Quanto mais dor, melhor!






— Dói?
— Dói.
— E aqui?
— Também.
— Muito ou pouco?
— Muito!
— Quanto mais dor, melhor!
Eu conhecera Nalva numa festa de aniversário, na qual recebi a primeira massagem tão logo ela tomou conhecimento do meu problema: bursite no ombro direito, que já comprometia o movimento dos membros — a mão inchara e perdera a força, enquanto os dedos do pé travavam a cada vinte passos, obrigando-me a mancar o restante do trajeto. Quando ficava nervosa, o lado direito do corpo tremia incontrolavelmente, dando a impressão de um ataque epiléptico.
Além de massagista, Nalva era cabeleireira, depiladora, manicure, pedicure e artesã. Havia sido também guardete e telefonista. Carregava uma bolsa enorme, dessas que estavam na moda, com os apetrechos necessários a suas atividades, e se deslocava a vários pontos do DF. Levava sempre um livro sobre do-in para estudar no ônibus, pacotes de ervas para revender e uma Bíblia.
Nas quartas à noite, inscrevia o nome das clientes na lista de orações da igreja e pedia a bênção do pastor para os casos mais difíceis, como o meu.
— Essa doença não é sua - ela dizia com convicção, enquanto massageava o pé torto ou a mão inchada. — Ela agora é de Jesus!
— Ai! Amém! - eu respondia, sob o ataque da mão forte, quase masculina.
Ao descobrir um ponto mais dolorido, ela insistia nele com o dedão enquanto explicava:
— São as espasmas.
Por recomendação de Nalva, comecei a tomar um chá emagrecedor 30 ervas e a usar uma loção nocauteadora sempre que tinha dor. Depois de um mês, estava mais magra e menos dolorida. Foi quando ela decidiu:
— Agora já podemos começar a drenagem enfática.
Tomadas as medidas de busto, cintura e quadril, ela deu início à ofensiva contra a gordura acumulada durante anos de sedentarismo.
— Você vai desinchar rapidinho - ela previu, socando minha barriga como uma massa de pão.
De fato, após algumas sessões, uma nova medição constatou a perda de 2 cm de circunferência. Nalva sorriu, vitoriosa:
— Na próxima vez, atacamos o rosto.
Vigorosas massagens na papada, máscaras de limão com mel, esfoliação com açúcar cristal e minha expressão rejuvenesceu alguns anos.
Com o tempo, a combinação de do-in, drenagem enfática e limpeza facial mostrou-se um sucesso. Não sinto mais dores, não manco nem tremo quando estou nervosa. Desinchei completamente, a pele está fresca, os olhos, brilhantes. Nalva é que não está muito bem: o excesso de trabalho lhe causou um problema de ciática.

Comentários

  1. Tive o privilégio de ouvir esta maravilhosa crônica ao vivo.
    Ainda hoje caminhei pelo Parque da Cidade e vi anúncio de massagem com drenagem linfática. Esbocei um sorriso. Minha acompanhante exigiu explicações.
    Ela julgou que eu fosse dar uma explicação trivial. Minha explicação foi triunfal.

    ResponderExcluir
  2. Esta crônica é fantástica, pois retrata o cotidiano de dois personagens presentes no DF: quem massageia e quem é massageado - uma troca de energia trivial. Eu adoro, me sinto muito relaxada. Adorei, Lucy.

    ResponderExcluir

Postar um comentário