O segredo do diálogo*


Técnica da conversa ajuda a dar cor e força para a ficção, mas requer cuidados para não se errar o tom

por Geraldo Galvão Ferraz


Pergunte a qualquer escritor. Ele certamente dirá que o diálogo é a alma do texto de ficção. Da mesma forma que as conversas é que dão vida às relações entre as pessoas, no cotidiano. Claro, os personagens agem e essas ações podem ser narradas ou descritas. Mas, com os diálogos, as ações e, por extensão, as tramas em que estão envolvidos ganham brilho, agilidade e uma camada de informações suplementares sobre ele e a situação que está sendo narrada.

Pode até se dizer que não há conto ou romance sem alguma forma de diálogo. Como os escritores consagrados podem confirmar, o bom diálogo é uma das ferramentas literárias mais fáceis de dominar. Afinal, todo mundo fala e se comunica, basta caprichar. Mas é preciso cuidado ao usá-lo. Se um bom diálogo até salva um mau texto de ficção do desastre completo, um diálogo medíocre pode arruinar uma boa história.

Os manuais mostram que há duas formas de expressar a fala dos personagens. Uma é o discurso direto, quando o escritor exibe os personagens dialogando, reproduzindo suas conversas. Outra é o discurso indireto, quando o narrador dá a conhecer, com suas palavras, o que os personagens conversam ou ponderam intimamente.
Aqui um exemplo de discurso direto, de uma crônica de Luis Fernando Veríssimo:
“— Tente relaxar...
— Desculpe. É que tem uma parte de mim que, entende? Fica de fora, distanciada, assistindo a tudo. Uma parte que não consegue se entregar...
— Eu entendo.
— É como se fosse uma terceira pessoa na cama.
— Certo. É o seu superego. O meu também está aqui.
— O seu também?
— Claro. Todo mundo tem um. O negócio é aprender a conviver com ele.
— Se ele ao menos fechasse os olhos!”

Que, em discurso indireto seria algo mais ou menos assim:
Ele sugeriu que ela tentasse relaxar. Ao que ouviu em resposta que havia uma parte dela que ficava de fora, distanciada, assistindo a tudo. E acrescentou, ainda, que era uma parte que não conseguia se entregar...”

Travessões e aspas

Luis Fernando Veríssimo usa travessões para indicar ao leitor que se trata de um diálogo. Há escritores que preferem indicar o diálogo abrindo e fechando aspas. Outros colocam as frases dos personagens no meio do texto, sem alertar o leitor que se trata de diálogo. Veríssimo evita isso, sobretudo porque no seu texto não há possibilidade de confundir-se quem está falando — são só dois os interlocutores, um falando a cada vez, e há o uso de penduricalhos que costumam vir coladinhos aos diálogos, especialmente quando há vários personagens falando. Eles são verbos, como "dizer", "afirmar", "ponderar", "concordar", "acrescentar", entre outros.

"O Jorge falou que vai para Santos", disse ela. Ou "O Carlos também está indo", acrescentamos, numa só voz.

O mais comum é o escritor usar o verbo dizer, com pronome pessoal ou não.

"O Jorge vai para Santos", disse.

Trata-se de uma ajudazinha do escritor para o leitor. E qualquer leitor mediano já está condicionado a passar por esse recurso sem tropeçar nele. O cérebro registra o que o personagem disse, mas praticamente não "vê" o tal do penduricalho. É preciso tomar cuidado para não abusar, pois, se muito repetido em trechos próximos do texto, ele perde a invisibilidade e começa a ficar mais importante que o resto.
Há umas convenções quanto a isso. Por exemplo: "Faça isso", mandou, "pode ser o certo." (Depois do verbo-penduricalho, você continua a frase com letra minúscula. A não ser que haja um substantivo ou nome próprio: "Faça isso", mandou, "João acha que é o certo." Se você, entretanto, quiser destacar a segunda frase, ela começa com maiúscula, graças ao ponto final na primeira: "Faça isso", mandou. "Pode ser o certo".

Seja verossímil

Para ser eficiente, o diálogo tem de ser verossímil, tanto quanto os personagens. Isso quer dizer que, como na vida real, cada pessoa tem um modo de falar. A não ser que seja um personagem disfarçado, um lixeiro não convencerá falando como um físico nuclear. Como um dos papéis do diálogo é proporcionar informações sobre o personagem ou a ação, ele tem de ser adequado. Os personagens também não podem errar o tom. Há situações em que as conversas têm de ser formais e outras em que a informalidade é obrigatória. Da mesma forma, usar gíria exige personagens ou situações que sejam adequados a isso.

Reforce o que não foi dito

Os escritores usam recursos para insinuar o que não está sendo dito, sobretudo para reforçar as emoções dos personagens. Assim, um sujeito raivoso fecha os punhos, aperta os olhos; um nervoso fica andando sem parar, se coça; o mentiroso não encara os outros etc. São recursos, mas devem ser apreciados com moderação. No setor das emoções, é comum ver que, quando o personagem está estressado, em crise, as frases são mais curtas, cheias de verbos vigorosos, parágrafos rápidos e diálogos ágeis. O leitor fareja a tensão e a urgência, até lê mais depressa. Nos momentos de calma e ternura, os personagens falam bastante, discutem consigo mesmos. O texto reduz o ritmo da tensão.

Cuidado ao informar

É preciso ter cuidado ao embutir informações nos diálogos. O recurso tem de ser usado em doses pequenas. Nada mais chato do que ler meia página de informações que vêm da boca de um personagem, narrando fatos do passado ou explicando alguma coisa. Uma situação clichê dessas é a do vilão que, depois de amarrar o herói, explica minuciosamente o seu plano de conquistar o mundo, até que o mocinho consiga livrar-se. Lembra-se de James Bond preso pelo Dr. No ou por Goldfinger?
Na leitura dos livros de 007, isso sempre atrapalha a ação, dá aquela tentação de pular para a frente no livro. É uma coisa que só vale para quadrinhos ou paródias.

Basta pensar um pouco no cotidiano, em que essas informações são brevemente mencionadas, já que elas fazem parte do repertório de quem conversa ou nem são referidas, a não ser que se trate de uma aula ou palestra.

Apure o ouvido

Para ajudar um bom diálogo, é interessante ouvir pessoas de várias origens e modos de vida diferentes, para usar como base. Ler para ver como bons autores trataram dos diálogos é recomendável, mas cuidado. Grandes mestres da literatura, por melhores que sejam, muitas vezes ficaram fora de moda ou datados no jeito que construíram seus diálogos. Machado de Assis, por exemplo, um mestre do diálogo nos seus livros, hoje é um veneno para imitadores. Não tem nada a ver com o jeito de falar atual. A não ser que seu livro aconteça em tempos machadianos. E, mesmo assim, corre o risco de virar paródia.

Sem conversa fiada

Os diálogos não devem ser uma cópia exata das conversas da realidade. O escritor pode usar a vida real como essência, mas terá de filtrar o que seria uma conversa, para obter um diálogo. Usará só o fundamental para o diálogo ser ágil, eficiente e provocar uma empatia do leitor com tal ou tal personagem. No diálogo, em geral, não há espaço para se ficar dizendo abobrinhas ou jogando conversa fora. Sob pena de o leitor jogar o livro fora. É sempre bom lembrar que uma função do diálogo é levar a ação adiante, acrescentar um conflito, mostrar algo de novo sobre um personagem.



*Artigo publicado na Revista Língua Portuguesa nº 12, outubro de 2006
(www.revistalingua.com.br)

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