Alencar em Brasília, I e II*



Ana Miranda





“A crônica é a apropriação literária de um instinto humano. O de comentar a vida.”



Um leitor perguntou a um cronista se a crônica estava acabando — como o livro está acabando, dizem as más línguas, como o romantismo está acabando, como a história, o amor, o pão-de-ló, a família, a honestidade, a infância, o machismo, a preguiça, o salário, a ideologia, a intimidade, o passeio noturno. O cronista respondeu que, por enquanto, ainda nem conseguiram definir o que é a crônica.


Em sua nobre missão de sistematizar os equívocos, diz o antigo dicionário: “História ou narração dos fatos, segundo a ordem dos tempos”. Sim, antes de José de Alencar a crônica era a narração dos principais acontecimentos. Mas os principais acontecimentos podem ser: um par de luvas pretas esquecidas numa casa, uma amendoeira que perde suas folhas, os trovões de antigamente, o triste destino de Copacabana ou o poema que não foi aprovado, segundo Rubem Braga e Machado de Assis, dois cronistas que o tempo preservou.


Machado dizia ser o “triste escriba das cousas miúdas”. Affonso Romano de Sant’Anna disse que o cronista é o jornalista que escreve na primeira pessoa. Zuenir Ventura reafirmou que o cronista é um escritor míope, olha as coisas mais próximas.


O pai da crônica brasileira talvez seja Gregório de Matos. Nas suas sátiras, anotou os costumes no nosso período colonial. Para Machado de Assis, a crônica nasceu não se sabe a data, mas certamente com as primeiras duas vizinhas que “entre o jantar e a merenda sentaram-se à porta, para debicar os sucessos do dia”. Percepção brilhante: a crônica é a apropriação literária de um instinto humano. O de comentar a vida. (...)


Rio de Janeiro, setembro de 1854. Dois homens, em seus fraques de lã negra, cartolas e bengalas, caminham no Passeio Público, enquanto conversam. Um deles, o mais velho e mais alto, é Francisco Otaviano, grande jornalista, homem culto, sensível, observador. O outro é o advogado recém-formado José de Alencar. Otaviano convida Alencar para substituí-lo no jornal, como folhetinista.


O folhetinista, segundo Machado de Assis, era a fusão admirável do útil e do fútil, o parto curioso e singular do sério, consorciado com o frívolo. O folhetim era uma forma de jornalismo, essencialmente informativo e muitas vezes crítico, onde o folhetinista comentava os acontecimentos da semana, tanto políticos e econômicos quanto sociais ou artísticos. Um dos temas prediletos eram os brilhantes discursos proferidos no Senado e na Câmara dos Deputados. Foi o folhetim que deu origem à crônica, como gênero literário brasileiro.


José de Alencar aceita o convite e passa a escrever os folhetins Ao correr da pena. Dá notícias do Paraguai, da programação do teatro lírico, escreve sobre a arte de chorar, a missa do galo, o asseio da cidade, fala sobre a diferença entre o sorrir e o rir, ensina como se escreve sem tinta...
A coluna de José de Alencar obtém grande sucesso. Dois anos depois ele é chamado a dirigir um jornal e passa a escrever os assuntos “sérios” nos editoriais. Sua coluna, agora, chama-se Folhas soltas. Ali ele escreve as primeiras crônicas, como as conhecemos hoje, com licença para o lirismo, a poesia, o devaneio, sem a necessidade de comentar os acontecimentos semanais.


Agora, Alencar passeia em Brasília. Está feliz, pois nesta cidade parece se realizar um sonho seu, de integração cultural. Os extremos em Brasília se cruzam, a cidade se irradia para todas as regiões do Brasil. Pena que não há mais, no Congresso, aqueles discursos de brilhantes senadores e deputados, que tanto animavam a antiga capital, todos os dias. Mas o folhetinista continua a ter muito assunto para seus devaneios.




*Texto condensado das crônicas publicadas no jornal Correio Braziliense, Caderno C, em 20/08/06 e 10.09.06
(http://www.correioweb.com.br/)
(http://www.anamirandaliteratura.hpgvip.com.br/)

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