos. E meus dedos fazem amor com as substâncias, consumando deleites.

E então, um súbito acontece! As luzes se acendem sem que eu tenha ordenado ao homem de terno, e uma sensação pior que a proximidade dos visitantes me esbofeteia. Espelhos imensos refletem a minha criação por todo o salão. Esplêndidos! São formas que me abraçam, acolhem, aninham.

Cada superfície reproduz mais que o tom da minha obra! Fui excedido! Olho as imagens de gesso, argila, ferro e as enxergo melhores, mais iluminadas, mais vivas. Como se atrevem a mais beleza do que a beleza que eu lhes permiti? Os espelhos me sobrepujam, elevam minha obra acima de mim, não me querem mais o senhor das formas!

Vou destroçar esses vidros arrogantes e reduzi-los a pedaços cortantes! Não me importa se interrompo, assim, a visitação indesejada. Nada do que é meu escapa de mim! Não vou permitir superação, nem consentir que a platéia desvie o seu olhar de mim ou da beleza que pratiquei aqui! Ninguém vai desprezar-me por espelhos! É a mim que buscam. É a mim que cultuam. Sou mestre, sou obra, sou guia para os seus olhos míopes!

Minhas esculturas promoveram o meu suicídio.

— Ingratas, ingratas, ingratas! - grito a cada uma em seu reflexo.

Pois que morram assim, apenas refletidas. A mim não induzem à morte!

Viro-me aos espelhos, desafiante, e olho o inimigo nos olhos, mas... que inesperado... há um reflexo dedicado a mim e que me captura sem embate, e me convida a mergulhar na luz, e a gozar, e a repetir o gozo. A superfície polida me prende, me apreende, mas me devolve intacto e frontal, invertido e límpido... só não mais igual.

Toco o homem do espelho e retraio lentamente o braço em direção ao meu rosto. Faço isso repetidas vezes. Como somos perfeitos, o de carne e o refletido!

Depois que me apaixono pela beleza desse eu multiplicado, minhas mãos se desvencilham da vergonha e, repletas de vontade, buscam o resto do meu corpo pulsante. A beleza que sou, homem ou imagem, me desacanha os prazeres, e o impudor é consentido. Na pele e no espelho.

Não necessito mais paixões na escuridão. Enfim o amor, visível, fulgurante veio se prostrar perante mim para doar-me devoção, adoração, contemplação. Entrego-lhe o meu ápice, em rigidez e fluido. E é de morte o gosto perfeito que me saliva a boca.

Tranco a porta. Quero morrer em todos os reflexos.

E quando eu estiver exausto de morrer, que a superfície de luz se faça céu. E me deixe ascender para, enfim, me deitar na minha alma.


*Prêmio de Melhor Conto no 1° Desafio aos Contistas promovido pelo Núcleo de Literatura do Espaço Cultural Zumbi dos Palmares da Câmara dos Deputados em 2007.


Imagem: "Narciso", 1881, óleo sobre tela do húngaro Gyula Benczúr

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