Fedor




Meu gosto por flores é antigo. Eu as compro toda semana para minha casa e agora adotara o hábito para a sala que ocupava como diretora. Coloquei-as num vaso de cristal ao lado da porta, para que fossem vistas do corredor. Algumas colegas apreciaram a iniciativa. Outras não lhe deram importância. Uma detestou.

Certa manhã, ela veio correndo à minha sala logo que cheguei:
— Os girassóis estavam um fedor! - disse ela em voz alta, tapando o nariz para enfatizar a mensagem. Notei que alguém havia retirado a água do vaso e colocado toalhas absorventes no fundo.
— Um fedor! - ela repetiu, olhando, com ar de censura, as gérberas que eu trouxera para substituí-los.
— É hora de jogá-los fora - respondi, com calma.
— Um fedor! - ela insistiu, antes de voltar para sua mesa, batendo os tamancos.

Ocupei a sala por pouco tempo. Minha substituta não aprecia flores, mas elas continuam enfeitando minha casa. Os girassóis são círculos de luz sobre a toalha branca. As gérberas são graciosas bailarinas, a strelitzia pede ajuda para mostrar sua beleza e as orquídeas precisam de longo tempo para rebrotar.

Meu assombro com as pessoas é antigo. Eu nos observo todos os dias para tentar nos compreender. Somos alérgicos a nós mesmos, não suportamos mudanças e até sentimos mau cheiro em girassóis. Desconfio que seja recíproco.

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