Memórias de madame

Robson Oliveira








Que casa linda! É o que dizem quando me vêem.
Mas houve um tempo — e que tempo bom aquele — em que meus salões eram fartos com convivas de todas as partes, gargalhadas de moças formosas misturavam-se a fumaças de cigarrilhas e ao odor volátil das bebidas, a vitrola... ah... ela enchia o ar com polcas alegres e dançantes, que tranqüilizavam e alegravam a todos. Toda minha opulência agradava aos poderosos da sociedade, não só pelo luxo, mas aqui eles se libertavam do pesado emaranhado de fios dos bons costumes, dando vazão aos desatinos da luxúria.
Casa da madame Bordeaux, assim todos me conheciam, em função da fama da própria madame Zuleide. O Bordeaux ela adicionou para dar um ar sofisticado ao seu nome.
Madame estava sempre bela mesmo quando não era hora de ofício. Fazia questão de eu estar igualmente como ela, glamourosa! Ela radiante com suas jóias e ornamentos pelos cabelos, eu com meus castiçais e candelabros luminosos; minha fachada é seu rosto, dizia ela, por isso as janelas eram exaustivamente limpas, para que brilhassem tanto quanto seus olhos.
Escutávamos toda sorte de segredos. Nossas camas eram como confessionários, por meio delas sabíamos com antecedência das medidas políticas, manobras militares e até finais das novelas de rádio. Nós sempre estivemos atentas a tudo isso, pois um dia, quem sabe, nos seria útil. Como vocês verão que foi!
Certo dia, depois de muitos anos, quando não tínhamos mais a beleza radiante de antes e a idade de madame refletia nas mãos trêmulas, enquanto minhas pilastras rangiam sob o peso do tempo, e nossa fachada demonstrava apenas uma lembrança da bela arquitetura de outrora, chegou uma mensagem que mudaria as coisas:
— A senhora é Dona Zuleide BOR-DE-AUCS?
— É Bordô! Por acaso você fala Brigitte BORDEAUCS? E o que deseja?
— Telegrama do IPHAN para a senhora.
O telegrama dizia que todas as casas do conjunto seriam elevadas a patrimônio arquitetônico. Que maravilha! Pensamos por um instante, bem que merecíamos isso! Até observarmos na linha vermelha com letras maiúsculas. Todas seriam tombadas, exceto eu. Argumentavam que o desejo da sociedade influenciou na decisão; não seria de bom tom tombar um bordel como patrimônio de uma cidade com figuras tão distintas. Ficamos muito irritadas com aquilo. Para os Diabos! Gritou madame, e eu prolonguei o eco de seu brado por todos os cômodos. Depois do momento de fúria, a calmaria foi angustiante para nós. Madame pelos cantos, muito triste e decepcionada com tal decisão, e dentro de minhas entranhas tentei em vão aquecê-la, pois tudo em mim são lembranças de uma época que agora está na parte escura do tempo, e só a saudade consegue iluminar parcamente esses momentos do passado.
Mas, em um de meus cômodos, surge um lampejo de memória, madame se agita e corre de um canto a outro olhando baús velhos em busca de nossas antigas memórias confessadas na presença do sacerdote da libido e do álcool, aliados traiçoeiros dos homens. Esse segredo...hunf! Não será guardado pelos votos de um ofício.
Todos os antigos diários foram reunidos, nos deliciávamos como há muito tempo não fazíamos, confabulamos juntas uma estratégia perfeita, sem falhas e, o melhor, avassaladora! Entramos em contato com um amigo antigo, um dos poucos que nos restavam, o Dr. Dantas, advogado que gosta de estar sempre em evidência, não se contentava com apenas quinze minutos de fama, sagaz como uma raposa nos tempos de juventude, agora, uma raposa velha que não dá ponto sem nó. Explicamos para ele toda a situação e lhe mostramos os velhos diários, o que o fez soltar gargalhadas há muito tempo não ouvidas.
Depois de suas orientações, entramos em contato com os órgãos de imprensa e nos prontificamos a entregar os antigos diários, os quais mencionavam muitos dos ilustres cidadãos de que a cidade tanto se orgulhava, e mais, que muitas decisões de interesse da sociedade brasileira foram tomadas aqui, em nossa presença. Está tudo registrado nos pormenores, na memória da casa de madame Bordeaux.
Feito isso, vimos que as orientações da “velha raposa” surtiram os efeitos que esperávamos, ele sob os fleches da imprensa, e nós com a atenção merecida por parte de todos.
Políticos que se sentiam comprometidos entraram em contato com madame, nenhuma ameaça contra nós adiantaria. O Dr. Dantas providenciara tudo, caso nos acontecesse algo, as memórias viriam à tona. Como a velha raposa não dava ponto sem nó, recebemos outro telegrama.
— A senhora é dona Zuleide Bor...
— Esquece! O que deseja?
— Telegrama do IPHAN.
Nesse telegrama vinha escrito que o Conselho do Patrimônio Histórico tinha reconsiderado a decisão do tombamento e uma verba seria liberada para a minha revitalização. Assim, ganhei título de nobre e de casa, passei a ser chamada de Casarão, está lá! No Livro do Tombo.
Madame e eu vivemos felizes por mais alguns anos. Essa felicidade era expressa pelos nossos rostos maquiados e pelo sentimento mútuo de admiração uma pela outra. Somos uma só, temos o mesmo nome. Cheguei a essa conclusão numa manhã em que estávamos geladas e o tempo pareceu fechar-se para nós; o silêncio imperava e de casarão passei a mausoléu.
Madame estava linda sobre sua cama, cabelos de algodão, detalhes de mãos serenas que não tremeriam mais. Desde que os olhos de madame perderam os brilhos, minhas janelas ficaram opacas, minhas fundações não vibram mais sob seus passos. O que me restou foram as memórias, que me tornam um casarão com alma de madame.


(Imagem: "Madame X", John Singer Sargent, 1883-84)

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