As lições de outros escritores*


As manhas, as espertezas, os pulos-do-gato estão nas páginas dos grandes livros

por Geraldo Galvão Ferraz



Pode parecer um lugar-comum, mas é verdade verdadeira: a única arma que se pode usar para aprender a escrever é ler, ler muito. As lições que se tiram dos textos dos escritores que vieram antes de nós são inúmeras e valem a pena.


O escritor iniciante, por mais talento que tenha, se depara com obstáculos que parecem intransponíveis. Até mais do que no futebol, a inexperiência torna os movimentos desarticulados, faz o praticante gastar esforços inúteis, deixa-o sem ação diante dos problemas. Muito disso pode ser evitado com o uso recorrente da leitura. Aprende-se como tal diálogo foi resolvido, como uma seqüência de ações chega a um final satisfatório, como a mocinha faz para escapar do vilão e cair nos braços do seu amado heróico. Ler, ler muito, ensina alguns truques do ofício de escritor. Por isso é que todo escritor profissional já revelou que lê muito. Claro, há aqueles que querem apenas ver como anda a concorrência...


Num mundo marcado pela correria, algumas pessoas acham que a leitura é uma ocupação ultrapassada, que demanda tempo demais. É besteira, claro. Ainda mais para você que deseja escrever para ser lido.


E, acredite, as manhas, as espertezas, os pulos-do-gato estão nas páginas dos livros. Os mistérios da escrita foram, são e serão enfrentados por todos os autores, de sucesso ou não, Prêmio Nobel ou não. A primeira pergunta que se faz é: tudo bem, vou ler, mas o quê? A resposta é fácil: leia o que você gosta. Deixe de lado os livros que podem chatear, por importantes que sejam. Se você já tem um gênero planejado, melhor ainda. Digamos que você quer escrever romances de fundo social. Leia, então, livros do gênero que pretende explorar e veja neles o que funciona e o que não funciona. Analise o autor, a forma com que ele escreve, como ele desenvolve a ação, constrói os personagens, arma os diálogos, usa o cenário e o tempo, sobretudo como ele transmite sua mensagem.


Todo mundo precisa ler, mas os escritores devem ler. Sobretudo os livros certos. Se um livro é muito chato, e você pena para ultrapassar o primeiro e o segundo capítulo, deixe-o de lado e comece outro, sem a menor culpa. O enfrentamento e a absorção de um livro são coisas extremamente subjetivas. Assim, se um amigo lhe recomendou determinado romance que, além de tudo, está nas listas de best-sellers, talvez seja muito chato para você. Da mesma forma, se um clássico como Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, se impõe à sua leitura como um clássico unânime, você pode achar impossível se interessar por esse mundo e por esses personagens. Não se envergonhe. Deixe-o de lado e parta para outro livro. Algum dia você descobrirá os encantos de Guimarães Rosa. E nem sempre o que é clássico incontestável é o livro indicado para você no momento. Pode acontecer também que você descubra, meio por acaso, outro clássico: começa a ler e se empolga, descobrindo o prazer que há em avançar por ele, um livro que você nunca abordou, porque era venerado pela crítica e o deixava um tanto receoso de enfrentá-lo.


É simples. Siga a maneira recomendada pelo humorista americano James Thurber: “Sempre começo pela esquerda, com a palavra inicial da frase, leio na direção da direita e recomendo este método”.


Como escritor em processo, você tem de ler de um modo diferente. Há quem goste de sublinhar frases ou trechos significativos.


É útil também para destacar metáforas ou comparações espertas. Ou ainda para realçar idéias que você admirou, detestou ou imagina que merecem uma reflexão posterior. Como artesão da escrita, procure sempre no dicionário uma palavra que você não conhece e a incorpore a seu repertório. Afinal, você não está só lendo um texto como um leitor comum; você quer entender como o escritor fez aquilo. Às vezes, apenas sublinhar não basta. Escreva o comentário que surgiu na sua mente, para não esquecer essa primeira impressão.


Se o texto o impressionou e se ele se ajusta ao que você pretende escrever, faça mais um esforço. Leia de novo, depois de saber o que vai acontecer na ação ou quais idéias serão discutidas. Você perceberá com mais clareza os métodos do escritor e, se for o caso, entenderá melhor o que ficou confuso na primeira leitura. Na ficção, você ainda pode ver melhor nessa segunda leitura se o personagem tem coerência, ou se poderia ser dispensado da trama.


A leitura estimula o seu pensamento e pode tornar você mais sensível ao que vai escrever. Com seu primeiro rascunho pronto, você vai começar a editar. Ou seja, vai ler e reler cada palavra e ver se ela está se encaixando no todo, se foi a melhor escolha, até mesmo se está escrita corretamente. Você começa a encarar seu texto como se fosse escrito por outra pessoa. E se você tiver dificuldades em entender alguma coisa ou em achar lógico um ou outro desenvolvimento do texto, lembre-se de que outras pessoas — os seus leitores — também terão.


Portanto, leia, leia muito. Já no século 18, o escritor inglês Samuel Johnson recomendava: “A maior parte do tempo de um escritor é gasta lendo, a fim de escrever; um homem pode levar meia biblioteca para fazer um livro”.



*Artigo publicado na Revista Língua Portuguesa nº 28, março de 2008
(www.revistalingua.com.br)

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